Salários, liderança, recrutamento. A igualdade nas empresas ainda tem muros por derrubar

Há diferenças nos salários, no acesso à liderança e até no recrutamento. No Dia Internacional da Mulher, vários estudos explicitam as desigualdades.

As contas variam de acordo com a organização mas a conclusão é a mesma em todo o mundo: as mulheres ganham menos do que os homens. Em Portugal a desigualdade salarial é punível por lei há menos de um mês, numa altura em que a disparidade salarial ultrapassa os 16%. Mas nem só pelos salários se medem as desigualdades. No Dia Internacional da Mulher, foram várias as entidades que estudaram as diversas faces das disparidades entre homens e mulheres no mundo do trabalho.

Homens reconhecem menos as desigualdades

A conclusão é da empresa de recrutamento Hays. Um inquérito feito em 100 países permitiu perceber que os homens "têm mais tendência do que as mulheres para acreditar que o seu empregador compromete-se a alcançar a igualdade de género dentro da empresa". Ou seja, as mulheres, mais do que os homens, acreditam que a empresa onde trabalham pode fazer mais pela igualdade de género.

E quando questionados sobre em que aspetos a sua empresa pode melhorar, 72% das mulheres responderam "igualdade salarial", contra 39% dos homens. A Hays conclui que "é positivo ver que as empresas estão a esforçar-se para alcançar a igualdade de género de forma a melhorar os locais de trabalho, no entanto, é preocupante ver que a desigualdade salarial ainda é uma preocupação que tem que ser abordada pelos empregadores".

Igualdade aumenta a inovação

O estudo conduzido pela consultora Accenture centrou-se em estabelecer uma relação entre a igualdade e a inovação nas empresas. O questionário feito a mais de 18 mil pessoas em 27 países concluiu que " a predisposição e a capacidade de inovar dos colaboradores é cinco vezes maior nas empresas com uma forte cultura de igualdade".

Segundo a Accenture, o Produto Interno Bruto mundial pode aumentar até oito mil milhões de dólares em dez anos se a inovação aumentar 10% em todos os países. Algo que acontecerá mais facilmente se a igualdade laboral entre géneros for acelerada, dizem os especialistas.

O estudo sublinha ainda que "a cultura de igualdade é um fator muito mais impactante para a promoção da inovação do que outros fatores diferenciadores das organizações, como a indústria, o país ou o contexto demográfico".

Mais diversidade, mais lucros

A consultora Oliver Wyman estudou o nível de igualdade de género nos departamentos de compra das empresas. Entre os mais de 300 inquiridos a nível global, 69% acreditam que os resultados financeiros das empresas melhoram com a diversidade de género.

Em quase metade das empresas europeias, mais de 40% dos cargos na área das compras são ocupados por mulheres, sublinha a consultora. Ao mesmo tempo, mais de 70% dos inquiridos acreditam que "a diversidade de género estimula a criatividade e a inovação e a eficiência".

Mas há conclusões menos animadoras: "quanto maior é a responsabilidade, menos mulheres encontramos em cargos de chefia".

37% das mulheres quer um negócio próprio

Uma percentagem considerável das empreendedoras portuguesas (85%) aponta que as ferramentas digitais são essenciais para assegurar a gestão do negócio no dia-a-dia, revela o estudo Own Business Study.

Apesar de considerarem as ferramentas digitais como um recurso importante para o negócio, só 38% das mulheres inquiridas tem uma página na Internet para divulgar o seu negócio. Menos de metade (47%) recorrem às redes sociais para publicitar os seus bens e serviços.

Em Portugal, há 37% de mulheres que gostariam de ter o seu próprio negócio. No entanto, apenas 2% das mulheres inquiridas concretizaram esta ideia.

O estudo feito pela METRO, grupo alemão onde se inclui a Makro Portugal, traça também o retrato demográfico das empreendedoras portuguesas: 65% tem menos de 45 anos.

Responsabilidade social e o "empoderamento feminino"

Não é um estudo, mas um compromisso. Para promover a igualdade de género, a Natixis assinou os Princípios do Empoderamento Feminino da ONU. A empresa garante estar comprometida em "estabelecer uma liderança corporativa sensível à igualdade de género" bem como a "tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho, respeitando os direitos humanos e a não-discriminação", entre outras medidas.

A Natixis é a divisão internacional do segundo maior grupo bancário em França, o Groupe Banque Populaire & Caisse d"Epargne (BPCE), e tem há dois anos um centro tecnológico no Porto. Em Portugal, lançou o programa Champion for Change, que pretende aproximar as mulheres da tecnologia. A empresa ocupa o 46º lugar no índice de diversidade de género em França, num ranking de 120 empresas.

Liderança feminina aumenta na bolsa

Também num estudo publicado ontem, a Informa D&B revelou que a presença feminina na gestão de empresas em Portugal aumentou "em todas as dimensões".

Em 2013 as mulheres ocupavam 11,3% dos cargos de liderança das grandes empresas, um número que aumentou para 15,6% em 2018. Porém, quanto maior é a empresa, menos são as mulheres que ocupam cargos de topo. Nas microempresas, 30,9% dos gestores são mulheres. Nas pequenas empresas a percentagem cai para 24,4% e nas médias baixa para 20%.

Ainda assim, nos Conselhos de Administração das empresas cotadas na bolsa, o número de mulheres quase duplicou em cinco anos. Passou de 8,1% para 15,2% em 2018.

Trabalho doméstico a triplicar para as mulheres

A Organização Internacional do Trabalho não estudou apenas o trabalho pago, tendo concluído um estudo que incide também sobre as desigualdades do trabalho doméstico. Aqui, "nos últimos 20 anos, o tempo que as mulheres despenderam com a prestação de cuidados não remunerados e com o trabalho doméstico quase que não diminuiu, enquanto que, no caso dos homens aumentou apenas oito minutos por dia".

A este ritmo "serão necessários mais de 200 anos para alcançar a igualdade no tempo gasto no trabalho não remunerado". As mulheres gastam, em média, quatro horas e 25 minutos por dia em trabalho não remunerado. Os homens passam uma hora e 23 minutos a fazer tarefas domésticas ou a prestar cuidados em casa.

Com Cátia Rocha

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