Presos no novelo dos calendários do Brexit. É este o resumo semana após semana que esgota e desgasta a política europeia. Claro que os calendários trazem uma série de dilemas políticos dificilmente desvalorizáveis (negociações interpartidárias, eleições, mudanças de líderes, quem sabe um novo referendo), mas o que fica sinalizado é isto: uma União mergulhada em assuntos internos que ofuscam a sua projeção para o exterior. Basta lembrar a diferença de mediatismo que teve o enésimo debate nos Comuns em comparação com a cimeira entre a UE e a China. Em véspera de eleições europeias este não é um detalhe de avaliação jornalística, mas um sintoma da forma como a União se projeta: amarrada ao pessimismo interno, desaproveita uma oportunidade de vender os méritos da integração no diálogo direto com uma grande potência em ascensão. O caso não é de somenos..Não sei quantos europeus, em vésperas de eleições para o Parlamento Europeu, saberão que a UE continua a ser o maior bloco comercial do mundo, o espaço com mais fluxos de investimento a entrar e a sair, o palco das regras mais generosas de comércio interno e a geografia com os melhores índices de distribuição de riqueza. Além disso, é hoje o grande bloco exportador global, com superavit na balança comercial, estando a China a caminho de equilibrá-la e os EUA deficitários. As economias abertas europeias e o poder de compra dos seus 500 milhões de consumidores são demasiado apetecíveis para a estratégia chinesa de conquista de novos mercados, consolidação de ativos estratégicos e projeção do seu estatuto global. Do ponto de vista europeu, seria errado inverter esta lógica de liberdade comercial e abertura à globalização, passando a jogar à medida da tribo nacionalista, fechando-se no protecionismo. O medo, o empobrecimento e a conflitualidade passariam a dominar completamente as relações entre europeus e entre estes e o resto do mundo. Não pode ser por aí..Mas abertura não é discricionariedade. Nem pode ser total disfuncionalidade bilateral ou mesmo ausência de músculo negocial. É verdade que a lógica da UE assenta numa solução vencedora para as partes, ao invés da atual administração americana que procura uma vitória para o seu lado, seja por ameaça, desgaste ou rendição. Também é verdade que, no campo multilateral, dois importantes acordos (Paris e Irão) e intenções de reforma (OMC) unem hoje bem mais Bruxelas a Pequim do que a Washington. Acresce a isto uma postura europeia excessivamente macia que tem permitido a Pequim consolidar a sua ascendência. A demonstração cabal desta lógica tem sido demonstrada nos atributos que a UE tem concedido às empresas chinesas no espaço comunitário (liberdade de atuação e segurança jurídica) e que manifestamente não existem no sentido inverso. Apesar das vinte rondas negociais mantidas nos últimos seis anos com vista a fechar um acordo de investimento UE-China em 2020, a verdade é que essas duas condições de verdadeira reciprocidade relacional não estão garantidas..Neste vazio, os Estados membros foram inundados de investimento estratégico chinês (Portugal está em oitavo no acumulado desde 2000), que uns dirão ter sido fundamental à solvência de grandes empresas, outros ter sido o único em momentos financeiramente críticos, outros ainda não terem merecido o escrutínio que ajudaria a filtrar impurezas entretanto descobertas. Tudo isto são argumentos válidos, mas não podem continuar a ser os mesmos num ciclo relacional mais equilibrado e maduro. Para tal, a Comissão lançou um mecanismo de monitorização permanente em cooperação com os Estados-membros, estando também estes hoje mais alertas (e pressionados) em relação às dúvidas (justificadas) sobre influências nas redes digitais, infraestruturas críticas e decisões políticas..É que se a total boa-fé imperasse, a China não precisaria de, em três dias, celebrar uma cimeira com a UE em Bruxelas e ir a correr fazer outra com 17 países europeus (centro e leste) à Croácia. Só tem esta abordagem quem sabe perfeitamente as vulnerabilidades da Europa e quer aproveitar a falta de sintonia estratégica que a percorre, projetando-se com força no meio dessas divisões. Aí, os Balcãs, maioritariamente fora da UE, são o flanco privilegiado ao interesse chinês (comercial, energético, infraestruturas), a Grécia e a Itália (o único G7 que ratificou a Belt and Road Initiative) consolidam posições no Mediterrâneo e a Hungria garante a convergência entre as rotas da Ásia Central até ao centro da Europa. Tudo isto é brilhante do ponto de vista de Pequim. Pode, aliás como muitos dos seus milhões injetados nas economias europeias, ser visto de forma acrítica, ligeira e excessivamente otimista. Ou então com o ceticismo que tudo isto comporta (que o digam a Malásia, a Birmânia ou o Sri Lanka). Ou, ainda, ter na UE o único interlocutor capaz de equilibrar esta passada, dado que nenhum Estado membro sozinho ou em fogacho regional conseguirá alguma vez projetar poder à mesa. O rumo da globalização (tecnológica, comercial, energética, política) está a ser ditado pelas grandes potências continentais, todas elas territorialmente imponentes, não necessariamente em conjugação de esforços (EUA, China, Índia, Rússia, Brasil). Sem a UE, nenhum país europeu tem condições para moldar os acontecimentos. Com a UE fragilizada e sem foco, o alcance é pífio. Será o perfil das instituições comunitárias saídas das eleições de maio a ditar também as condições para moldar a globalização com marca europeia..No final do dia, eleitoral ou não, é isto que terá mais impacto nas nossas vidas. E não apenas o efusivo momento em que os deputados britânicos conseguem pôr-se de acordo. Investigador universitário