As fronteiras da Zoomlândia

A Covid-19 acelerou a digitalização de relacionamentos, comunicações e hábitos de consumo. A conveniência da vida online atingiu entretanto a política e a diplomacia, confinadas a videoconferências que expõem vantagens e enormes riscos para a saúde das democracias. Convém cuidarmos delas.

Não é sério atribuir à Covid-19 uma súbita digitalização das economias ou dos nossos hábitos de consumo. Certo que muitas empresas precisaram de fazer ajustamentos tecnológicos rápidos, mas a tendência é muito anterior à pandemia, não uma novidade por si gerada. Também aqui o vírus invisível que nos tem dominado revela-se mais um grande acelerador de partículas do que um momento fundacional. Quem fazia habitualmente compras online não estranhou certamente a rotina adaptada ao confinamento, o mesmo se passa com a relação mantida com o banco ou no uso recorrente das plataformas de videoconferência. Não será o retrato de uma larga maioria, mas não é certamente uma bizarria do último mês.

De qualquer forma, sabemos hoje que o comércio digital aumentou 80% em Itália, que as grandes empresas de telemedicina mundiais duplicaram as suas vendas nas últimas seis semanas, ou que o Zoom passou de 10 milhões de utilizadores diários em dezembro para 300 milhões atualmente. Vale a pena lembrar que a sua capitalização bolsista é hoje superior à de todas as companhias aéreas americanas cotadas no seu conjunto. Usando a imagem, significará isto que estamos a assistir ao fim das reuniões presenciais e que mergulhámos definitivamente no écran para negociar uma grande transação empresarial ou um importante acordo político? Este ponto parece caricatural, mas a realidade é que a política e a diplomacia foram obrigadas a adaptar-se a esta Zoomlândia e isso tem vantagens claras, nomeadamente financeiras, mas deveria estar a levantar muitas dúvidas sobre a sustentabilidade do método.

Reza a história que quando o primeiro-ministro britânico Lord Palmerston recebeu a primeira mensagem por telégrafo, em 1860, terá imediatamente exclamado, "meu deus, isto é o fim da diplomacia". Não foi. Pelo contrário, a dispersão de contactos foi facilitada, expandiram-se redes de interesses e ter-se-ão evitado mal entendidos que preveniram alguns conflitos. A comunicação é fundamental na ação política e a diplomacia vive do seu aprumo, cadência, solenidade, solidez argumentativa, de tradições mais ou menos públicas, de relações recatadas e da discrição exigida a uma negociação relevante. Foi a preservação dos detalhes diplomáticos que viabilizaram, por exemplo, os Acordos de Oslo ou o que procurou limitar o programa nuclear do Irão. Para além disto, há razões para se enviar e manter representações diplomáticas em Estados e organizações internacionais, prática anterior ao advento maciço das tecnologias da comunicação e que certamente sobreviverá ao avassalador momento digital que atravessamos. Uma delas, talvez a mais relevante, é a imperiosa necessidade que a diplomacia tem de assentar em relações de confiança, dimensão que dificilmente é gerada por Zoom ou qualquer plataforma concorrente. Outra é a capacidade de recolher a melhor informação no terreno, sem delegar em filtros ou canais indiretos que prejudicam o processo de decisão político. Por exemplo, e a esta distância temporal, o encerramento de embaixadas ocidentais na Síria em 2012 pode ter sido precipitado, inviabilizando um melhor conhecimento da complexidade dos factores em disputa, o que poderia ter dotado alguns Estados e organizações de maior capacidade mediadora num conflito que ainda hoje dura.

A prática política e a diplomacia precisam de um enquadramento humano, físico, de confronto argumentativo, de jogo de cintura imediato, de reação sem problemas técnicos, de fugir das dinâmicas engasgadas do "está-me a ouvir", precisa de continuar a assentar numa leitura semiótica aos comportamentos dos protagonistas, da sua avaliação permanente pelo grande público, de escrutínio sobre a resposta dada à pergunta mais difícil do debate. Nem a política nem a diplomacia sobrevivem confinadas a videoconferências ou argumentações necessariamente enxutas que desvalorizam o debate, a dialética e a negociação. O Zoom pode ser um eficaz desbloqueador para emergências burocráticas, até como elemento de continuidade em organizações marcadas pelo fim abrupto dos trabalhos, como as Nações Unidas. Mesmo assim, o Conselho de Segurança que pela primeira vez na sua história teve uma votação feita por email, evitou a videoconferência para esse efeito por dúvidas de segurança levantadas por alguns dos seus membros.

A verdade é que qualquer que seja a plataforma usada ela precisa de ser aceite por todos como depositária de confiança para ser a regra em reuniões de alto nível. Ora, isto dificilmente acontecerá. Nem falo das brechas de segurança de que o Zoom tem sido acusado e que levou já Taiwan a bani-lo. Será sempre difícil que um mecanismo online não esteja sujeito a violações informáticas, o que é incompatível com a complexidade e a sensibilidade de uma imensidão de assuntos que exigem confiança entre as partes e segurança metodológica. Nada disto é viável sem relações presenciais, as quais, aliás, são as que melhor contribuem para outras valências da diplomacia. Citando um dos mais brilhantes diplomatas americanos, William Burns, "uma diplomacia de sucesso não se mede só pelos acordos alcançados num determinado posto ou pela eloquência dos telegramas, mas pela forma como se tratam as pessoas, como as inspiramos, como se exerce a função com ética". Estes atributos não se alcançam no Zoom: perdem-se nele.

A conveniência da vida online é uma fórmula enganadora para a política e para a diplomacia. Tem a vantagem de evitar ruturas processuais, dando um sentido de continuidade institucional absolutamente indispensável à normalidade democrática, mesmo que atropelada circunstancialmente por períodos de excecionalidade. Traz ainda benefícios ao acelerar conversações, desburocratizar procedimentos, poupando dinheiro e tempo. Mas ao esvaziar as democracias da dimensão humana indispensável entre eleitos e eleitores e expurgá-las da confiança inerente à prática diplomática, retira também instrumentos preciosos a qualquer ambiente negocial, cada vez mais a regra quotidiana em sistemas partidários fragmentados, como a utilidade de encontros bilaterais inusitados para desbloquear um dilema ou o recurso à exaustão física como estratégia para retirar dividendos impossíveis.

Política e diplomacia nunca precisaram tanto de se humanizar como nos tempos alucinantes que vivemos. As democracias, que não existem sem políticos sensatos e humanistas, também não sobrevivem se esvaziarem o sistema dos laços de confiança pessoal e institucional, dificilmente gerados por encontros diplomáticos digitais onde o detalhe mais importante fica à porta, a linguagem é obrigatoriamente decapitada e sem efeito emotivo, e o resultado, mesmo que tratado de forma rápida, invariavelmente redutor perante a expectativa.

A tecnologia é um recurso ao serviço das democracias, nunca a deturpação mortal da sua natureza.

Investigador universitário

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