Premium O padrão espanhol

Espanha vai a eleições gerais pela terceira vez em pouco mais de três anos. À fadiga eleitoral junta-se a partidária e a ausência de soluções pactadas, tal como as que definiram a transição para a democracia. O beco, pese embora as características próprias, não é um exclusivo de Espanha.

Vai ser um mês de votações contínuas, entre as legislativas (28 abril), as 13 autonómicas e as europeias (26 maio). Um semestre em campanha diária, num quadro de polarização argumentativa, profunda fragmentação partidária, equilibrado a quatro nas projeções de voto (PSOE, PP, Ciudadanos e Podemos), e com um quinto (Vox) a tentar ser o novo pêndulo de governos à direita, replicando o que se passou recentemente na Andaluzia. Poderíamos pensar que Espanha vive um momento dramático na sua economia, uma entropia nas exportações, uma crise sem paralelo no emprego, mas não é isto que acontece. A recuperação pós-crise tem superado as expectativas, os rendimentos per capita ultrapassaram já os de Itália, e a dinâmica de crescimento tem ultrapassado os 3% ao ano. Mesmo assim, em pouco mais de três anos (desde dezembro de 2015), os espanhóis terão enfrentado três legislativas, o que entrelaça muito mais a instabilidade governativa com as transformações que estão a ocorrer nas identidades partidárias do que com a conjuntura económica.

Na ressaca da grande crise financeira, o escândalo de corrupção que foi minando o PP correu em paralelo com a complexa gestão da independência catalã, provocando uma combustão perfeita geradora de novidades no mercado eleitoral. Se o Ciudadanos foi a versão moderada dessa síntese, o Vox aparece como a tradução inevitável do ar dos tempos ocidentais. Até abril, tendo em conta as sondagens, o PP pode ficar cristalizado entre aqueles dois partidos, sem arte e engenho para se abrir a novos eleitores. Neste momento, arrisca-se mesmo a ser o terceiro partido nacional, depois de evaporado na Catalunha em 2017. Claro que, como se viu na Andaluzia, existem compatibilidades à direita, mas uma coisa é vingar uma solução política regional sendo o PP o maior partido; outra, diferente, é o PP ser ultrapassado nacionalmente por um partido originalmente regional como o Ciudadanos. Nesse momento, além das dificuldades gerais para se encontrar um governo saído das legislativas, poderemos ter uma luta interna sem quartel no PP, com o Vox a esfregar as mãos. O que hoje, à luz das sondagens, é visto como a única aritmética parlamentar que garante uma maioria (Ciudadanos, PP e Vox) tem tudo para espelhar uma nova frente de incompatibilidades políticas em cima do clima de trincheira ideológica em que Espanha mergulhou.

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