Depois dos dois importantes discursos sobre a União Europeia que marcaram este início de mandato de Emmanuel Macron (Sorbonne em setembro de 2017 e Conferência dos Embaixadores em agosto de 2018), o presidente francês optou por uma terceira via para reconquistar momentum europeu numa fase politicamente difícil em França. Ao invés de explanar uma política de Estado, tratou de dialogar com os cidadãos da UE através de um artigo publicado em 22 línguas e em 28 jornais dos Estados membros..A dinâmica revela um propósito: encaixar a eterna vontade de liderança francesa nos debates europeus com uma abordagem de proximidade com os eleitores. Tal como Macron tem tirado partido nas sondagens das virtudes do debate frontal com os cidadãos numa autêntica volta à França, como resposta à disrupção gerada pelos gilets jaunes, a linguagem usada neste artigo pan-europeu procura seguir o mesmo ângulo: retomar a dianteira europeia em paralelo com a francesa a tempo de vencer as europeias em maio. Mas se o artigo procura acompanhar essa cumplicidade política entre frente interna e europeia, ele deve ser sobretudo lido em quatro dimensões: os paradoxos que encerra, as omissões que carrega, as fragilidades que levanta e as virtudes que transporta..No plano dos paradoxos, vale a pena dizer que as reações geradas são inversamente proporcionais à dispersão continental do artigo. Estranhamente (ou talvez não), a ousadia de Macron marcou apenas ao de leve alguns debates nacionais e colheu ainda menos reações políticas. As duas mais inesperadas vieram de Budapeste e Bucareste, curiosamente dando cobertura à ambição macroniana expressa nas 13 vezes em que se referiu à Europa "que protege". Viktor Orbán saudou o impulso dado ao debate, realçando a reformulação de Schengen e o reforço da fronteira externa, ambas sob um chapéu de um novo conselho europeu para a segurança interna, linha também valorizada pelo político mais influente na Roménia, o presidente da Câmara dos Deputados, Liviu Dragnea. Mais do que uma crença nas alterações comportamentais destes dois elefantes nos dois grandes partidos europeus (PPE e S&D), o imediatismo das reações deve ser visto precisamente na estratégia que ambos estão a trilhar para não serem proscritos (ou expulsos) dessas famílias políticas. Ou seja, o endosso parcial ao texto de Macron dá a Orbán um movimento compensatório aos ataques feitos recentemente a Juncker e a todo o debate grosseiramente tardio que alguns partidos do PPE estão a desencadear para retirar o Fidész da sua honrosa companhia..Outro paradoxo do texto de Macron resulta do espírito liberal que lhe atribuem e do cardápio de propostas centralistas que enuncia. Da agência europeia para a proteção das democracias ao já citado conselho europeu de segurança interna, do conselho de segurança europeu (para amarrar o Reino Unido) ao banco europeu do clima, do conselho europeu da inovação até à ideia que deve passar a nortear a postura comercial da UE - como o próprio diz, "como fazem os EUA e a China" - em redor da regra de preferência europeia ao melhor estilo Europe First ou Buy European, são vários os exemplos de novos corpos comunitários que acrescentam supranacionalidade e despesa a um orçamento comunitário já por si curto, ainda por cima sem a fatia britânica a partir de 2021. Não discuto para já as possíveis virtudes de cada um desses novos órgãos - nem Macron o fez em profundidade -, mas teria sido importante percebermos como seriam financiados. É aqui que encaixam outras omissões importantes..A maior delas é a palavra França. Nunca escrita mas omnipresente, foi acompanhada de outra não menos relevante para projetar a ambição do texto: Alemanha. Não há sequer menção à centralidade do eixo nas reformas enunciadas, nem sequer um laivo de atenção a qualquer recauchutagem do badalado plano Macron para a zona euro. O objetivo destas omissões foi duplo: por um lado, assumir a descrença no papel de Merkel como a chanceler que acompanha o Eliseu na execução desse roteiro; por outro, colocar o ónus da resposta com real impacto em Berlim. E, de facto, assim foi, mas pela voz de Olaf Scholz, ministro das Finanças, que saudou o impulso e acolheu favoravelmente o propósito dinamizador de um novo envolvimento dos cidadãos com a União. Não se pode dizer que o eco tenha estado à altura das expectativas de Macron..A fragilidade maior do texto de Macron está na dificuldade em identificar os aliados para tornar tantas propostas exequíveis a curto prazo. Se a Alemanha fica sob pressão imediata, Itália não perderá um segundo com o assunto, Espanha está a braços com eleições disputadas e uma crise constitucional latente, os países escandinavos e bálticos não estão alinhados com o centralismo federativo enunciado e o primeiro-ministro holandês tem feito um caminho de liderança dessa frente nórdica precisamente como contraponto a uma reemergência do eixo Paris-Berlim. Só um volte-face na Polónia saída das legislativas do outono alinharia Varsóvia com alguns pontos, e mesmo os remainers no Reino Unido dificilmente subscreveriam a ambição de Macron, mesmo que partilhem o diagnóstico sobre a "armadilha do Brexit" ou os méritos da integração europeia. Tenho poucas dúvidas de que Lisboa não esteja alinhada com Macron, mas uma andorinha não faz a primavera, e das instituições só a comissária Vestager acompanhou o texto com entusiasmo público..Apesar do eco regrado, o artigo de Macron teve a virtude de expor o nível de umbiguismo em que mergulhámos e a ausência gritante de líderes com pensamento para lá das suas capelinhas. Um dia, se a casa vier abaixo, não se queixem do vizinho, assumam a vossa responsabilidade..Investigador universitário