Já faltam pedreiros e carpinteiros na construção em Portugal

Indústria perdeu 37 mil empresas e 260 mil trabalhadores numa década e agora, com a retoma, confronta-se com a falta de mão de obra. Já é difícil arranjar até operários não qualificados e há milhares de reformados a trabalhar clandestinamente na reabilitação urbana

Pedreiros, carpinteiros, trolhas, pintores, chefes de equipa, de tudo um pouco falta hoje na construção civil em Portugal. E até os trabalhadores não qualificados escasseiam. Uma década de crise na construção, agravada pela chegada da troika, levou ao desaparecimento de 37 mil empresas e de mais de 260 mil trabalhadores no setor. Grande parte dos quais emigraram e dificilmente regressarão. A solução, acreditam as empresas, está na criação de um regime excecional de mobilidade transnacional que permita às construtoras trazerem para Portugal operários seus de outros países, designadamente dos PALOP.

No final de 2015 começaram a chegar os primeiros sinais de inversão, consolidados entretanto. A retoma da construção está aí e a prová-lo está o crescimento homólogo de 2,3% do investimento em construção no primeiro trimestre do ano e de mais de 20% no licenciamento de habitação e o aumento de 1,9% no consumo de cimento entre janeiro e abril. Agora faltam trabalhadores para dar corpo a tudo isto. Quantos, ninguém sabe exatamente. O presidente do Sindicato da Construção fala em mais de 60 mil a curto prazo, a AICCOPN - Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas admite que possam ser 70 mil ou até mais. Só a Casais garante ter 100 vagas em aberto para operários, a que se juntam mais 40 para técnicos intermédios, e que não consegue preencher.

Só a Casais garante ter 100 vagas em aberto para operários, a que se juntam mais 40 para técnicos intermédios, e que não consegue preencher

Uma olhadela rápida às ofertas de emprego disponíveis no portal do Instituto do Emprego e Formação Profissional mostra que não faltam pedidos de operários qualificados com salários propostos de 800 euros, mais subsídio de alimentação e transporte a cargo do empregador. Os não qualificados têm ofertas que chegam aos 650 euros. As empresas garantem que não há quem contratar. Pior, os sindicatos asseguram que há "milhares de reformados a trabalharem clandestinamente" na reabilitação urbana. A associação patronal questiona onde estão os quase 25 mil desempregados da construção inscritos nos centros de emprego.

"Não percebo. Com a procura atual da construção, o nível de desempregados deveria ser tendencialmente nulo. Para que serve estarem inscritos no IEFP se depois, quando pedimos trabalhadores, não nos fornecem? Ou será que estão é a trabalhar clandestinamente?", argumenta Reis Campos, presidente da AICCOPN. A associação tem criticado duramente a desregulação do setor e considera que esta tem levado a um proliferar da clandestinidade, o que põe em causa da segurança pública. "Duas em cada cinco empresas não cumprem os requisitos de acesso à atividade", estima Reis Campos, que aplaude a decisão do IMPIC - Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção de "voltar este mês, pela primeira vez desde 2015, a verificar o cumprimento dos requisitos económicos, técnicos e financeiros para efeitos de revalidação de alvarás".

Albano Ribeiro, do Sindicato da Construção, acredita que 45% da reabilitação urbana em curso está a ser feita com "mão de obra precária ou clandestina", o que está a "desviar milhões de euros" da Segurança Social e do Fisco. Mas frisa bem que o problema não está nas empresas nem nos patrões, mas "nos angariadores de mão de obra" que promovem uma "concorrência desleal" a quem opera na construção e cumpre as regras e alerta para a necessidade do Estado tomar medidas urgentes, até porque, "Angola pode, a qualquer momento, voltar a levar dezenas de milhares de trabalhadores portugueses". Albano defende a criação de uma "comissão quadripartida", formada pelas autarquias, pela associação patronal, pelo sindicato e pela Autoridade para as Condições do Trabalho que "verifique, previamente, em que condições é que os trabalhos vão ser feitos".

Além do combate à concorrência desleal, António Carlos Rodrigues, CEO do grupo Casais, defende que é preciso tornar a construção mais atrativa para os jovens. "O problema da falta de trabalhadores não é um exclusivo nosso, mas nós somos o parente pobre, porque os jovens preferem trabalhar em indústrias menos sujas, já para não falar que a recuperação económica, designadamente com o crescimento do turismo, nos está a drenar, ainda mais, a mão-de-obra disponível", diz. Com operações em 16 países, da Argélia ao Brasil, passando pelo Qatar, Emirados, Angola, Moçambique, Estados Unidos e vários mercados europeus, a Casais acredita que deveria ser implementado um regime de imigração semelhante ao americano, dando abertura às empresas para trazerem trabalhadores seus noutros países para trabalhar em Portugal.

"É preciso dar um novo elã ao sector, mostrar que a construção é uma indústria de prestígio e de especialidades como qualquer outra"

Reis Campos, da AICCOPN, concorda e pede que se tire partido da "relação especial" com os países lusófonos, mas, também, que se use o centro de formação protocolar da construção para "valorizar estes trabalhadores, ajudando à sua inserção". "Assiste-se a uma interferência crescente do Ministério da Educação nos centros de formação protocolares que os desvirtua, permanentemente", diz o empresário que lamenta o fim, por exemplo, da atribuição das carteiras profissionais. "É preciso dar um novo elã ao sector, mostrar que a construção é uma indústria de prestígio e de especialidades como qualquer outra".

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Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

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Uma multidão de corruptos injusta e pessoalmente perseguidos

Nenhum agente público no Brasil, nem mesmo o presidente da República, pode ganhar acima de 33 mil reais por mês. Isso equivale a pouco mais de oito mil euros - o que, para as responsabilidades de certas funções, pode ser considerado um salário modesto. Mas você ficaria surpreso ao ver como, no Brasil, esse valor ganha uma extraordinária elasticidade e consegue adquirir coisas que, em outros países, custariam muito mais dinheiro. Com ele, nossos políticos compram, por exemplo, redes inteiras de estações de rádio e televisão, prédios de 20 ou mais andares em regiões de proteção ambiental e edificação proibida e extensões de terra maiores do que a área de certos países europeus. É um fenómeno. Mais surpreendente ainda foi o que descobrimos esta semana. O governador do estado do Rio - cuja capital é a infeliz cidade do Rio de Janeiro -, Luiz Fernando Pezão, fez apenas 11 saques em suas contas bancárias de 2007 a 2014. Alguns desses saques eram no valor de três euros, o que lhe permitiria comprar no máximo um saco de pipocas, e nenhum acima de oitocentos euros. Por mais que Pezão pareça um sujeito humilde e desapegado, como se pode viver com tão pouco? Talvez tivesse dinheiro em espécie acumulado em algum lugar - quem sabe um cofre em sua casa ou mesmo o seu próprio colchão -, do qual fosse retirando apenas o suficiente para seus alfinetes. Não por acaso, a Polícia Federal prendeu-o na semana passada, acusando-o de ter recebido o equivalente a dez milhões de euros de propina, naquele período em que ele era vice-governador do então titular Sérgio Cabral - que, por sua vez, está condenado por enquanto a 197 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Cabral é acusado também de ter cerca de 85 milhões de euros em depósitos fora do Brasil. Onde estarão os milhões de Pezão? E Michel Temer, dentro de 20 dias a contar de hoje, deixará de ser presidente do Brasil. No dia 1 de janeiro, uma terça-feira, passará a faixa presidencial a seu sucessor e perderá a imunidade que o impede de ser condenado por atividades ilícitas anteriores ao seu mandato. É quase certo que, já no dia seguinte, agentes da Polícia Federal baterão à sua porta em São Paulo, para levá-lo a explicar-se sobre as atividades ilícitas praticadas antes e durante o mandato. Explicações que ele terá dificuldade para dar, já que os investigadores parecem ter provas robustas de suas trampolinagens. E não se pense que tudo nessa turma se refere a milhões - uma inocente obra de reparos na casa de uma filha de Temer em São Paulo, "oferecida" por um empresário, indica um gesto de gratidão desse empresário por certa obra de vulto em que Temer, como presidente, o favoreceu. Nem toda a corrupção tem o dinheiro como fim. Ele pode ser também um meio - para se chegar ao mesmo fim. No caso do Brasil, foi o que prevaleceu nos últimos 15 anos: o desvio de dinheiro público para a manutenção do poder político, eternizando o desvio de dinheiro público. É uma equação diabólica, principalmente se maquiada de uma tintura ideológica - práticas de direita com um discurso de esquerda. E não se pense também que isso envolveu apenas os políticos. A Operação Lava-Jato, que está botando para fora os podres do país, condenou até agora 65 pessoas à prisão, das quais somente 13 políticos, num total de quase duzentas em fase de investigação ou já denunciadas. Entre estas, contam-se doleiros, operadores de câmbio, publicitários, lobistas, pecuaristas, irmãos, cunhados, ex-mulheres e "amigos" de políticos e carregadores de malas de dinheiro, além de funcionários, gerentes de serviço, executivos, tesoureiros, diretores, sócios-proprietários e presidentes de grandes empresas. Entre os presos ou investigados, estão também um ex-presidente da Câmara dos Deputados, um ex-presidente do Senado, vários ex-ministros de Estado (dos quais três ex-ministros da Fazenda), três ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores, meia dúzia de altos funcionários da Petrobras, o ex-presidente do banco de desenvolvimento nacional, seis ex-governadores estaduais, os presidentes das quatro maiores empresas de construção civil do Brasil e quatro ex-presidentes da República. Um deles, Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, quando lhe falarem que o querido Lula está sofrendo uma perseguição pessoal e injusta, pense nos citados acima, tão injusta e pessoalmente perseguidos quanto ele.

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Marisa Matias

O Christian, a Rosa e a rua

Quero falar-vos do Christian Georgescu, uma daquelas pessoas que a vida nos dá o privilégio de conhecer. Falo-vos com nome e apelido porque a história dele é pública. Nasceu em Bucareste, na Roménia, tem 40 anos e encontrou casa no Porto. Trabalhou desde cedo até que um dia lhe faltou comida na mesa. A crise no início dos anos 2000 e a necessidade de dar de comer à filha fizeram que decidisse entrar num mundo paralelo. A juntar a isso, começou a consumir drogas e foi preso. Quando saiu percebeu que tinha de ir para longe para mudar e veio para o Porto.