Santana sai do PSD sem arrastar figuras de peso. Ex-apoiantes zangados

Antigo líder do PSD está a preparar novo partido com a ajuda de alguns indefetíveis. Autarcas e dirigentes concelhios e distritais que o apoiaram nas diretas não tencionam seguir os seus passos.

Há três semanas Pedro Santana Lopes convocou alguns dos mais próximos para um jantar e com eles quis trocar impressões sobre a sua saída do PSD e a criação de um novo partido. Dos que estiveram presentes só a antiga vereadora da Câmara de Lisboa Helena Lopes da Costa se manifestou frontalmente contra. Segundo fontes que estiveram nesse encontro, a barrosista que acabou por ser muito próxima de Santana foi muito critica e advertiu-o para o impacto que isso iria causar junto dos que o apoiaram nas recentes diretas. E teve razão. Uns estão zangados, outros magoados.

O antigo líder social-democrata avançou mesmo para a rutura com o partido no fim de semana. A carta aberta que escreveu para os militantes a justificar a saída caiu que nem uma bomba entre muitos dos presidentes de câmara e dirigentes distritais e concelhios que o apoiaram há pouco mais de seis meses. Apesar de ter aberto a porta a essa possibilidade, numa entrevista à Visão, ninguém acreditava que viesse a acontecer.

"Recebi muitos telefonemas incrédulos, de muita gente zangada também que deu a cara por ele e está constrangida", afirma uma das figuras que esteve envolvida na sua campanha às diretas. Até porque, insiste, "muitos tiveram de convencer as suas bases para votarem nele e deram-lhe a mão quando decidiu ajudar Rui Rio a formar a lista para o conselho nacional e restantes órgãos nacionais".

"Nada de drástico"

Na corrida à presidência do PSD, Santana Lopes teve com ele muitos presidentes de câmara - entre os quais os de Oleiros, Pampilhosa da Serra, Sertã, Castanheira de Pera, Vila do Rei, Pombal, Óbidos e Alcobaça - e os presidentes de distritais do PSD como as de Lisboa, Beja, Castelo Branco, Coimbra, Évora, Faro e Setúbal.

Outra fonte que esteve ao lado de Santana sublinha que mesmo os que são muitos críticos do estilo de liderança de Rui Rio não encontram razões para esta cisão neste momento. "Não aconteceu nada de drástico para justificar que Santana bata com a porta ao partido." Na opinião de outro militante que também esteve com ele nas luta das diretas, "se discorda de Rio e tem um projeto alternativo, o combate faz-se por dentro do partido onde militava há tantos anos e não fora".

Ninguém acredita que figuras de proa do PSD estejam dispostas a ajudá-lo a fundar uma nova força política. "Pode levar com ele alguns quadros intermédios, que estão muito desmobilizados, mas pouco mais do que isso", afirma ao DN um dos seus ex-apoiantes. Mas, remata, "a decisão é dele, saberá o que está a fazer".

Publicamente, um dos que estiveram sempre do seu lado da barricada e o ajudou a montar a campanha das diretas, seu amigo de sempre, o líder da distrital do PSD de Lisboa, Pedro Pinto, foi elegante na maneira como rejeitou qualquer possibilidade de lhe seguir o passo: "Estou apaixonado pelo PSD!" - respondeu assim aos jornalistas. Outros talvez estejam menos enamorados neste momento, mas não equacionam virar as costa ao partido, apurou o DN.

Indefetíveis

Então com quem está Santana? Com quem conta para montar toda a arquitetura do novo partido?

"O grupo mais próximo dele no PSD era muito restrito", garante uma das fontes que esteve envolvida na sua campanha às diretas. Admite que "pode haver alguns militantes de base, sobretudo ligados às autarquias, que podem encontrar numa nova força resposta ao descontentamento que sentem neste momento no PSD".

Mas, reforça a mesma fonte, Santana Lopes está a começar a construir as bases do novo partido - para o qual ainda terá de recolher 7500 assinaturas - com alguns indefetíveis, que "estão sempre com ele" e foram seus colaboradores na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa durante o mandato de provedor.

O antigo líder do PSD prefere, nesta fase, ainda não levantar o véu sobre o que está a preparar. Mas são dados como muito prováveis, entre os que irão colaborar neste projeto político, nomes como os de Ricardo Alves Gomes, que se demitiu da Mesa da Administração da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa por discordar da entrada da instituição no capital do Montepio, Fernando Angleu e Paulo Calado, ambos a trabalhar nas área das apostas sociais da mesma instituição.

Santana tem também a trabalhar com ele neste projeto Margarida Netto, antiga deputada do CDS, que já foi colaboradora na campanha do antigo líder do PSD nas diretas de janeiro.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Bernardo Pires de Lima

Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

Premium

Rogério Casanova

O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)