Quem se mete com o PS, leva

"É melhor perguntar porque é que, durante a campanha eleitoral, a própria CAP aconselhou os eleitores a não votar no Partido Socialista." Foi esta a forma que a ministra da Agricultura considerou adequada para responder a quem a questionava sobre a não concretização dos apoios previstos, sucessivamente anunciados e nunca chegados ao setor agrícola. Ajudas adiadas desde o início do ano, sem explicações ou grandes demonstrações de preocupação relativamente à miséria que está a chegar à vida dos agricultores, entre os efeitos da guerra, da inflação e da seca no país.

Arranjem-se com o que têm e não se queixem, senão será pior - é a tradução das palavras da senhora que tutela o setor. Mas talvez Maria do Céu Antunes estivesse a ser honesta. Talvez estivesse simplesmente a constatar que a CAP tinha razão em aconselhar aqueles que representa a votar de outra forma, porque este governo não lhes traria nada de bom. Ou a lembrar os mais distraídos de que o PS cuida dos seus e, nas palavras do desaparecido mas sempre recordado Jorge Coelho, quem se mete com o PS, leva.

"Bullying político", disseram os agricultores, perplexos com a falta de respeito e a indiferença de um governo que ostensivamente vira costas às tremendas dificuldades de um setor que propagandeia ser imprescindível, mas cujos atores despreza com a arrogância que tem sido imagem de marca de uma maioria absoluta que aos seis meses já revela todos os vícios do absolutismo.

Depois de dois anos de pandemia e de esforços incansáveis para nunca faltar comida aos portugueses - com amplos elogios feitos pelo próprio António Costa aos agricultores e rasgados agradecimentos a quem nunca parou e contornou as imensas dificuldades geradas pela situação de emergência sanitária para assegurar que os produtos chegavam às prateleiras -, os bestiais passaram rapidamente a bestas.

Não devia espantar ninguém. Já o tínhamos visto em relação aos profissionais de saúde, cujo empenho incansável durante a covid foi aplaudido e até fez a ministra Marta Temido lacrimejar. Passada a emergência, o Executivo passou a comportar-se como se afinal médicos e enfermeiros fossem um bando de meninos mimados e malcomportados, que não percebem que têm de trabalhar as horas que lhes dizem e nas miseráveis condições que têm, mesmo que não lhes paguem, e ainda deviam agradecer por isso. Até o Presidente Marcelo parece andar esquecido ou ter sido contagiado pelo vírus deste Portugal ao contrário.

Quanto a Maria do Céu Antunes, contestada desde quando era Albuquerque por quantos com ela lidaram nos tempos em que comprava oliveiras de luxo para Abrantes, tem mantido essa capacidade de gerar opinião unânime sobre a sua liderança. A esperança de mudança que o setor ainda mantinha, depois da má surpresa da sua continuidade na pasta da Agricultura, foi prontamente obliterada pelos danos causados em atos e palavras. Aos agricultores resta esperar que não seja tão má que Costa a faça ficar até ao fim, como fez com Cabrita e Temido.

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