"A ideia do miúdo que fica multimilionário a salvar o mundo nem é utopia, é só infantil"

Um inglês em Silicon Valley não podia ser simples. Formado em História e Ciências Políticas, Andrew Keen foi parar ao vale das start-ups e das gigantes de tecnologia dirigidas por miúdos multimilionários que queriam fazer do mundo um lugar melhor, mas não fizeram. Daí a tornar-se um crítico da revolução digital foi um passo.

É a partir de dentro que Andrew Keen olha Silicon Valley, as grandes empresas de tecnologia que ali se ergueram e a forma como estas estão a moldar o mundo. Olha e o que vê é a necessidade de agir agora para corrigir um futuro que pode ser negro.

Nos últimos anos, escreveu livros como Digital Vertigo, The Internet Is not the Answer e How to Fix the Future e deu conferências pelo mundo inteiro. Hoje e amanhã, estará em Portugal, como orador principal da Lisbon Investment Summit*, na Cordoaria Nacional, a explicar como se faz isso de corrigir o futuro. Antes disso, falou ao Diário de Notícias.

How to Fix the Future foi publicado no ano passado. Que futuro que quer corrigir?
A evolução do mundo digital está a criar diversas situações que é necessário prevenir. Um futuro que poderá ter de enfrentar uma grave crise de desemprego, em que a desigualdade será cada vez maior, em que se assistirá a uma crescente corrosão cultural devida às redes sociais e que assentará no capitalismo vigilante, que é o modelo de negócio dominante em Silicon Valley.

A revolução digital prometia mais igualdade, mais democracia, mais liberdade, maior acesso à cultura. Sente-se traído pelos gigantes tecnológicos? É essa a razão do seu livro?
Não, não me sinto traído. Não é essa a palavra. Simplesmente, considero que alguém tem que trazer estas questões a público, chamar a atenção, debater. Há algum tempo que falo nelas e nem toda a gente concorda com as minhas críticas à revolução digital, mas não é uma questão de me sentir traído. Na verdade, não é de todo uma surpresa para mim. O objetivo das empresas é ter lucro, não é fazer do mundo um lugar melhor. A única surpresa é que tanta gente não partilhe da minha opinião e tenha demorado tanto tempo até perceber o que estava e está a acontecer.

O jornalismo é uma das áreas mais afetadas, com prejuízos para a informação, a liberdade e a própria democracia. Como é que se corrige isto?
Há cinco áreas a trabalhar: maior regulação, aposta na inovação, maior envolvimento do consumidor, empoderamento dos cidadãos e mais educação. A solução não é simples, é multifatorial.

A educação é talvez um dos instrumentos mais importantes, mas é preciso apostar nela e transformá-la. Em que sentido? Devemos procurar novos modelos de educação, focados em estimular a criatividade e a empatia, competências que são a mais-valia do ser humano relativamente às máquinas e à inteligência artificial.

A empatia é uma das competências mais ameaçadas pelas novas tecnologias e as lógicas de relacionamento e de linguagem criadas pelas redes sociais?
Não diria isso, mas considero que é isso que temos de ensinar nas escolas, porque isso é o que o algoritmo não consegue aprender. O algoritmo pode aprender leis, pode aprender medicina, pode conduzir carros, pode fazer contas, mas não pode sentir empatia nem ser criativo.

Acha que as novas gerações estão preparadas para travar esta batalha?
Claro que sim, porque pergunta isso?

Porque já nasceram num mundo digital. Questões que nós colocamos, para eles podem nem sequer ser questões.
Sim, mas eu penso que entendemos mal a geração a que chamamos de nativos digitais. Eles são os que percebem melhor do que ninguém o mundo digital e são os que estão a sair das redes sociais e são os que abraçaram a música analógica, com o vinil, e são os que redescobriram a escrita à mão e são os que pagam pela música que ouvem no Spotify. Por isso, tenho muita confiança nesta geração. Penso que a minha geração apaixonou-se pela tecnologia e somos nós os responsáveis pelo estado a que isto chegou, mas não veria as coisas de um ponto de vista geracional. Acho que não faz sentido.

A regulação, uma das soluções apontadas por si, é normal na Europa, mas mal recebida nos Estados Unidos. É possível avançar nesse sentido?
Absolutamente. Os Estados Unidos são como um grande tanque de guerra, é difícil mudar de direção, mas, quando muda, é imparável. Regularam o mercado do petróleo, da alta finança, da alimentação e do medicamento e penso que vai acontecer o mesmo nesta área. Há cada vez mais razões para a regulação contra a concentração das grandes companhias de tecnologia e por isso estou prudentemente otimista de que a América vai avançar nesse sentido. Mas a regulação em si, sozinha, não é suficiente.

O que é preciso mais?
Que os empreendedores criem novos produtos e companhias e soluções e modelos de negócio e resolvam a primeira vaga de problemas. Que os consumidores exijam melhores produtos e estejam disponíveis para pagar por estes e pelas suas buscas nas redes sociais e não serem vigiados o tempo todo. Que os cidadãos, desde investidores a advogados ou a músicos, etc., todos lutem por um mundo melhor e depois há a questão da educação de que já falámos. Aconteceu o mesmo com a revolução industrial, levou muitas gerações a resolver os seus mais profundos problemas: desigualdade, poluição, exploração dos trabalhadores e trabalho infantil, portanto o mesmo acontecerá aqui, não podemos esperar que os problemas fiquem resolvidos do dia para a noite.

A maioria desses problemas ainda não estão resolvidos.
Sim, mas não tem comparação com o início da revolução industrial. Há vários exemplos, como o da indústria automóvel, que vendia carros que eram essencialmente caixões, perigosíssimos, especialmente os americanos. Isto foi exposto por Ralph Nader [advogado ativista dos direitos dos consumidores] e a indústria automóvel americana tem estado em declínio, mas os carros tornaram-se cada vez mais seguros. Portanto, é preciso muito trabalho de diversos quadrantes, ativistas dos direitos dos consumidores, como Nader, advogados que defendem os direitos laborais dos condutores de Uber, capitalistas responsáveis que investem em companhias e modelos de negócio mais sustentáveis, políticos como a comissária europeia Margrethe Vestager, que forçam mudanças. Não há uma solução simples e única, não há uma app para corrigir o futuro.

E, no entanto, mantém-se otimista?
Prudentemente otimista. Vai levar tempo, mas é preciso vontade e ação políticas, organização, novas formas de pensar o trabalho, a regulação, as leis antimonopolistas... Requer muito trabalho, não é simples, e não depende só de cima, dos políticos, das empresas e dos empreendedores, mas de todos nós.

Os consumidores terão um papel decisivo também? Preferirão pagar em dinheiro, para preservar a privacidade, que já perderam?
A grande questão é se os consumidores vão acordar. A maioria parece ainda não estar muito preocupada com o que os governos e as empresas sabem sobre eles e isso é preocupante. Mas penso que isso vai mudar.

A internet matou o jornalismo ou está a obrigá-lo a repensar-se?
Matou algumas formas de jornalismo, matou o jornalismo e os jornais locais, mas os grandes jornais estão a reinventar-se e a criar novos modelos de negócio, pagos. O grande desafio é beneficiar do debate em torno da democracia contemporânea, dar às pessoas mais informação e lutar contra as fake news. Penso que o modelo antigo, baseado na publicidade e nas vendas, não vingará, mas o modelo digital resulta em determinadas circunstâncias e há outros modelos a serem desenvolvidos. Precisamos do jornalismo a informar as pessoas acerca do mundo, de outra forma estaremos muito mais vulneráveis às fake news.

Fala da responsabilidade social dos líderes empresariais e fala também de utopia. Não será esta a maior das utopias: pensar que os líderes empresariais estão preocupados com a responsabilidade social?
Utópica é a ideia que persiste em Silicon Valley de que as tecnologias iam mudar tudo e criar novos tipos de empresa. O Facebook e a Uber são exemplo disso. Imaginaram que iam ser diferentes. Lembra-se do velho slogan da Google de que nunca fariam mal: "Do no evil"? Apresentava-se como uma companhia que não faria o mal, que tinha ultrapassado o modelo tradicional da empresa capitalista. Isso é que é utópico, um delírio explorado até à exaustão em Silicon Valley.

Então?
Mas há companhias que estão a tentar lentamente melhorar as suas práticas, fazer o bem, ser mais humanas. Até há empresas em Silicon Valley que estão a tentar crescer e ser mais adultas, não quer dizer que vão ser perfeitas e tudo mude de um dia para o outro, porque o objetivo primordial das empresas é ganhar dinheiro, mas não penso que seja utópico pensar que as empresas podem fazer o bem. Esse é um dos cinco pilares que avanço no meu livro para corrigir o futuro.

Mas isso não é um pouco contraditório?
Uma das ilusões de Silicon Valley é que se pode ser rico e bom ao mesmo tempo. Foi esse o erro: o miúdo que é multimilionário e também está a salvar o mundo - o modelo Mark Zuckerberg - é a verdadeira utopia. Nem é utopia, é só infantil. E é aqui que entra a regulação. O que eu defendo é que a regulação pode forçar os líderes empresariais a adotarem modelos de negócio assentes numa maior responsabilidade social. O ideário de Silicon Valley é o de que estas companhias podem, em conjunto, autorregular-se, nomeadamente no que diz respeito à inteligência artificial (IA), e que podemos confiar nelas para garantir que a IA não destrói empregos ou não constrói máquinas que subjuguem os humanos. Eu não acredito nisso. Mas também não sou um marxista que acha que as grandes empresas são más por definição. Penso que algumas companhias fazem o bem, dependendo da liderança e da indústria em causa e há oportunidades para isso.

Há?
Ainda existe um espírito de boa vontade em Silicon Valley. A maioria dos líderes situa-se politicamente à esquerda, não são conservadores, a prova é que Donald Trump é extremamente impopular por lá e que é lá que estão muitos dos financiadores do Partido Democrata. Não compro a ideia de que o capitalismo é mau por definição e que a simples ideia de que as empresas podem contribuir para tornar o mundo num lugar melhor é utópica. Isso também é infantil. O mundo move-se de uma forma complexa e estes líderes são em si complexos. Eles querem contribuir para um mundo melhor, mas também querem fazer lucro. Por vezes, com pessoas como Zuckerberg, que é particularmente naïf e autocentrado, as consequências são complicadas. Mas a verdade é que companhias como a Google ou a Apple estão muito divididas, tanto no topo como na base, entre a preocupação com questões éticas e o propósito de ganhar dinheiro. Não estou a desculpá-las, mas arrumá-las como más e dizer que não podem ser reformadas é um erro. Se uma companhia conseguir conciliar os interesses económicos com produtos e serviços que são bons para a humanidade, fá-lo-á.

Considera então que existe um capitalismo bom e que será por aí que o futuro será corrigido?
Sim, porque não há alternativa. O socialismo falhou em todo o mundo. O que temos de manter é um equilíbrio entre capitalismo e democracia. Essa deve ser a preocupação. Podemos controlá-lo, regulá-lo, mas não vejo alternativa a este sistema.

* A Lisbon Investment Summit é uma organização da Beta-i, em parceria com a Comissão Cultural de Marinha, Câmara Municipal de Lisboa, e conta com o apoio da Google, IE Business School e Grupo José de Mello, e de entidades como a Morais Leitão, Armilar Ventures, PME Investimentos, IFD, Euronext, Farfetch, Red Angels Microsoft, Semana NEXT, Startup Portugal e Altice.

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