Bernardo Silva e a sua bela amizade

Falemos da vida real, não de e-conguitos. Do racismo tal qual é, não de sálvia, manjerona e alfavaca, infusões para combater o fastio de internautas. Num livro de mais de mil páginas, Papéis da Prisão (edições Caminho, 2015), escritas por Luandino Vieira, nacionalista angolano e (é relevante no caso) branco. Notas curtas, flashes que os escritor guardava para cumprir o seu destino de nossa memória.

Estava Luandino no campo de concentração do Tarrafal, Cabo Verde, quando datou, "Quinta, 14-5-1970", a nota que para aqui trago. Começou por escrever que nesse dia o preso António Maquinixi soube da morte do seu pai Tchipoia Magita, também ali preso - o velho agonizara durante 15 dias sem qualquer assistência. Mundo brutal apresentado, Luandino passou a um texto curto sobre palavras brutais. Um apontamento a quente, acontecido a três presos, sendo um deles, ele próprio, o narrador.

Eis o texto: "De tarde: visita de um tenente capelão. Eu estava na carpintaria. O homem avança, ar de quem avança sempre sem mais delongas - "Tu, donde és!" "Carmona" "Conheço! E tu?" "Catete" - "Conheço" e dirigindo-se a mim: "E o senhor?"" Fim do texto, 30 palavras.

Com 30 pequenas palavras apenas, o grande escritor talvez não tenha explanado certas coisas. Carmona? Cidade do norte angolano, hoje Uíge. Catete? Vila vizinha a Luanda... Isso não escreveu. Luandino tinha pressa em chegar ao resto, o grande resto, que explodia nas 30 palavras. Em maio de 1970, a menos de quatro anos da libertação de Portugal, um jovem oficial e capelão português perante três irmãos angolanos de igual destino, presos pela mesma causa, tratava-os de forma diferente. Aos negros: "Tu..." Ao branco: "O senhor..."

Eis o racismo protagonizado por quem urgia ser combatido e obrigado a mudar, e sofrido por quem, por combatê-lo, fora preso e depois de preso continuava a sofrê-lo. O racismo não é mal levezinho que passe rápido. O racismo é a convicção da inferioridade do outro, a ponto de um guarda (e o que mais é, um guarda culto, um tenente-capelão) diferenciar presos pela cor da pele.

Então, no racismo não há que enganar sobre o que ele é. É um mal convicto praticado por inimigos. Isso mesmo, sem mas, nem meio mas: inimigos. Dos políticos propagandistas do ódio racial aos grandes e pequenos poderosos que humilham o outro, passando pelas bestas que chamam macaco a futebolistas no estádio. A fasquia do racismo é para ser colocada nessa altura: é assunto a tratar com inimigos. A gravidade dele não é para polémicas infusivas.

Agora, vamos a Bernardo Silva e Benjamin Mendy. Se eu fosse grande como o Luandino escrevia-os assim, sem mais. Deixava o leitor descobrir que o branco português corre para o colega negro francês, recebe-lhe o abraço e em troca afaga-lhe a cabeça, celebram um golo. Ou, no banco, Mendy se vira para trás com um riso que se cruza com o sorriso, que inclui os olhos, de Bernardo... Há fotos. Que, segundo se diz, cada uma vale por mil palavras.

Aqueles dois fazem-me lembrar, 1965 ou 66, dois estudantes angolanos em Lisboa, eu e o Venâncio. No Rossio, adolescentes, frente ao frequentadíssimo snack bar Pique-Nique, fazíamos questão de nos cumprimentar de longe, aos gritos. Um: "Ó branco!" Outro: "Ó preto!" Corríamos um para o outro e abraçávamo-nos, o branco e o negro. Às vezes, repetíamos a dança irrisória, mas não fútil, cinco minutos passados. Se tivesse cruzado por ali algum futuro tenente-capelão talvez aprendesse alguma coisa...

Um dia, chamaram-me para a guerra colonial. Na sequência daqueles abraços, não a fiz, claro. Claro. O racismo - e a guerra colonial era uma das suas representações - é para ser tratado como inimigo. Há lutas que não dá para oposições moles. E muito menos para polémicas mimosas.

Dito isto, estou preocupado com o racismo no futebol. O inimigo, repito, é de inimigo que falo, são as bestas racistas. Estou ansioso por quem prolongue a decência dos Bernardos e dos Mendys e sua linda amizade, e por cada insulto racista se erga no estádio e insulte as bestas. Eis uma polémica, essa sim, digna do tamanho do mal.

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