Qanon: o bando que ataca jornalistas nos comícios de Trump

É a teoria da conspiração das teorias da conspiração. Os seus seguidores já aparecem nos comícios do presidente. E há quem tema que a sua retórica antimedia termine em violência.

Está tudo perfeito, não há qualquer caos na Casa Branca e o presidente Donald Trump tem o controlo absoluto de tudo. Esta é a linha condutora da última teoria da conspiração na América. Chama-se Qanon, ou "A Tempestade", nasceu nas redes sociais com as mensagens do misterioso Q e já chegou aos comícios do presidente, onde muitos apoiantes exibem cartazes com a letra Q ou T-shirts com o slogan "Onde vai um, vamos todos".

Juntando simples amantes das teorias da conspiração a elementos da extrema-direita americana (sobretudo a alt-right), a Qanon não esconde ser defensora das armas. Junte-se a isto o momento de tensão entre a administração Trump e os media - na terça-feira à noite, em Tampa, o jornalista da CNN Jim Acosta foi rodeado por uma multidão que gritava "a CNN não presta", "traidor" e "mentiroso". E no dia seguinte, quando confrontada por ele para dizer que os media não são o inimigo, a porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders, recusou fazê-lo - e está explicado porque peritos da ONU vieram nesta semana alertar para o facto de a retórica do presidente estar a alimentar a violência contra os jornalistas.

Veja o vídeo de Acosta no comício de Trump:

Num comunicado conjunto, David Kaye e Edison Lanza, ambos ligados à defesa dos direitos humanos, alertam: "Estes ataques vão contra a obrigação dos EUA de protegerem a liberdade de imprensa e a lei de proteção dos direitos humanos internacional."

Origens da teoria

Mas voltando à Qanon, como é que começou? Na verdade foi o próprio Trump quem a 5 de outubro de 2017, num encontro com militares, falou na "calmaria antes da tempestade". Quando inquirido por um jornalista a que tempestade se referia, o presidente respondeu: "Já vão descobrir!" Para a maioria das pessoas, a frase pouco significou, estando apenas Trump a ser Trump. Mas para quem vive para as teorias da conspiração, "A Tempestade" tornou-se o mais importante movimento da era Trump.

Dias depois, a 28 de outubro, surgia no Reddit a primeira mensagem assinada Q. No Departamento de Energia, o Q é equivalente ao mais alto nível de acesso - o Top Secret. Não tardou até que Q enviasse nova mensagem, desta vez afirmando que Hillary Clinton, a rival democrata de Trump nas presidenciais de 2016, fora "detida". Não se confirmou. Como não se confirmou que a investigação à ingerência russa nas presidenciais é apenas um embuste, estando na realidade Trump e o procurador especial Robert Mueller a trabalharem juntos para desmascarar uma série de pedófilos, incluindo Hillary, o marido, o ex-presidente Bill Clinton, e Barack Obama, o antecessor de Trump na Casa Branca.

Mas a mais importante das mensagens é mesmo que tudo está bem na Casa Branca. Um "facto" no qual todos os seguidores da teoria da conspiração popularizada no Twitter com a hashtag #Qanon têm de acreditar. E são muitos os que apoiam Q. Do apresentador da Fox News Sean Hannity à atriz Roseanne Barr.

São muitos os que apoiam Q. Do apresentador da Fox News Sean Hannity à atriz Roseanne Barr.

Ao longo dos últimos meses, as mensagens de Q tentaram provar que ele - ou ela, ou eles - tem acessos de alto nível. Até publicou no Reddit imagens que terão sido tiradas a bordo do Air Force One.

Talvez por isso alguns acreditam que Q é o próprio Trump. Mas não falta quem - como bons seguidores das teorias da conspiração e mesmo se ideologicamente não faz qualquer sentido - esteja mais inclinado para achar que é John John Kennedy, o filho do presidente democrata John F. Kennedy (cujo assassínio em 1963 é ele próprio fonte de inesgotável teorias da conspiração), que morreu em 1999 aos comandos do seu avião. Uma morte que acreditam ter forjado.

Mãos salpicadas de sangue

"São todas as teorias da conspiração reunidas numa só, uma sinfonia de teorias da conspiração", explicou Andy Campbell no The Huffington Post, referindo-se a Q. E no The Washington Post Margaret Sullivan lembra a proximidade entre este grupo e o Pizzagate, uma teoria da conspiração que em 2016 se tornou viral, com o e-mail de John Podesta, o gestor de campanha de Hillary, a ser divulgado e o conteúdo das mensagens publicado pela WikiLeaks.

Rapidamente as redes sociais encheram-se de teorias da conspiração segundo as quais os e-mails tinham referências a uma rede de exploração sexual de crianças em restaurantes de Washington, envolvendo altas figuras do Partido Democrata. Apesar de falsas, as alegações levaram um homem da Carolina do Norte a entrar no Comet Ping Pong, abrindo fogo no interior.

Os receios de que algo semelhante se possa repetir levaram várias pessoas a apelar a Trump para moderar a retórica. Sobretudo os ataques aos media "nojentos", como lhes chamou esta semana. Da ONU à colunista do The Washington Post. Margaret Sullivan admite que não passará de uma "fantasia", mas não deixa de sublinhar: "Seria uma boa forma de ele provar que é o presidente de mais do que a sua base. E de o fazer antes de ter as mãos salpicadas de sangue."

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