A prova de que a NATO sempre foi muito mais do que uma clássica aliança militar foi o seu imprescindível contributo para a implosão da União Soviética sem precisar de disparar um só tiro. Aliás, desde a sua fundação até à primeira missão militar, na Bósnia e Herzegovina, passaram 43 anos. Não se pense, no entanto, que esta longa travessia de contenção foi passada numa tranquilidade estratégica entre os seus aliados. Pelo contrário: a história da NATO é um cardápio de crises sucessivas, todas elas ultrapassadas em nome da preservação de uma comunidade de segurança ocidental. E, sem esta, a União Europeia nunca teria passado de um belo rascunho feito por alguns iluminados. .Vale a pena percorrer a rota das crises, na qual o unilateralismo de Trump é mais uma etapa, não necessariamente a derradeira. E começou logo quando foi pensada: a proposta que Ernest Bevin dirigiu a George Marshall, em finais de 1947, esbarrou logo na relutância de Washington, que queria evitar um compromisso permanente com a defesa das democracias europeias. Ultrapassada essa fase, o Tratado de Washington, que apagou 70 velas nesta semana, seria mesmo acompanhado pela constituição da República Federal da Alemanha, o que fez da Aliança Atlântica e da República Federal dois pilares da nova ordem transatlântica. Ato contínuo, em 1950, o início da Guerra da Coreia levou a duas transformações na NATO, a criação de uma organização militar permanente e a integração da Alemanha, a qual, a par da viragem com o Japão, completou a estratégia americana de tornar os inimigos recentes em aliados estruturais durante a Guerra Fria..A crise do Suez, que coincidiu com a intervenção soviética na Hungria, não levou a Grã‐Bretanha nem a França a abandonarem a Aliança Atlântica, mas expôs uma nova divisão ocidental, em que Londres optou por reforçar a "relação especial" com Washington e a França consolidou a aliança bilateral com a República Federal da Alemanha, acelerando a integração comunitária: seis meses depois seriam assinados os Tratados de Roma, criando a Comunidade Económica Europeia e a Agência Atómica Europeia, dando início ao processo de integração política na Europa do pós-guerra..Já as crises das décadas de 1960 e 1970 resultaram da saída da França da estrutura militar integrada da NATO, da Ostpolitik alemã e da estratégia norte-americana de détente com a União Soviética e a China. A par da adesão da Grã‐Bretanha às Comunidades Europeias, todas essas dinâmicas indicavam uma vontade de autonomia das três principais potências europeias. A par disto, os aliados europeus não acompanharam os Estados Unidos na intervenção militar no Vietname e na Indochina, realçando os limites geográficos da NATO e da solidariedade entre os aliados..Se, em 1949, a fundação da NATO tinha sido condição prévia à criação da República Federal da Alemanha e ao início do processo de integração comunitária, 40 anos depois, a reunificação da Alemanha feita no quadro da NATO e da Comunidade Europeia confirmou o vínculo original criado entre a democracia alemã, a aliança ocidental e a integração europeia. Isso não significaria que a vitória ocidental na Guerra Fria não pusesse em causa a consonância estratégica da comunidade transatlântica, como ficou claro na ausência de destaque que a NATO teve na Guerra do Golfo, a primeira vez em que todos os membros permanentes do Conselho de Segurança apoiaram uma intervenção militar para punir a violação da integridade de um Estado..Seguiram-se as guerras balcânicas, durante demasiado tempo vistas como uma questão europeia, tendo a relutância norte‐americana e a incapacidade europeia provocado uma crise profunda. A resposta tardia de Washington pôs à prova a definição dos limites da NATO e demonstrado que os riscos de abandono continuavam a ser críticos nos dilemas de segurança euroatlânticos. A recusa americana em corresponder à ajuda dos aliados da NATO logo após o 11 de Setembro e a crise provocada pela invasão do Iraque (2003) pintaram a pior de todas as crises transatlânticas, com os EUA, numa atitude sem precedentes, a dividir aliados para impor a sua vontade, a par da decisão, igualmente inédita, da Alemanha, em opor-se ao seu principal aliado. No entanto, a crise não provocou a rutura da NATO e, nos meses seguintes, os aliados empenharam‐se em minimizar as divergências e sarar as feridas..Em finais de 2008, Angela Merkel, Nicolas Sarkozy, Gordon Brown e Barack Obama tinham substituído, respetivamente, Gerhard Schroeder, Jacques Chirac, Tony Blair e George W. Bush, os protagonistas da crise transatlântica de 2003. Mergulhados na gestão da crise financeira e nos efeitos da guerra na Geórgia, Washington ensaiou um falhado reset com a Rússia, que acabou esta fase invadindo a Crimeia. Desde aí, os aliados deram prioridade à estabilização dos Balcãs e em manter firme a coordenação transatlântica no plano das sanções económicas a Moscovo, além de ter visto subir o interesse na adesão de Suécia, Finlândia e, sobretudo, desencadeado um investimento na Defesa em muitos aliados europeus. Hoje, devido à agressividade russa na Ucrânia (2014) e não como efeito da eleição de Trump, 24 dos 29 membros da NATO aumentaram os orçamentos militares e no final deste ano serão nove os que ultrapassarão 2% do PIB, roteiro assumido em sucessivas cimeiras da NATO antes de Trump chegar, com 2024 no horizonte..A história da NATO não é só feita de crises cíclicas, mas de um carácter político profundo. É de estabilidade e consolidação de uma matriz democrática, permitindo uma construção europeia com menos riscos. É de adaptação a choques entre aliados e da própria ordem internacional. A sua implosão, decretada tantas vezes nestes 70 anos, teria um efeito devastador na Europa, em crise de coesão profunda e de Brexit incontrolado, sendo o Reino Unido a vanguarda europeia na Defesa. Não acrescentemos mais uma frente de atrito entre europeus, é um favor a Putin e aos nacionalismos que crescem. A NATO é precisa para proteger o elo transatlântico para lá de Trump, preservando assim a integração comunitária, mas também para conter o revisionismo galopante de Moscovo e lidar com a ascensão da China de uma forma inteligente, antes que seja ultrapassada pelos acontecimentos..Hoje, mesmo com Trump à mesa, são cada vez mais os que valorizam a Aliança Atlântica, a começar nos sucessivos votos de apoio do Congresso americano, onde o secretário-geral da NATO discursou há dias, longamente ovacionado, até às declarações de vários líderes europeus. Trump é, cada vez mais, uma voz isolada no bullying à NATO. Não tenho dúvidas que, também desta vez, a Aliança ultrapassará esta crise..Investigador universitário