Premium O imprevisível futuro


Quando o abade Correia da Serra escreveu ao seu amigo Jefferson a famosa carta em que vaticinava que os EUA teriam uma função ordenadora no norte do continente, e que o Brasil a teria no sul, estavam numa época em que o globalismo não era um tema assumido, ou mesmo pressentido, que viria a desafiar os fundamentos da auspiciosa previsão. É do século passado, isto é, de ontem, o entusiasmo de Kubitschek de Oliveira pela síntese de futuro ambicionado na promessa do "Brasil, Brasis, Brasília", e nem esta lhe consentiram que visse nascer do nada. Também o "destino manifesto" que animou ver os EUA como "a casa no alto da colina", gerindo o seu "destino manifesto", foi uma visão que não resistiu ao destino comum dos impérios, formais ou informais, com a sua crónica de projeto, crescimento e declínio. Ambas as previsões do experiente Correia da Serra foram frustradas pela situação no norte e no sul do continente, com a invalidação do conceito acompanhada pela total incapacidade de previsão do futuro global. Lembrando a conclusão da antiga primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher, quando concluiu que não havia alternativa para o liberalismo, ela não viveu o suficiente para meditar a observação pessimista de Harari no sentido de que "o liberalismo deu um passo radical ao negar todos os dramas cósmicos, mas depois recriou o drama no interior do ser humano - o universo não tem enredo, então cabe aos seres humanos criarem um enredo, e essa é a nossa vocação e o sentido de nova vida". Agrava-se porém a circunstância de se multiplicarem os chamados populismos, dos quais a mais inquietante síntese foi a de Noam Chomsky quando concluiu que "o povo está zangado", o que se evidencia no progressivo desencanto com a insuficiente governança em fragilidade crescente, mas não mostrando criatividade que reponha a paz dos espíritos e a esperança de vida aceitável. Por isso, mais do que um "desajuste económico e financeiro" que fez alertar a tendência populista a todo o mundo, como concluiu Maalouf, o que mais parece evidenciar-se é que o ajuste que funcione não coincide com o proclamado nos projetos normativos em vigor. Por isso declina a intervenção ou cresce a omissão das instituições formalmente responsáveis, mas de facto inoperantes, sem que deixem de funcionar poderes informais, mal conhecidos, sem cobertura legal, e de quando em vez invocados pela investigação dos meios de comunicação social que se mostram fiéis à ética da profissão e à independência profissional. E daqui a enumeração das inquietações de Harari, que as editoras resumem para que a atenção dos cidadãos seja despertada, perguntando "como podemos proteger-nos de uma guerra nuclear, dos cataclismos ecológicos, ou das falhas tecnológicas, o que podemos fazer contra as epidemias de notícias falsas ou a ameaça do terrorismo, e, sobretudo, o que devemos ensinar aos nossos filhos". Esta a pergunta mais angustiante, porque se trata do futuro dessas gerações, e a nossa capacidade de prever o futuro não é maior do que a do abade Correia da Serra, que tinha maiores certezas por ter menos informação. Lembrando de novo Maalouf, nascido no Líbano, "todos os povos que se diferenciam pela religião, pela cor, pela língua, pela história, pelas tradições, e a que a evolução obriga a controlar-se continuamente - saberemos conseguir que vivam juntos em paz e harmonia? A pergunta coloca-se a todos os países, a todas as cidades, e incluso com alcance planetário. E a resposta, hoje, continua incerta". Valores que levaram séculos a implantar, com as religiões, a nação, as culturas diferenciadas, tudo subitamente parece ameaçado pelo castigo ao projeto da Torre de Babel. A última pretendida proclamada esperança em progresso é a convicção de ZucKerberg de que a inteligência artificial fortalecerá a solidariedade de "comunidades com sentido", contribuindo para, com engenharia social, fortalecer a solidariedade mundial. Não é negável que, ao lado de erros ou projetos malévolos, como se viu na última guerra mundial, todavia devemos a pensadores políticos, estadistas esclarecidos, e também apóstolos religiosos, intervenções que convergem no "património imaterial da humanidade", e que se o futuro é de previsão incerta, eles representam o que de mais confiável possuímos. A subalternização desse património não contribui para esclarecer a pesquisa do futuro, mas contribui seguramente para debilitar os alicerces a preservar do passado. As instituições que foram criadas, como a ONU, com a certeza de impor o "nunca mais" que animava os fundadores, pedem restauro e não demolição.

Professor universitário

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