Da geringonça I à libergeringonça II?

Nesta semana, os debates para as legislativas subiram de qualidade, na forma e no conteúdo, cortando com a primeira ronda em jeito de pugilato, num autêntico ringue de boxe. Agora os eleitores começam finalmente a ouvir e a perceber melhor o que divide e o que une os candidatos. No caso do debate de ontem, entre António Costa e Catarina Martins, houve ainda um forte ajuste de contas em relação ao passado - os últimos seis anos de governação - e, nesse sentido, Catarina não poupou nos ataques a Costa, mas recebeu na mesma moeda.

Apostando num cenário de ausência de maioria absoluta socialista, Catarina jogou tudo para mostrar que é imprescindível e uma noiva disponível. Mas colocou duas metas para que isso aconteça: acordos na saúde e no trabalho. Se para Costa o Bloco se "cansou" de fazer parte de uma solução de governo", para Catarina o BE "não se cansa", mas o anterior acordo tinha um "horizonte".

António Costa tentou encostar Catarina Martins mais à esquerda e ao radicalismo, evidenciando a forma como luta para alcançar uma governação sozinho, sem parceiros de esquerda, como o Bloco ou o Partido Comunista. Até porque a confiança entre PS e BE há muito que acabou. Há até um sentimento de cansaço na relação política entre ambos. Nas palavras de Costa há dois Blocos: um de mel e um de fel. "O da campanha eleitoral, com muito mel, e o que atua na Assembleia da República, com muito fel."

Por falar em fel, há temas que claramente afastam os dois candidatos. Entre os da saúde agrupam-se assuntos como o investimento no Serviço Nacional de Saúde e as carreiras do pessoal médico; nos do trabalho são a legislação laboral e a agenda para o trabalho digno a distanciá-los. A tudo isto juntam-se dossiês como a discussão em redor do fator de sustentabilidade das pensões, de que Costa não abdica e que Catarina quer cortar, e a opção ideológica em torno do papel e da missão que devem ter as grandes empresas que eram públicas, depois foram privatizadas e que o Bloco quer recuperar para o Estado, como é o caso da EDP, dos CTT, da REN e da Galp. O que, na visão do PS, "agravaria a dívida pública".

Se na segunda-feira assistimos a fortes entendimentos entre o PSD e a Iniciativa Liberal - e ficou claro que dali poderá vir a nascer não só um namoro como uma libergeringonça -, na terça-feira ficou à vista de todos que entre PS e o BE a geringonça quebrou-se há muito. E parece manter-se sem conserto.

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