O Relatório Draghi, divulgado em 2024, não foi apenas um documento político; para os investidores institucionais, foi o “cristalizador” de uma nova era. Ao focar-se na produtividade e na autono- mia estratégica, o documento mudou a narrativa: o grande risco da Europa é o subinvestimento histórico em capacidades críticas.Na passada semana, Christophe Hautin esteve em Lisboa para apresentar a estratégia do fundo Allianz European Autonomy a investidores e parceiros nacionais. O gestor, que coordena estratégia de investimento a partir de Paris, explicou as janelas de oportunidade que se abrem com o novo foco europeu na Defesa, na autonomia tecnológica e em tecnologias de ponta. O gestor concedeu uma entrevista ao DN/Dinheiro Vivo em que explica por que razão a soberania europeia é a próxima grande megatendência económica. E diz notar “um crescente interesse por temas relacionados com a soberania” por parte dos investidores portugueses.De que forma o Relatório Draghi alterou a perceção dos investidores institucionais sobre o risco/retorno das empresas europeias em comparação com as tecnológicas de Silicon Valley?O relatório ajudou a cristalizar a ideia de que o principal risco da Europa é o subinvestimento em capacidades estratégicas, uma lacuna que começa agora a ser abordada pelas políticas públicas. Ao reformular os desafios em torno da produtividade e escala, o relatório direcionou a narrativa para o “potencial de recuperação impulsionado pelas políticas”, especialmente na Defesa, transição energética, semicondutores e infraestruturas. Isto melhorou a perceção de empresas europeias, que combinam avaliações iniciais mais baixas face às gigantes de Silicon Valley com um crescente apoio político e maior visibilidade da procura.O fundo destaca o programa EU Readiness Roadmap 2030 (de 800 mil milhões de euros) como um estímulo económico disfarçado. Como é que este capital está a chegar efetivamente às empresas do seu portefólio, como a Indra ou a Safran?O Roteiro não é um plano de despesas centralizado, mas um quadro que desbloqueia os orçamentos nacionais e mecanismos de financiamento da UE. Estes tradu- zem-se em programas concretos a nível nacional. Para a indústria da Defesa, este capital chega através de orçamentos mais robustos e modernizações aceleradas em grandes projetos (como o FCAS [Future Combat Air System, ou Sistema de Combate Aéreo do Futuro, um dos projetos de Defesa mais ambiciosos e tecnologicamente avançados da Europa], defesa aérea ou cibersegurança), apoiados por instrumentos como empréstimos conjuntos e financiamento do Banco Europeu de Investimentos. O Roteiro funciona como um catalisador, garantindo visibilidade plurianual aos fornecedores de tecnologia em toda a cadeia de valor.. Afirma que a aposta na Defesa “não é apenas sobre tanques”. Como é que a AllianzGI distingue empresas de hardware militar tradicional de empresas de defesa tecnológica pura?O rearmamento visa restaurar a capacidade militar de amplo espectro numa era de guerra multidomínio. Tanques e veículos blindados continuam a ser necessários, mas a criação de valor é im- pulsionada pela integração de sistemas, redes, sensores, cibersegurança e drones. A nossa abordagem combina fabricantes tradicionais com especialistas em tecnologia de defesa e aeroespacial. Os conflitos recentes demonstraram que a vantagem estratégica provém cada vez mais dos sensores, da guerra eletrónica e dos sistemas de software intensivo que melhoram a eficácia das plataformas tradicionais.Quais são os subsetores dentro da cibersegurança europeia que considera serem os mais resilientes?O nosso foco está em segmentos integrados em ecossistemas soberanos, de Defesa e infraestruturas críticas, ao invés de segurança informática puramente comercial. Incluímos comunicações seguras, ciberdefesa governamental e proteção de tecnologias industriais. Estas atividades bene- ficiam de financiamento público a longo prazo e elevadas barreiras à entrada, o que as torna mais resilientes do que as ofertas de cibersegurança isoladas.Face à corrida pela computação quântica, a Europa tem capacidade para criar um ecossistema autónomo ou continuará dependente de arquiteturas externas?A Europa pode visar a autonomia funcional se mantiver o controlo sobre os equipamentos-chave, a integração dos sistemas e partes do acervo de software. Contudo, a autonomia completa “ponto-a-ponto” é mais desafiante, devido às limitações na escala do fabrico de semicondutores avançados e à dependência de componentes especializados globais. À medida que os sistemas quânticos escalam, as etapas avançadas do processo tornam-se críticas; áreas onde a Europa possui líderes globais (como a ASM International), o que ilustra o controlo europeu sobre alavancas estrategicamente importantes da cadeia de valor.Onde é que a computação quântica e a IA generativa se cruzam na vossa estratégia de seleção de pequenas e médias empresas (PME)?Investimos em várias camadas, incluindo equipamento de semicondutores, essenciais para escalar a IA hoje e viabilizar a integração quântica no futuro. A carteira inclui empresas de Defesa e aeroespaciais que já utilizam GenAI para análise de dados e apoio à decisão, oferecendo opções de longo prazo em tecnologias quânticas, como deteção e comunicações seguras. Por fim, a exposição às redes e fornecedores de infraestruturas sustenta a resiliência necessária, tanto para a IA, como para as futuras aplicações quânticas.Qual tem sido o papel das PME de pequena e média capitalização na performance superior (Active Return) de 9,57% registada pelo fundo desde 2024?As pequenas e médias empresas desempenharam um papel construtivo, com uma alocação média de cerca de 17% em 2025. A seleção de ações foi particularmente eficaz em áreas alinhadas com os temas centrais: Defesa, transição energética, automação industrial e serviços digitais. Muitas destas empresas operam em nichos especializados, em que o conhecimento tecnológico e a proximidade às prioridades estratégicas europeias proporcionam uma vantagem competitiva real.Como é que a vossa análise ajuda a filtrar empresas que possam ser alvos de aquisição (M&A) por parte de gigantes não-europeus?A nossa análise identifica onde reside o controlo estratégico. Empresas em posições críticas para a autonomia tecnológica europeia têm maior probabilidade de enfrentar restrições regulamentares ou políticas face a aquisições estrangeiras. Podem também optar por participar numa consolidação liderada pela própria Europa. Avaliamos o potencial risco de aquisição caso a caso.O investidor português é tipicamente conservador. Como é que trabalham a literacia financeira e a maturidade perante o risco neste mercado?Nas nossas recentes interações em Portugal, temos observado um crescente interesse por temas relacionados com a soberania, particularmente em torno da resiliência industrial, da segurança energética e das infraestruturas estra- tégicas. [Nos contactos com investidores] damos grande ênfase à construção de carteiras e à disciplina de risco. A estratégia é diversificada e gerida com um nível moderado de risco ativo (atualmente com um tracking error de 3,5%). Nas conversas com investidores portugueses, damos prioridade à transparência sobre as fontes de risco e a natureza de longo prazo do investimento. Apresentamos a estratégia como uma forma diversificada de obter exposição às tendências estruturais europeias, alinhando as expectativas com a alocação de capital a longo prazo.