Tal como Bill Clinton (1994), George W. Bush (2006) e Barack Obama (2010), também Trump perdeu a Câmara dos Representantes nas primeiras intercalares que enfrentou. Para alguém que adora projetar-se como uma das grandes singularidades que a América alguma vez produziu, ter de entrar no rol das tradições políticas do sistema não deve ter sido fácil. Ganhar de supetão enche-lhe o peito, mas ser mais um na história das intercalares expõe-lhe os maus fígados..A primeira vítima do destempero presidencial foi o jornalista Jim Acosta, a besta negra da Casa Branca nestes dois anos de relação com a imprensa. Claro que para a base eleitoral de Trump o ataque ao repórter da CNN é um dever moral do presidente. Mas o ângulo mais relevante não é este, mas sim até onde a Casa Branca está disposta a ir para desacreditar um jornalista por si credenciado. Montagem de imagens para o denegrir, interdição de acesso, agressividade verbal do presidente e revanchismo pós-eleitoral imediato, foram os sinais emitidos por Trump na ressaca eleitoral. Já sabíamos que o seu temperamento não o recomendava para o cargo, agora percebemos que piora quando os resultados não lhe correm bem. Isto significa que a linha dura contra alguns mediaselecionados vai continuar ou mesmo piorar, inspirando outros, de Brasília a Budapeste, com evidentes ganas de atropelar a liberdade de imprensa como prioridade política..Não pode por isso ser desvalorizado o cerco punitivo que Viktor Orbán está a fazer ao que resta do jornalismo livre na Hungria e o facto de 80% dos congressistas do Partido Popular Europeu - por voto favorável ou por abstenção - terem eleito Manfred Weber como candidato oficial à presidência da próxima Comissão Europeia, alguém que não tem feito outra coisa senão acomodar todos os atropelos à liberdade e ao Estado de direito protagonizados pelo primeiro-ministro húngaro. Angela Merkel pode apoiá-lo em nome da sobrevivência da coligação alemã; outros por acharem eleitoralmente proveitoso guinarem pelo nacionalismo até ao teste das europeias no próximo maio; outros ainda para estarem ao lado da maioria e com isso sentirem o conforto dos grandes. Admitamos tudo isto. Mas todos têm de assumir as consequências das suas escolhas e o que fica para a história é a opção feita por um político sem qualquer experiência governativa na Alemanha ou na sua Baviera, e sem ter feito mais na vida do que permanecer há 14 anos embrenhado na política de corredores do Parlamento Europeu. É desolador que, num momento crucial para o futuro próximo da Europa, seja isto que a sua maior bancada parlamentar tem para oferecer à União..Voltemos a Washington. A segunda ação de Trump após o resultado das intercalares e depois do caso Acosta, deu-se com a demissão de Jeff Sessions da pasta da Justiça - a quem cumpre a tutela da comissão Mueller responsável pela investigação ao conluio entre o team Trump e o Kremlin em 2016 - e a bizarra substituição pelo até aqui seu chefe de gabinete, Matthew Whitaker. Em condições normais subiria o vice de Sessions, Rod Rosenstein, a quem coube a escolha de Mueller, mas a lealdade de Whitaker a Trump sobrepôs-se a tudo. Mesmo tendo poderes transitórios, Whitaker tem na sua posse a opção chave sobre o relatório final da comissão Mueller: ou envia ao Congresso, ou remete-o para a gaveta..Com a maioria democrata na Câmara dos Representantes - onde um processo de impeachment se inicia legalmente e, após ser aprovado por maioria simples, passa para o Senado - podemos ter neste circuito (Mueller, Whitaker, Trump, maioria democrata) o foco da política americana nos próximos meses. A tentação democrata vai ser fazer a vida negra ao presidente. Contudo, à semelhança do que fez Newt Gingrich a Bill Clinton quando os republicanos venceram a Câmara Baixa, em 1994, o efeito pode não trazer dividendos eleitorais. Na altura, o bloqueio legislativo e o cerco montado a Clinton foram de tal monta, que os americanos casaram por não premiar a estratégia e reelegeram o democrata em 1996. Hoje, com um presidente que adora estar no centro de todos os cercos e bloqueios, a tentação democrata pode favorecer esta estratégia: ao bloquearem legislação e financiamento apenas porque sim, acrescentam ainda mais coesão à base eleitoral de Trump para atacar a reeleição em 2019-2020..Os democratas têm assim, a partir destas intercalares, uma responsabilidade acrescida: precisam de responder à confiança que os eleitores lhe deram - mais 7,2% de voto popular do que aos republicanos -, refazendo a agenda política à imagem da pluralidade da sua plataforma eleitoral, sem ficarem reféns diariamente da agenda do presidente. Por outras palavras, não podem passar dois anos ancorados a uma força de bloqueio permanente a Trump. Deviam mesmo, como propôs Beto O'Rourke na sua campanha para o Senado, tirar Trump da sua narrativa diária, dar-lhe menos relevância pública, e provarem que são capazes de criar alternativas nas várias políticas públicas, sobretudo nas domésticas em que a Câmara dos Representantes é mais ativa. Além disto, os democratas precisam de elevar o nível de notoriedade de alguns dos novos rostos eleitos, capazes de chegar às primárias do partido com outro peso político para além do que conquistaram no seu estado. Foi assim com Barack Obama em 2004. A atual tentação por figuras do passado aristocrático do partido implica que não aprenderam nada sobre o que aconteceu a 8 de novembro de 2016..Quer isto dizer, como alguns analistas têm tentado passar, que o partido colou definitivamente à ala esquerda (de Bernie Sanders, se quiserem) e está a contribuir para esvaziar definitivamente o centro e as pontes bipartidárias na política americana? Pelo contrário. Estas intercalares até mostraram o sucesso de muitos centristas do partido democrata, sobretudo no Midwest, onde habitualmente se decidem as presidenciais. Ou seja, e esta é uma leitura que interessa ao espaço social-democrata europeu, os democratas não estão condenados a uma deriva demagógica à esquerda como equilíbrio à demagogia conservadora. Quando muito, lá como cá, a heterogeneidade desta geração de políticos eleitos e a plataforma que representam tornam mais complicada a definição de uma agenda nacional compreensível e motivadora. A seu favor têm a oficialização do monocromatismo republicano: se há dois anos Trump usou o GOP como barriga de aluguer para chegar à presidência, hoje tem o partido nas mãos. Imagino que muitos congressistas no PPE vejam também isso com os olhos a brilhar..Investigador universitário