Este é o lar de uma das civilizações mais antigas do mundo. Desde a Pérsia, o nome do país foi mudando. Mas há um produto que se mantém inalterável no nome e na fama: o tapete persa é uma parte essencial da arte e da cultura do Irão. Nasceu para ser um bem necessário para que os povos se protegessem do inverno rigoroso. Depois, foram tomando maior requinte, nos motivos e nas cores vivas, bem como na inspiração decorativa. No vasto bazar da cidade de Tabriz, com tudo e mais não sei o quê, o guia explicou que este tapete já foi mais exportado do que é agora. Depois da Segunda Guerra Mundial, o Governo iraniano tomou uma série de medidas que levaram a uma renovação do tapete persa, depois do declínio no período entre guerras. Porém, devido a revolução islâmica, a produção de tapetes persas diminuiu, uma vez que o novo regime considerava os tapetes um "tesouro nacional", proibindo a sua exportação para a Europa, para a América do Norte e para países mais próximos. Com o fim da guerra entre o Irão e o Iraque, nos anos 80, os tapetes voltaram a ser considerados uma fonte de receita, aumentando a exportação. Se bem que, presentemente, haja indústrias a fabricá-lo, o tapete feito com as técnicas tradicionais é o mais procurado, mesmo sendo mais caro. O tapete persa feito à mão é de lã ou seda e tem coloração natural, podendo custar uma pequena fortuna. Os vendedores desenvolveram uma classificação para os tapetes persas baseada nos desenhos, nos tipos de tecidos e na técnica de tecelagem. As categorias são catalogadas a partir das cidades e regiões associadas a cada tipo de motivo. A cidade de Tabriz já foi a capital do Irão e é uma paragem obrigatória na turística Rota da Seda, sendo um dos mais antigos centros de tecelagem e o primeiro a exportar. Observei a variedade de tipos e padrões de desenhos: ornamentos de flores, muitas vezes com medalhão central, árvores floridas, arbustos, animais e motivos religiosos. Em paralelo, há lojas que vendem os tapetes e também as matérias-primas. Muitas dessas lojas estão carregadas de coisas até ao alto dos tetos construídos com tijolo vermelho. Há um cheiro composto no ar do labiríntico desenho de ruas da cidade mais antiga, numa mistura de lã, especiarias e frutas, bem como diferentes cambiantes de luz, ritmos e conversas. Na cidade mais moderna, sente-se o aroma dos restaurantes, onde a carne domina a maioria dos pratos, e também o das batatas-doces e de outros tubérculos cozinhados numa calda de açúcar que, mantidos quentes, libertam uma nuvem de vapor de fragrância adocicada. Ali, tudo parece perfeito na imperfeita malha que nos habituamos a percorrer se permanecermos mais do que um dia. Parece um paradoxo, mas talvez não. É que os próprios tapetes têm uma particularidade que pode justificar o resto. Um tapete persa é criado propositadamente imperfeito: "Apenas Deus é perfeito. Apenas Ele pode criar a perfeição", disse o guia. Pelos vistos, há 2000 anos que assim é. De propósito, o tapete persa tem sempre uma pequena assimetria ou a falta de um pormenor no desenho. Se o perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito, então onde caberá a hospitalidade ilimitada do povo iraniano?.Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.