Premium O tweet de Mário Centeno

"Riscos políticos" foi a expressão usada por Mário Centeno num tweet que deu que falar. É tão importante saudar a entrada da expressão no léxico economês como explorar as suas implicações, sem cair na tentação de europeizar os nossos fracassos e nacionalizar os nossos sucessos.

Uma economia aberta como a portuguesa, com praticamente metade da sua riqueza assente nas exportações de bens e serviços e a precisar consistentemente de bom investimento estrangeiro, não pode deixar de ter uma política externa promotora de equilíbrios, pontes geográficas e canais permanentes de diálogo. Qualquer tentação de acompanhar o ar dos tempos, regressando a uma mitologia identitária umbiguista e fechada, é receita instantânea para o retrocesso económico, erosão do bem-estar e da perceção externa sobre um perfil de país conquistado a pulso.

Este enquadramento não pode, no entanto, pôr o ónus dos nossos insucessos apenas nas externalidades, secundarizando as responsabilidades dos agentes internos. A tentação de europeizar os nossos fracassos e nacionalizar os nossos sucessos é própria de demagogos de vão de escada. Não caiamos nisso. Apesar de muitos avanços, o novelo burocrático nacional continua a desviar investimento estrangeiro, a carga fiscal é penalizadora do empreendedorismo, há demasiada assimetria social e geográfica e os mecanismos comunitários que deveriam acautelar uma rede de segurança económica para enfrentar uma futura crise sistémica na União Europeia - em cima da que existe no quadro político - não estão ainda alinhados com garantias mútuas. Se tivermos em conta que 76% das nossas exportações e 75% das importações estão concentradas no espaço da UE, facilmente percebemos a exposição aos riscos que nos batem à porta. Neste sentido, mesmo tendo presente as oscilações naturais dos ciclos económicos e a grelha de bloqueios internos que nos tem caracterizado há demasiado tempo, não é totalmente desprovido de razão o argumento de Mário Centeno expresso há um par de dias a respeito da previsão intercalar de inverno da Comissão Europeia sobre o crescimento em baixa da economia da zona euro e, também, de Portugal: "São os riscos políticos que estão a levar ao abrandamento do crescimento."

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