Há pouco mais de um ano, questionado sobre a ausência de nomeações para altos cargos da administração americana na área da política externa, o presidente respondeu que a única pessoa que importava era só uma: ele próprio. A cimeira desta semana em Hanói foi o espelho desse narcisismo metodológico, preparada de forma voluntarista para ser um marco na história da nova diplomacia americana. Importa referir que só existe um segundo encontro com Kim Jong-un porque o primeiro, em junho passado, teve um efeito reduzido. Nem a desnuclearização norte-coreana foi espoletada, nem as sanções internacionais foram aliviadas, nem contribuiu para uma melhoria no respeito pelos direitos humanos. O simbolismo político gerou nesse momento uma expectativa tal que, de duas uma, ou a máquina de influência americana estava calibrada para levar a bom porto um roteiro ambicioso, ou tudo não iria passar de um logro. Oito meses depois, a avaliação é fraca. A mesma resulta deste segundo encontro..Para que a coerção, a influência bilateral americana e a pressão regional com Seul, Tóquio e Pequim resultassem numa alteração de comportamento duradouro de Kim Jong-un, a diplomacia americana precisaria de mostrar outro profissionalismo. Em princípio, cimeiras a este nível são o culminar de um processo negocial competitivo e duro, envolvendo equipas sólidas e experientes, não devem ser o início de qualquer coisa deixada em aberto. O presidente Obama, por exemplo, nunca se encontrou com o Líder Supremo do Irão para, a partir daí, chegar a um acordo sobre o nuclear iraniano. O erro de partida conduz à implosão das boas intenções e à banalização do capital político empregue..Para que tal não aconteça é preciso pelo menos que quem se ocupa dos assuntos da Ásia do Sul no Departamento de Estado esteja em funções, que exista por exemplo um embaixador americano nomeado na Coreia do Sul, ou um outro nas Nações Unidas. Ora, nenhuma das três posições está neste momento preenchida. Tal como não está ocupado o equivalente ao secretário de Estado para os assuntos europeus, ou o cargo de embaixador americano no Paquistão, numa altura tão tensa com a Índia. No total, são cerca de 600 as nomeações consideradas relevantes que a atual administração ainda não conseguiu preencher desde que tomou posse. Além disto, três ministérios - Defesa, Justiça e Interior - e a chefia do gabinete do presidente estão entregues a diligentes funcionários em regime de transição, o que não assegura qualquer autoridade política na competitiva feitura das políticas públicas americanas, nem um equilíbrio mínimo com o autoritarismo crónico de Donald Trump. Sem estes equilíbrios e a garantia de qualidade política será difícil que os EUA consigam pôr em marcha um conjunto de acordos em substituição daqueles que consideram maus (UE, Irão, alterações climáticas, INF com Rússia) ou que preencham vazios existentes. Para um presidente como Trump, que vende à exaustão um talento natural para a "arte do acordo", o que temos visto é uma terraplanagem ao que existe sem a construção de um novo e melhorado pacto liderado por si..Esta forma de atuar não é só lesiva dos interesses americanos, a curto e a médio prazo, como põe vários aliados à beira de um ataque de nervos. No rescaldo da cimeira de Hanói, as sondagens sobre a atuação do presidente sul-coreano caíram, reflexo da enorme expectativa gerada pelo capital político empregue por Seul para, por um lado, melhorar as relações na Península Coreana e, por outro, aproximar Trump e Kim com vista a um acordo de desnuclearização duradouro. Já em Tóquio houve uma dupla interpretação. Se foi bem recebida a manutenção das sanções, uma desnuclearização inconsequente não é geradora de confiança nas capacidades americanas, o que valida a tese da normalização militar japonesa que o primeiro-ministro Abe quer prosseguir. Em Pequim, a repartição do fardo securitário em redor da Coreia do Norte não teve o andamento pretendido, além de as duas cimeiras terem dado a Kim Jong-un um estatuto internacional que o torna menos controlável pela China. As quatro visitas que Kim aí fez em 2018, em contraste com as zero que realizara nos cinco anos anteriores, também sinalizam essa ascensão bilateral..Paralelamente à má gestão com a inquietação permanente vinda da Coreia do Norte, a verbalização das opções americanas sobre a Venezuela, a tensão comercial por dirimir com a China, o regresso da agressividade com o Irão e com Cuba e a falta de capacidade para influenciar o fim da conflitualidade em Caxemira ilustram o atual arco de inoperância da política externa americana. Arco este que convive com uma investigação em casa que vai cercando o presidente e o seu círculo íntimo. Robert Mueller estará prestes a revelar as conclusões relativas às acusações de conluio com a Rússia nas eleições de 2016. O segredo em que as manteve pode indiciar a dimensão dos impactos que dali podem decorrer. Veremos como o Departamento de Justiça, liderado como referi por um indefetível de Trump em regime transitório, irá lidar com isso. Precisamente quando Trump e Kim apertavam as mãos em Hanói, o antigo advogado do presidente americano, Michael Cohen, reforçava em audição no Congresso o que pensava sobre o ex-patrão, da sua propensão para a mentira às pressões para obstruir a justiça que testemunhou. À medida que o cerco aperta em casa, a disponibilidade de Trump para tocar várias campainhas no exterior vai aumentar. A qualidade demonstrada até aqui faz temer o pior..Investigador universitário