Premium Há cada vez mais escolas e alunos portugueses na Califórnia

Quatro anos depois do acordo celebrado entre o Instituto Camões e a Luso-American Education Foundation para fomentar o ensino de Português na Califórnia, o número de estudantes da língua nas escolas irá ver o maior aumento de sempre.

Há décadas que a história da comunidade portuguesa na Califórnia é escrita. As largas vagas de emigração de Portugal para o estado norte-americano desde o século XX encheram as ruas de heranças lusitanas que perduraram até aos dias de hoje. Mas quando o primeiro português explorador, João Rodrigues Cabrillo, ali desembarcou, em 1542, a comunidade ainda não estava preparada para acolher a língua portuguesa. Assim se tornou apenas código dentro das casas das famílias imigrantes - quase inexistente do lado de fora. Cerca de 500 anos depois, já faz até parte dos programas curriculares e o ano letivo que agora se inicia contará com mais de dois mil estudantes da língua ao longo de todo o estado.

Kayla Ferreira, 17 anos, está no seu último ano de secundário, na Tulare Union High School. Desde o primeiro ano do secundário que a aluna partilha uma sala com 44 outros estudantes que frequentam a aula de Português como língua estrangeira. A vontade de estudar a língua e a cultura portuguesas tem na sua base o legado familiar de Kayla, neta de portugueses, com quem já consegue falar fluentemente. Por isso, desde cedo que "queria saber mais sobre a cultura e ser fluente". Confessa que as aulas têm encurtado a distância física e ajudado a que se sinta "cada vez mais próxima da cultura familiar".

No ensino secundário, o número deverá ultrapassar os 1300 e no primário os mil estudantes, um crescimento de 18% relativamente ao ano transato. São cada vez mais os alunos, mas também as instituições de ensino, que escolhem albergar o Português no seu currículo, fruto de um protocolo assinado entre o Instituto Camões e a Luso-American Education Foundation (LAEF) que visava a promoção da língua no estado norte-americano. Uma reunião que contou com a presença do então secretário de Estado para as Comunidades Portuguesas, José Cesário, e alguns professores da Califórnia tornou possível o acordo em 2014.

No público e no privado, 11 escolas já aderiram ao ensino de língua portuguesa. Numa escala de 3450 estabelecimentos públicos secundários na Califórnia, o professor e coordenador do protocolo, Diniz Borges, diz que a representação portuguesa ainda é "muito baixa". Ainda assim, mantém-se otimista: "Considerando que há cinco anos tínhamos apenas sete, é um número muito bom."

Os números parecem estar a favor do crescimento. O professor revela ainda que está prevista a abertura de mais dois estabelecimentos de ensino secundário na Califórnia a entrar no protocolo, na cidade de Ceres, Vale de San Joaquim, que contará com duas professoras e 270 alunos. Uma outra escola comunitária na cidade irá abrir portas neste ano letivo, em Tracy. Ainda nas zonas de Manteca do Norte e Chino está a ser estudada a criação de escolas portuguesas.

Nas palavras de Diniz Borges, "várias razões podem explicar o aumento da procura da língua portuguesa nas instituições de ensino da Califórnia". Puxar pela memória pode ser a chave para compreender o fenómeno. "Se há 20 ou 30 anos os imigrantes ainda falavam português em casa com os filhos", o que acontece atualmente é que "as novas gerações já não o fazem, mas ainda querem que os filhos aprendam".

Além disso, lembra, "o mundo está cada vez mais pequeno, inclusive na área dos negócios", e por isso "Portugal começa a ser visto como uma grande entrada para a Europa e para os PALOP". Diniz acredita que esta tendência ajuda a explicar que "os alunos de origem hispânica, particularmente mexicanos, falando fluentemente espanhol, quando há uma escola secundária com o curso de Português, em vez de tirarem Espanhol Avançado decidem fazer Português", muito pela "questão da proximidade".

Contudo, não deixa de parte uma razão "menos racional, mas verdadeira" para o sucesso do protocolo: "Hoje os imigrantes têm mais orgulho em ser portugueses do que há umas décadas."

Olhar o passado para escrever o futuro

Kayla despede-se neste ano do ensino secundário, mas garante que não será um "adeus" à língua. "Visitei algumas universidades onde vou poder continuar a estudar Português, como sempre quis", conta. Diversas faculdades comunitárias já estão a seguir o rasto do ensino pré-universitário. É o caso da College of the Sequoias, em Visalia, no vale de San Joaquin, e da Universidade Estadual da Califórnia em Fresno, que terão disponíveis quatro cursos de língua e cultura portuguesa já a partir do semestre de outono de 2018.

De acordo com as últimas estatísticas oficiais da Modern Language Association, em 2016 havia cerca de dez mil alunos de português em todo o território dos Estados Unidos no ensino pós-secundário.

Quando os primeiros portugueses aterraram na Califórnia era difícil imaginar que algum dia um país como os EUA abriria portas à língua portuguesa dentro das próprias instituições académicas. Diniz Borges sabe-o bem, ele próprio um projeto do fluxo migratório que parece ter estagnado nos anos 1980.

"Era um projeto do meu pai vir para a América por cinco anos e ficámos 50." Foi professor durante 22 anos - menos do que sonhou - e reformou-se das salas de aula em junho de 2018, onde ensinou Português como segunda língua. Começou a viagem nos Açores, ilha da qual se despediu para emigrar para a Califórnia em 1969, com 10 anos. "As condições económicas eram de facto bastante severas em Portugal, além da ditadura sob a qual estávamos", recorda.

Diz estar na Califórnia "há demasiados anos" e, mesmo que há 50 separado fisicamente de Portugal, considera-se "mais português do que americano". É um apaixonado pela língua materna e vive para a sua valorização fora das fronteiras portuguesas.

Na base desta assumida paixão pelo que lhe resta de Portugal nasce agora um novo projeto de vida: um plano estratégico do ensino da língua portuguesa para a Califórnia. A necessidade de uma reflexão profunda sobre o que foi e poderá ainda ser feito, mas principalmente da consciência de que "os planos que costumam vir de cima para baixo na maioria das vezes - de Lisboa, do governo e das instituições - não têm grande recetividade na comunidade" foram os grandes motores desta iniciativa. "Desta forma, é a própria comunidade a criar o seu plano", adaptado à sua realidade, explica.

Durante estes últimos meses, Diniz diz ter-se reunido "com as comunidades, instituições de ensino e alguns dos políticos do estado [da Califórnia]" para a elaboração deste documento, já lançado na cidade de Sacramento. "Todos chegamos à mesma conclusão: é importante termos o ensino de língua portuguesa, aproveitar este renascimento nas comunidades e esta abertura dos hispânicos para aprenderem português. "Todos os envolvidos consideravam que esta era uma oportunidade única, mas agora temos um verdadeiro plano de ação."

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