Uma economia aberta como a portuguesa, com praticamente metade da sua riqueza assente nas exportações de bens e serviços e a precisar consistentemente de bom investimento estrangeiro, não pode deixar de ter uma política externa promotora de equilíbrios, pontes geográficas e canais permanentes de diálogo. Qualquer tentação de acompanhar o ar dos tempos, regressando a uma mitologia identitária umbiguista e fechada, é receita instantânea para o retrocesso económico, erosão do bem-estar e da perceção externa sobre um perfil de país conquistado a pulso..Este enquadramento não pode, no entanto, pôr o ónus dos nossos insucessos apenas nas externalidades, secundarizando as responsabilidades dos agentes internos. A tentação de europeizar os nossos fracassos e nacionalizar os nossos sucessos é própria de demagogos de vão de escada. Não caiamos nisso. Apesar de muitos avanços, o novelo burocrático nacional continua a desviar investimento estrangeiro, a carga fiscal é penalizadora do empreendedorismo, há demasiada assimetria social e geográfica e os mecanismos comunitários que deveriam acautelar uma rede de segurança económica para enfrentar uma futura crise sistémica na União Europeia - em cima da que existe no quadro político - não estão ainda alinhados com garantias mútuas. Se tivermos em conta que 76% das nossas exportações e 75% das importações estão concentradas no espaço da UE, facilmente percebemos a exposição aos riscos que nos batem à porta. Neste sentido, mesmo tendo presente as oscilações naturais dos ciclos económicos e a grelha de bloqueios internos que nos tem caracterizado há demasiado tempo, não é totalmente desprovido de razão o argumento de Mário Centeno expresso há um par de dias a respeito da previsão intercalar de inverno da Comissão Europeia sobre o crescimento em baixa da economia da zona euro e, também, de Portugal: "São os riscos políticos que estão a levar ao abrandamento do crescimento.".Em primeiro lugar, é importante saudar a chegada da expressão "riscos políticos" ao léxico dos agentes económicos e financeiros, durante anos alheados de variáveis tão ou mais importantes do que as que resultavam da bolha dos seus setores. O "estudo de mercado" e a ambicionada consolidação empresarial não podem, numa globalização ultracompetitiva como a que vivemos, desprezar o quadro geopolítico, partidário, legislativo, financeiro, securitário e social, se o objetivo dos agentes económicos for, como julgo ser sempre, o de decidir melhor com todos os riscos minimamente contemplados. Como disse no início, não serão apenas os riscos políticos a causa das previsões em baixa da Comissão, mas o nível de incerteza e a amplitude dos perigos que estão ao virar da esquina devem ser levados muito a sério, estudados, prevenidos, contornados ou atacados..À cabeça, os efeitos de um Brexit desordenado, com grande impacto na Irlanda, na Holanda, na Alemanha e na França, sobretudo nos setores agroalimentar e automóvel. Impactos negativos nas duas grandes economias europeias têm sempre efeitos num país como o nosso, dado que um quarto das nossas exportações vai para lá. Além disso, arrefecimento económico em cima da incerta transição política que internamente Paris e Berlim vivem é meio caminho andado para novas disrupções sociais inorgânicas. Independentemente disto, qualquer roteiro para o Brexit que não acautele uma aceitável gestão de danos põe Portugal no topo dos países mais afetados, quer no fluxo turístico, de investimento ou nas exportações de bens concentradas a norte. Aqui, em particular no setor têxtil, as previsões de queda das exportações para o Reino Unido chegam aos 5%, embora já se assista a uma diminuição na mesma ordem para Espanha, muito provocada pela concorrência que Marrocos, Tunísia e Turquia nos fazem, nomeadamente pelos custos de produção mais baixos, aumento de capacidade produtiva própria e desvalorização acelerada da lira num contexto de concentração do poder presidencial..Outro foco de risco político com impacto no ambiente económico resulta de, em Itália, a demagogia política do governo poder ser premiada nas europeias, potenciando o choque constante com Bruxelas no plano financeiro. As projeções dão a Roma (e a Londres) os níveis de crescimento mais fracos entre os 28, cristalizando sine die a terceira economia da zona euro, que tratará de europeizar os seus fracassos. O atual choque entre Salvini/Di Maio e Macron tem tudo para marcar a tendência primavera-verão, legitimando de fora a paralisação de vários setores pelos coletes amarelos. Tal como uma irresolução comercial entre Pequim e Washington acrescenta, num plano mais macro e por isso mais impactante, ansiedade aos agentes económicos portugueses que têm (e bem) apostado fortemente nas exportações para as duas grandes economias mundiais, nomeadamente nos setores agroalimentar, têxtil, de cortiça e maquinaria. Acresce a este quadro europeu o ciclo eleitoral decisivo na Ucrânia, tendo Moscovo à mão os instrumentos necessários (mentiras e militares) para criar uma nova onda de atrito nessa fronteira leste da União Europeia se sentir os seus interesses vitais em causa. Agressividade que pode gerar mais sanções, bloqueios e fazer subir o preço do barril de petróleo, antecipando um ciclo económico politicamente menos generoso. Tudo isto num ano em que Portugal vai três vezes a votos..Investigador universitário