Entrámos na semana decisiva do Brexit, finalmente a votos nos Comuns no dia 15, mas não é na avaliação do processo que quero centrar esta análise, é no seu enquadramento mais lato. Ou, se quisermos, mais continental. Nem o caos processual do Brexit deve ser visto apenas do ponto de vista do calvário britânico, nem a erosão da qualidade na oferta partidária é um exclusivo dos partidos conservador e trabalhista, nem a gestão comunitária, coesa até agora, pode olhar para esta reta final do Brexit como um assunto bilateral com Londres. Não é. Nem nunca foi. Sem tirarmos a grande angular ao momento europeu, vamos olhar com surpresa para os resultados das europeias de maio, sem termos conseguido evitar esse desenlace. Qual? Um terço do Parlamento Europeu nas mãos de nacionalistas. Vai ser esse o momento-chave para a próxima década europeia e é aqui que o Brexit encaixa: não como um dilema isolado, antes parte de uma inquietação maior. . Quando, previsivelmente, o acordo negociado por Theresa May for chumbado nos Comuns, sem que o adiamento decidido há um mês tenha trazido qualquer alteração ao texto, Jeremy Corbyn vai dar início ao derrube da primeira-ministra. Dificilmente tem votos para o fazer passar, até porque, ao recusar recentemente inverter o Brexit, alienou muitos deputados e eleitores trabalhistas comprometidos com essa causa. Tal como em 2016 foi difícil acreditar num David Cameron empenhado na defesa da UE, em 2019 continua a ser politicamente vazio esperar que Jeremy Corbyn alguma vez tenha deixado o Old Labour antieuropeu. Ou seja, tem tanta credibilidade quem dá origem ao Brexit como quem, supostamente, deveria apresentar uma alternativa. É precisamente entre os dois que reside ainda a margem política de May..Apesar dos erros de cálculo e da fragilidade do seu cargo, a primeira-ministra chegou a um acordo de Brexit ordenado (a prioridade), garantiu um período de transição sobre normas danosas ao poder britânico na Europa, resistiu a demissões sucessivas, venceu uma moção de censura interna (que lhe garante mais 12 meses sem ter de se sujeitar a nova), e tem mantido intacta a coligação com os unionistas, mesmo não comprando estes o acordo de saída. Pode, por isso, ser precipitado dizer que o chumbo do acordo nos Comuns levará à demissão da primeira-ministra. Penso, aliás, que tudo está preparado para uma dramatização nas últimas 48 horas (líderes empresariais, financeiros, ordens profissionais e sindicatos) capaz de aproximar a aritmética parlamentar da quase aprovação, levando deputados de várias bancadas a um rebate de consciência pragmático. Não acontecendo, também não será estranho que Theresa May peça formalmente a Bruxelas a extensão do artigo 50, evitando o cutelo de 29 de março, preparando assim terreno para um debate público em que um novo referendo, a revogação do pedido de saída e novas eleições disputem outra legitimidade democrática. Qualquer que seja o caminho, uma coisa é certa: o dramatismo vai perdurar, a oferta partidária continuará confusa e desconectada entre si, e no meio do ruído que a indefinição levanta sairão das tocas todos aqueles que se entretêm a afiar facas por puro deleite de poder pessoal, sem pingo de sensatez sobre o interesse do país..É neste perfil disruptivo que encaixa a loucura de Nigel Farage e o palhacismo de Boris Johnson, que aliás foi suficientemente franco ao aliar humor à impreparação política para forjar uma agenda alternativa à UE como ministro dos Negócios Estrangeiros. Como seria de esperar, ninguém o levou a sério. Mais a sério devemos acompanhar o alinhamento expresso há dias entre Di Maio, Salvini e os coletes amarelos franceses ou e a continência recorrente de Marine Le Pen a Putin. À entrada de um ano em que as europeias podem acelerar a transição de poder na Alemanha, descapitalizar ainda mais Macron, atrasar a entrada em funções da próxima Comissão - menos coesa e mais enfraquecida para lidar com as prioridades comunitárias -, reforçar o eixo Salvini-Le Pen e fragmentar ainda mais a governação de Espanha, quem disser que nas eleições de maio não se joga o interesse nacional de Portugal não percebeu ainda como se cose a política contemporânea. .Mais. A esquecida e desprezada Ucrânia entra num ano de legislativas e presidenciais férteis a nova intromissão russa, seja ela tecnológica ou física: desde o fim da Guerra Fria que o seu poder naval não era tão visível nos mares Negro e de Azov. Assistiremos ainda à transição de liderança no Banco Central Europeu e à tensão comercial entre Washington e Pequim como um novo normal. No meio disto tudo, os trilhos por onde caminhar o Brexit serão apenas mais um novelo nesta complexa engrenagem ocidental. De uma coisa podemos estar certos: Portugal pouco ou nada pode fazer para moldar a voragem destas várias dinâmicas. Mas é por estarmos tão expostos a todas, direta ou indiretamente, que as deveríamos discutir e trabalhar com a máxima antecedência e profissionalismo. O poder costuma cair no colo dos populistas quando os desvalorizamos ou nos desleixamos. Não cometamos nenhum destes erros.