"Juan Carlos foi um rei exemplar que acabou mal"

António Martins da Cruz, embaixador em Espanha entre 1999 e 2002, diz que Juan Carlos deixa a monarquia espanhola numa situação difícil, traído por um sentimento de impunidade ao fim de décadas de poder. A fragilização da coroa espanhola, defende, não é uma boa notícia para Portugal.

A saída de Espanha do rei emérito Juan Carlos foi um gesto para salvar a monarquia espanhola?
Juan Carlos I foi o que se pode chamar um rei exemplar. Graças a ele houve uma transição para a democracia, ao contrário de Portugal que teve uma revolução de que ainda estamos a sofrer os efeitos, na política e na economia. A Espanha teve uma transição e isso deve-se ao rei. Depois, foi ele que evitou um regresso à ditadura quando houve uma tentativa de golpe de Estado. Teve um comportamento exemplar durante a larga maioria do seu reinado, não só em Espanha, mas já agora, e também no que nos diz respeito, nas relações com Portugal. Simplesmente, como acontece muitas vezes com monarcas e com figuras políticas, acabou mal os últimos anos, quando a Espanha descobriu com surpresa que ele fazia caçadas semiclandestinas no Botswana, depois veio a saber-se que recebia comissões pelo menos da Arábia Saudita e que mantinha uma vida, pelo menos do ponto de vista ético, algo irregular para quem é monarca. Acabou mal. E desde que passou a rei emérito, com o que veio a saber-se a pouco e pouco das investigações judiciais, a situação foi-se degradando.

Porquê esta decisão agora?
Penso que ele sai de Espanha, fundamentalmente, por duas razões. Primeiro, para tentar conservar o que ainda for possível do seu lugar na história. E em segundo lugar para salvar o reinado do filho e a monarquia. Numa versão mais republicana sai para tentar salvar o negócio da família.

Em que situação é que deixa a monarquia espanhola?
Em muito má situação. A Espanha, de um ponto de vista político, está completamente polarizada, viram-se durante a pandemia os ataques sucessivos, diários, das oposições - de todas elas - ao governo. Ao contrário de Portugal, a Espanha tem a extrema-esquerda no próprio governo, tem partidos nacionalistas que querem abertamente a independência, como os catalães, ou veladamente, como os bascos. A tal ponto que ainda hoje [ontem] o governo da Catalunha pediu ao Parlamento para votar a abdicação imediata do rei Felipe VI. Isto é uma prova da polarização e da radicalização política em Espanha, e que apanha a monarquia numa situação muito frágil.

Acredita que Felipe VI conseguirá mudar essa situação de fragilidade da coroa?
Acredito que fará o possível. Segundo alguns dos meus amigos espanhóis a rainha consorte não ajuda muito. Mas acredito que fará o possível para defender a monarquia e o seu lugar imparcial de chefe de Estado. Mas vamos ver para onde é que pende o PSOE. Durante o reinado de Juan Carlos I passou-se sempre o seguinte: Juan Carlos teve sempre excelentes relações com os partidos de esquerda, sobretudo com o PSOE. Porquê? Porque ele tinha plena noção de que os socialistas e a esquerda espanhola são republicanos. Ou ele era exemplar e tinha muito boas relações com eles, ou eles não protegiam. Como teve muito boas relações, protegeram-no. A questão mantém-se, duas gerações depois. Vamos ver para que lado cai o PSOE: não tenho dúvidas de que a maioria dos simpatizantes, ou até dos votantes do partido, são republicanos. Portanto, Sánchez vai fazer o seguinte cálculo: o que é que lhe convém mais a ele para manter o seu governo, para ser ser reeleito, para superar a pandemia e a crise económica? Ter uma monarquia fragilizada que ele pode controlar ou convém-lhe mudar? Eu julgo que é a primeira solução e que a monarquia vai manter-se porque não convém, neste momento, ao PSOE acabar com ela.

Pedro Sánchez fez uma conferência de imprensa em que defendeu que a instituição não pode ser confundida com as pessoas...
Claro, ele é primeiro-ministro, não podia dizer outra coisa. Mas os primeiros-ministros nem sempre fazem aquilo que dizem em público...

"Tudo o que fragiliza o Estado central dá força às periferias que querem ser independentes."

Esta saída de Juan Carlos é uma partida para o exílio?
Não, não. Acho que ele vai voltar. Aliás, na carta que escreve ao filho dá a entender que é uma coisa provisória. Agora, tudo depende de como isto vai evoluir. Ele era política e constitucionalmente irresponsável pelos seus atos, públicos e privados, até 2014, enquanto foi rei. Vamos ver se estas comissões que parece que ele recebia não continuaram depois de 2014 e vamos ver o que diz a senhora que, segundo os jornais, ele beneficiou de um ponto de vista monetário. O processo não está fechado, ainda não sabemos até que ponto isto vai afetar o rei emérito. E se piorar fragiliza ainda mais a monarquia. A extrema-esquerda, o Podemos, os partidos nacionalistas, não se vão calar, vão aproveitar isto para injetarem na opinião pública, cada vez mais, a ideia de que é preciso acabar com a monarquia. E isto, na minha opinião, sucede numa muito má altura para Portugal.

Porquê?
Tudo aquilo que afeta a estabilidade em Espanha é mau para Portugal e, agora, apanha-nos numa altura muito má, de um ponto de vista sanitário e, sobretudo, económico. É a pior crise económica em Portugal nos últimos 40 ou 50 anos. A Espanha é o nosso primeiro fornecedor mas, sobretudo, o nosso primeiro mercado de exportação, entre 25% e 30%. Uma fragilização e uma instabilidade política e económica em Espanha é a pior coisa que pode acontecer a Portugal, de um ponto de vista geopolítico e de um ponto de vista económico. Estou a ver muitos portugueses, sobretudo de esquerda, a gozarem de fininho com o que está a acontecer à monarquia espanhola, esquecendo-se de que a fragilização da monarquia significa a instabilidade de Espanha e que isso é mau para Portugal.

"Os espanhóis não são como os portugueses. Não guardam a faca na liga, têm a faca na mão."

Na sua perspetiva há um perigo real para a monarquia espanhola, a médio/longo prazo?
Há aquele clássico da economia que diz que, a longo prazo, estamos todos mortos. Não faço ideia. A curto prazo é muito mau para a monarquia espanhola. Se me está a perguntar se vai sobreviver, acho que nos próximos anos sim, até porque os espanhóis têm bom senso e, numa altura em que estão frágeis, não vão fazer isso. Agora, se a situação política e social em Espanha se radicaliza cada vez mais, se se polariza, não consigo responder se a médio prazo não haverá alterações constitucionais. Não nos podemos esquecer de uma coisa: da última vez que os espanhóis se zangaram, em 1936, houve um milhão de mortos. Os espanhóis não são como os portugueses, eles matam o touro. Não guardam a faca na liga, têm a faca na mão.

O fim da monarquia representaria um perigo para a unidade de Espanha?
Seguramente. Os partidos nacionalistas, sobretudo na Catalunha e no País Basco, iriam aproveitar, não tenho a mínima dúvida. Por isso é que acho que o bom senso dos espanhóis vai manter a monarquia ainda por vários anos. Mas a sociedade espanhola radicaliza-se cada vez mais, é futurologia estar a dizer o que vai acontecer daqui a dez ou 15 anos. Esperemos que não. Para Portugal uma alteração institucional em Espanha, se não for aceite generalizadamente pelos espanhóis, é um fator de instabilidade e é mau para nós.

E, neste momento, o que se passa com a monarquia pode influenciar o que se passa na Catalunha?
Seguramente, tudo o que fragiliza o Estado central - e o chefe de Estado é a instituição política mais importante de qualquer país - dá força às periferias que querem ser independentes. Isso vem nos livros.

Voltando a Juan Carlos. Como é um homem que era uma figura praticamente consensual, amado pelos espanhóis, deita tudo a perder desta forma?
O que aconteceu ao rei de Espanha, nesta parte final, é um exemplo magnífico para os políticos. Os políticos devem ter, em todos os cargos, sejam quais forem, limitação de mandatos. Nós temos para o Presidente da República, infelizmente não temos para o primeiro-ministro e para os deputados, mas devíamos. Sabe porquê? Para não lhes subir o poder à cabeça, que é o que eu penso que aconteceu a este senhor. A impunidade: ele pensou que podia fazer tudo o que quisesse. Sou amigo de dois chefes da Casa Real do rei e falei muito com eles, quer quando fui embaixador em Espanha quer depois. Nunca o disseram, mas deixavam entender que, a pouco e pouco, havia um sentimento de impunidade. O espaço que Juan Carlos tinha, a mistura entre a vida privada e a vida pública, as ligações com outros chefes de Estado ou com monarquias que não têm os nossos padrões de comportamento político e ético... Tudo isso fez que ele perdesse um bocadinho o sentido de Estado e ganhasse um sentimento de impunidade. E é pena, porque em dois terços ou três quartos do seu reinado ele foi um rei exemplar. E a quem Portugal deve muito. Não me esqueço de uma coisa: isto passou-se creio que em 1988 ou 89 e eu era, na altura, assessor diplomático do primeiro-ministro Cavaco Silva. O rei telefonou ao primeiro-ministro e disse-lhe o seguinte: "Vou mandar-lhe o príncipe Felipe durante alguns dias, porque quero que ele conheça Portugal e os portugueses. Se não se importa ensine-lhe o que é Portugal." O primeiro-ministro chamou-me e pediu para fazer um projeto de programa, o que é que devíamos mostrar ao príncipe herdeiro de Espanha - que era um miúdo, ainda não tinha 20 anos nessa altura - para ele conhecer a realidade portuguesa. O rei, talvez porque tenha vivido em Portugal na infância e porque Portugal tratou sempre bem os seus pais e as suas irmãs, quis que o futuro rei conhecesse Portugal desde cedo. O rei gostava de Portugal e queria que Espanha tivesse boas relações com Portugal

Como é que a história vai recordar Juan Carlos?
A história costuma ser cruel... A história imediata vai agarrar-se aos últimos anos. Daqui a 30 ou 40 anos julgo que os historiadores vão ter outra perspetiva e outro horizonte.

Depois das polémicas com a irmã e o cunhado, agora é o pai. Felipe VI é um monarca sozinho...
Tenho pena dele! Mas ele tem demonstrado até agora bom senso e tem mantido - uma coisa que o pai não tinha - um low profile que vai mais com o paradigma das monarquias modernas, como são as nórdicas. O pai era mais interveniente, Felipe VI tem um perfil mais discreto.

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