Quase três anos depois do início da pandemia, o povo português volta aos cemitérios para lembrar os seus mortos, oferecendo flores e orações aos antepassados, sem restrições, mas com novas preocupações. Hoje é Dia de Finados e, por esta altura do ano, estes espaços enchem-se de famílias que homenageiam as vidas que nos inspiraram. Cada um de nós é um pedaço das suas avós e seus avôs, das mães e dos pais e tantos outros. Recordar o que viveram, experienciaram, construíram é parte do presente e pode inspirar-nos para o futuro..Quantas das gerações passadas atravessaram maiores dificuldades do que aquelas que vivemos hoje? Não enfrentamos poucos desafios em 2022, é certo, mas as condições de vida dos portugueses melhoraram para muitos ao longo do último século. Os relatos que ouvíamos dos mais velhos, de ter a comida racionada por senhas ou de dividir uma sardinha por três elementos num lar, já não se aplicam aos dias de hoje, pelo menos do mesmo modo. Todavia, a pobreza tem vindo a aumentar, sobretudo desde o início da pandemia de covid-19, como evidenciou o último estudo da Pordata e os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Agora é a inflação recorde de 30 anos e as taxas de juro que nos devoram os salários, mas, ainda assim, não dividimos uma sardinha por três..O país passou por muitos desafios, mas nos últimos cem anos deram-se saltos de gigante em termos de qualidade de vida, acesso a bens alimentares de primeira necessidade, conforto, infraestruturas de água e saneamento, saúde e alfabetização. E hoje, quando adornamos as campas e recordamos os nossos entes queridos, provavelmente, lembramo-nos que a vida, ainda há poucas décadas, foi muito mais agreste e não dependia de caprichos, como o último modelo do telemóvel, jogo eletrónico ou automóvel..Um pouco por todo o país, estes últimos dias têm sido também marcados pelas tradicionais feiras dos Santos. Apesar da proliferação de espaços comerciais gigantes por todas as médias e grandes cidades, do interior ou litoral, estes mercados são procurados pelas famílias não só para rechear a dispensa com os tradicionais frutos secos do outono, mas também na expectativa de terem acesso a bens alimentares ou vestuário de inverno a preços mais acessíveis para carteiras cada vez mais vazias..O cheiro da castanha assada, a música dos carrosséis, os sorrisos das crianças de fartura na mão são o espelho do país real. Apesar da felicidade aparente, na alma do povo das feiras e dos cemitérios está a preocupação com o agudizar da crise, a fatura da energia e o cenário económico e social para 2023..Diretora do Diário de Notícias