Saarbrücken, o clube que não teve pátria faz furor na Taça da Alemanha

No final da Segunda Guerra Mundial, o emblema germânico não pôde participar em competições oficiais porque a sua região ficou sob domínio francês. Teve um papel importante no início da Taça dos Campeões e atualmente joga na IV Divisão alemã.

O FC Saarbrücken saltou na última semana para o primeiro plano do futebol europeu por se ter tornado a primeira equipa da IV Divisão a chegar às meias-finais da Taça da Alemanha. Um feito alcançado no desempate por penáltis frente ao Fortuna Düsseldorf, que depois de o Colónia foi a segunda equipa do escalão principal que caiu aos pés do FC Saarbrücken - nas meias-finais, a 21 de abril, vai medir forças com o Bayer Leverkusen, a equipa que eliminou o FC Porto da Liga Europa.

Só que a história deste clube nascido em 1903 é muito maior do que este feito na segunda prova mais importante do futebol alemão. Desde logo pela sua importância no mapa geopolítico da Europa e por ter participado na primeira edição da Taça dos Campeões como representante da nação independente do Sarre, região rica em carvão e outros minérios que foi disputada desde o século XIX pela França e a Alemanha e que, no final da Segunda Guerra Mundial, se tornou um protetorado francês, com autonomia governativa.

O FC Saarbrücken foi na altura impedido de participar nas competições alemãs, tendo integrado então a II Divisão francesa como convidado, na qual acabou por conquistar o direito de subir ao principal escalão. Contudo, os outros emblemas recusaram a integração do clube a participar no escalão principal, numa espécie de retaliação por terem sido obrigados a disputar as competições futebolísticas alemãs durante a ocupação nazi. O FC Saarbrücken tornou-se então um clube sem pátria, que sobrevivia participando em jogos particulares, um deles, a 21 de fevereiro de 1951, foi histórico, pois a equipa da região do Sarre foi ao Estádio Santiago Bernabéu vencer o Real Madrid por 4-0.

Houve também um triunfo épico em Anfield, com o Liverpool, por 4-1, em maio de 1950, com um hat trick do seu goleador Herbert Binkert, que por essa altura já era apelidado de "melhor ministro das relações externas do Sarre", por causa das suas proezas no campo.

Convidado para a primeira Champions

Estas foram algumas das goleadas que a equipa de grande nível aplicou nos jogos que foi realizando um pouco por toda a Europa. Com o objetivo de se manter em atividade, o FC Saarbrücken começou também a organizar, em 1950, a Taça Internacional do Sarre, para a qual eram convidadas equipas da Áustria, Dinamarca, Suécia, Jugoslávia, Suíça e França, com um prémio de dois milhões de euros destinados ao vencedor. Esta prova foi uma espécie de antecessora da Taça dos Campeões Europeus.

As boas exibições da equipa acabaram por ser determinantes para que no verão de 1951 o clube fosse readmitido nas competições futebolísticas da Alemanha, mesmo pertencendo a um território autónomo sob domínio francês. Por essa altura, o Sarre já tinha formado o seu próprio Comité Olímpico e a sua federação de futebol foi admitida da FIFA e autorizada a participar nas eliminatórias para o Mundial de 1954.

A fama do FC Saarbrücken acabaria por lhe valer um convite para participar na primeira edição da Taça dos Campeões Europeus, na época 1955-1956, sob a égide da UEFA, mesmo tendo ficado em terceiro lugar no campeonato regional alemão que disputava na altura. Esta equipa era uma espécie de campeã oficiosa do protetorado do Sarre. A estreia foi em San Siro, onde arrancou um fantástico triunfo por 4-3 diante do AC Milan. No entanto, na segunda mão, em casa, o FC Saarbrücken foi goleado pelos italianos por 4-1.

Regresso à Alemanha e crise financeira

A 1 de janeiro de 1957, após um referendo, a região do Sarre deixou oficialmente de ser um protetorado francês e integrou definitivamente a República Federal Alemã. Seis anos depois, o FC Saarbrücken foi um dos clubes escolhidos para participar na primeira edição da Bundesliga, numa decisão controversa e com evidentes contornos políticos, uma vez que por essa altura já outros emblemas da região se destacavam mais. Talvez por isso, o clube tenha acabado por ser despromovido logo nessa primeira edição.

O FC Saarbrücken acabaria por ter mais quatro presenças no principal escalão do futebol alemão, a última das quais na época 1992-1993, em que foi último classificado, na última vez que uma equipa de Sarre esteve neste escalão, honra que apenas tinham tido as equipas do Neunkirchen e do Homburg.

Aos poucos o clube afundou-se em dívidas, acabando no último escalão do futebol alemão em 2007, de onde começou agora a sair. Atualmente tem bem encaminhado o regresso à III Divisão, uma vez que lidera a sua série com mais três pontos do que o segundo classificado. No entanto, a face mais visível do sucesso deste clube histórico é a quarta presença nas meias-finais da Taça da Alemanha do seu historial, que tinha conseguido pela última vez em 1984-1985, quando foi eliminado em casa com o Bayer Uerdingen, que acabaria por conquistar o troféu.

O sonho, esse, é agora chegar à final da Taça, que terá como palco o mítico Estádio Olímpico de Berlim. Para lá chegar terá de ultrapassar o Bayer Leverkusen. Uma tarefa complicadíssima, embora a esperança seja maior porque o FC Saarbrücken vai disputar esta eliminatória no seu Estádio Hermann Neuberger, com capacidade para cerca de 16 mil espectadores. O sonho continua, pelo menos durante mais um jogo. E se terminar empatado e for decidido nas grandes penalidades, pode sempre contar com o o guarda-redes Daniel Batz, que na eliminatória anterior, entre jogo corrido e decisão por castigos máximos, defendeu um total de cinco penáltis.

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