Ordenação episcopal de Tolentino Mendonça a 28 de julho de 2018.

José Tolentino Mendonça

O filho de pescador que encontrou nas palavras e na fé o sentido da vida

Simples e dialogante. É assim que os amigos olham para José Tolentino Mendonça, o arcebispo português que será cardeal a partir de 5 de outubro. O poeta e escritor que começou a escrever na década de 1980, publicando textos no Diário de Notícias, no caderno DN Jovem.

"Como padre, sou uma obra dos outros, vivo uma relação permanente com eles, numa comunidade que marca a minha vida, realizo-me nessa espécie de tráfego quotidiano que me aproxima e reenvia quotidianamente para os outros." Assim se define José Tolentino Calaça de Mendonça numa entrevista ao DN em 2011. Quem o conhece reforça: "É um homem que vive para os outros."

Tolentino Mendonça é o homem que nos últimos tempos foi chamado a Roma pelo Papa Francisco para ocupar cargos que antes nunca tinham sido atribuídos a um português. Os sucessivos cargos deram-lhe exposição, embora já a tivesse como poeta, ensaísta, professor. Uma exposição que, diz quem o conhece bem, se calhar preferia não ter. "Se calhar, preferia estar a trabalhar para a Igreja mais na sombra do que em cargos com tanta exposição." Ele gosta do seu espaço, da sua solidão, que o ajuda a criar a sua poesia.

Com um percurso intelectual reconhecido, com mais de 20 livros publicados, desde 1990, quando lançou o seu primeiro livro, Os Dias Contados, Tolentino Mendonça é definido como um homem de simplicidade e humildade enormes. Um homem com uma capacidade de diálogo inigualável, capaz de fazer pontes, onde estas parecem difíceis. Um homem capaz de olhar para o outro sem se escandalizar. "Um homem capaz de olhar para Jesus, para o Evangelho e de o transmitir de forma como só ele sabe, com tamanha profundidade, dimensão e discernimento que, quando as palavras lhe saem, soam a diferença e são capazes de captar a atenção de quem por norma não está atento."

José Tolentino Mendonça, Tolentino para os amigos ou padre Tolentino, é para alguns um homem da Igreja muito semelhante ao Papa Francisco. Talvez por isso tenha sido chamado a organizar o retiro quaresmal do Vaticano em 2018 com as suas reflexões subordinadas ao tema "O Elogio da Sede", talvez por isso tenha assumido, precisamente há um ano, a 1 de setembro de 2018, os cargos de arquivista e bibliotecário no Vaticano e de arcebispo de Suava.

Por tudo isto, a nomeação para cardeal já era esperada, "só não se sabia quando. Aliás, se tivesse havido consistório em julho deveria ter sido nessa altura", diz o padre José Manuel Pereira de Almeida, que o substituiu na direção da Universidade Católica.

A notícia foi dada pelo pelo próprio Papa, durante este domingo de setembro no Angelus. Tolentino deve ter sido informado antes, embora o Papa goste de surpreender. Pouco depois, falava com amigos em Portugal. "Estava calmo e tranquilo, a aceitar com simplicidade mais uma missão que lhe está a ser confiada", disseram-nos. Nestas alturas, "gosta de recato", contam-nos.

O dia em que chorou quando recebeu o telefonema do Papa

Há um ano, no dia em que se soube que seria nomeado arcebispo e que partiria para Roma, começou a manhã a chorar ao receber um telefonema do Papa agradecendo-lhe o facto de ter aceitado o seu convite. "Emocionou-se pela dimensão da missão", dizem-nos. Aos amigos pediu ajuda. "Vais ter de me ajudar, não sei nada do que é preciso fazer", disse. Uma atitude que "surge pela sua grande humildade e simplicidade", conta ao DN o padre Hugo Gonçalves, pároco da Igreja do Campo Grande, e amigo de longa data de Tolentino Mendonça. "Emocionou-se com o telefonema do Papa. Pela dimensão do que lhe estava a pedir, e depois pediu ajuda aos outros. Isto revela quem ele é", sublinha o pároco do Campo Grande, que o conheceu na Universidade Católica, quando foi seu professor de Teologia Bíblica.

"Foi meu professor entre 2007-2010 no curso de Teologia. A amizade surge depois e ao longo do tempo, a ponto de lhe pedir para ser meu diretor espiritual. Ele aceitou, com muita simplicidade. É um dos seus traços característicos. Estou-lhe muito grato, ajudou-me a caminhar com muita calma na minha missão como padre e sobretudo no aprofundar da minha relação com Jesus e na minha forma de estar junto da Igreja."

Hugo Gonçalves soube da notícia no domingo em que estava numa missão com jovens. É em viagem que fala com o DN: "O padre Tolentino tem palavras sábias. É daquelas pessoas que têm um interesse genuíno pelas pessoas. Quando nos escuta, escuta mesmo e dele surgem sempre palavras, que podem nem ser muitas, mas que vão diretas à alma. O facto de ser um homem da cultura dá-lhe uma capacidade de dialogar com o mundo, de estar no mundo e de discernir sobre os caminhos que o mundo pode seguir, que é ímpar."

Hugo Gonçalves vai desfiando as qualidade de Tolentino Mendonça, do padre Tolentino, como lhe chama, esquecendo-se de que já é arcebispo e à luz da hierarquia da Igreja deveria ser D. José Tolentino, mas ele "é pouco exigente na forma como o tratam", garante, acreditando que é pela "maneira como diz o Evangelho, como traduz Jesus para a linguagem da atualidade, que é muito difícil, que o Papa Francisco o tem escolhido para todas as suas missões". E continua: "É um homem que aprofunda muito as questões humanas e da vida. Um homem que não se escandaliza perante os outros e pelos caminhos que fazem. É um homem que vai ao encontro dos outros. É um homem de grande abertura."

Tem quatro irmãos, o pai foi pescador em África, de onde trouxe muitas memórias

José Tolentino nasceu no Machico, na Madeira, a 15 de dezembro de 1965, mas cresceu no Lobito, Angola, onde viveu com a família até aos 11 anos e onde o pai era pescador. De África guarda na memória "uma sucessão de imagens felizes vividas praticamente na praia". E é desta altura que guarda a memória das suas primeiras leituras, "muitas delas feitas através da memória da minha avó, que me contava romances de cor", contou na entrevista ao DN, em 2011.

Na memória guarda também a imagem do pai a ler Bíblia ou a fazer orações, imagens que o marcaram pela expressão da fé. De uma família "com um fundo religioso forte", aceita a presença de Deus muito cedo na sua vida e diz que por "Ele passaram questões importantes do meu próprio ser", porque "fé que não se questiona não faz sentido".

Regressa à Madeira em 1976 na ponte aérea que trazia os retornados. Em 1982 começa os estudos de Teologia. É nesta década que inicia a escrita com textos publicado no suplemento DN Jovem, alguns com pseudónimos Tiago Hulsenn, André Trieste e João Hogan, nomes, que como ele próprio explicou num dos seus textos, foram escolhidos de um barco, de uma cidade e de uma pintura, que, no fundo, mostravam o marinheiro do norte, o meridional errante e o ilhéu que há nele.

Na altura, Tolentino Mendonça, num texto que escreveu para o DN Jovem, já dizia: "Não quero ser escritor, quero ser feliz." Mas é escritor, poeta, ensaísta, mas também um homem da cultura, do mundos, dos outros, um homem que parece ter encontrado nas palavras e na fé o sentido da vida.

Mas já nessa altura, ainda com muito poucos anos de vida literária, explicava: "Um poeta não escreve por ser sábio ou mais iluminado, escreve porque vê, porque medita as coisas por dentro, porque tem uma alma onde as coisas se vão refugiar."

É esta a profundidade que os amigos lhe conferem, a alma e a sabedoria que já na altura se vislumbrava.

Segue o seu percurso e é ordenado padre aos 24 anos, a 28 de julho de 1990. A seguir vai para Roma, fazer mestrado em Ciências Bíblicas, volta e ingressa na Universidade Católica como professor das disciplinas de Hebraico, Cristianismo e Cultura. Ali se doutorou em Teologia Bíblica e se tornou capelão, foi diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, nomeado para assessor cultural do Papa, arcebispo e cardeal a 5 de outubro, um dos cinco que Portugal tem agora no Vaticano, e três em condições elegíveis.

"Um homem de Deus e da cultura"

Este primeiro dia de setembro apanhou alguns desprevenidos, outros nem tanto. Esta nomeação era esperada, pelo percurso, pelos seus talentos e méritos intelectuais e pessoais. Para a diretora da Faculdade de Teologia da Católica, Ana Maria Jorge, não há outra forma de expressar o dia de hoje "como um dia muito feliz a título pessoal e institucional. Como amiga do Tolentino, fico muito feliz. Ele é um homem de Deus e da cultura e tenho a certeza de que irá pôr todos os seus talentos ao serviço da Igreja e da sociedade, que esta nova etapa da sua vida será muito prometedora para todos nós e para a Igreja em geral. A titulo institucional também é uma nomeação que me alegra muito, porque se trata de um antigo aluno da faculdade, de um professor muito querido e próximo dos alunos, apreciado pelas suas competências científicas, e também por ter sido diretor da faculdade antes da sua partida para Roma".

Para o bispo do Funchal, D. Nuno Braz, de quem é próximo, "D. Tolentino é uma referência maior da região" pela sua "profundidade religiosa, cultura e pensamento". Ao final da manhã, as reações começaram a chegar de todo o lado. Tolentino é o homem que muitos dizem conseguir reunir na mesma sala pessoas tão diferentes e "quase impensáveis", mas "ele é assim, um homem consensual".

O Presidente da República foi dos primeiros a manifestar a sua satisfação. Se tudo correr como o previsto, Portugal assistirá no próximo 10 de Junho ao discurso do cardeal D. Tolentino Mendonça. O convite já lhe tinha sido feito por Marcelo Rebelo de Sousa, e aceite.

Pedro Mexia, poeta, cronista, crítico literário, assessor cultural do Presidente da República e amigo de Tolentino, espera que as novas funções não o impeçam de estar presente nas cerimónias do 10 de Junho e de discursar. "Conheci o nome José Tolentino Mendonça como poeta, antes de todas as outras dimensões. Foi um dos poetas mais marcantes da minha geração." Por isso, quando o conheceu efetivamente, mais tarde, como capelão da Católica, onde tirava o curso de Direito, a curiosidade de Pedro Mexia era grande. "Lembro-me de que na altura se começou a notar logo uma singularidade na maneira como chegava às pessoas. Às vezes, até às pessoas que não eram muito próximas da religião, mas ele tem esta capacidade de diálogo."

Mas o que os aproximou mesmo, conta, foi uma característica muito própria dele, na sua forma natural de olhar para as coisas: "A visão de que não tem de haver uma oposição entre a fé e o mundo." Se o tivesse de definir, Pedro Mexia fá-lo-ia, sem dúvida, também pela sua faceta dialogante. Ao ponto de dizer: "O Tolentino não se interessa tanto em pregar para os convertidos, se assim posso dizer, independentemente de todo o trabalho que tem feito na Igreja, em paróquias. Penso que ele tem um gosto particular em fazer pontes com pessoas que não têm as mesmas convicções ou a mesma visão do mundo, precisamente no sentido de perceber que afinal pode haver pontes de contacto, mesmo onde não se pensa."

Pedro Mexia fala de Tolentino, como o trata, com afeto e admiração. Para ele "é um dos poetas mais importantes da minha geração, portanto teria sempre admiração do ponto de vista literário. Aliás, até foi assim que o descobri". Mas não só. O facto de haver "uma pessoa desempoeirada como ele na Igreja durante a minha geração é muito, muito positivo".

Tolentino Mendonça é daquelas pessoas para quem quase não há substituto. Pedro Mexia comenta: "É claro que não há pessoas insubstituíveis, mas ele gerou uma aura de insubstituibilidade, e quando foi para Roma muitas pessoas lhe perguntavam: "E agora, padre Tolentino, como vai ser?"

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