Alternativa à Euribor pode ajudar a banca, dizem analistas

Banco de Portugal quer fim das taxas negativas. Analistas avisam que fraca rentabilidade dos bancos tem impacto na economia

Os analistas veem com bons olhos a sugestão do governador do Banco de Portugal para a criação de uma taxa alternativa à Euribor numa altura em que as taxas de juro negativas penalizam as margens dos bancos.

Carlos Costa defendeu a introdução de um indexante alternativo à Euribor , "representativo da média dos depósitos no sistema financeiro português", que cada vez mais se financia nos depósitos e não no crédito. Para o governador do BdP, "a Euribor não é um bom indicador do custo do financiamento dos bancos portugueses", que "assenta predominantemente na captação de depósitos".

Uma medida que foi mesmo sugerida ao ministro das Finanças, em carta enviada a 5 de abril e que, a avançar, agrada aos analistas contactados pelo DN/Dinheiro Vivo. "Atualmente, a aplicação da Euribor nos contratos de crédito não reflete os custos totais de financiamento dos bancos portugueses", diz Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. "Desde o início da crise de dívida portuguesa que o risco do país foi fortemente agravado, penalizando as condições de financiamento das instituições portuguesas." Assim, "a capacidade de crédito dos bancos portugueses está agora mais condicionada aos recursos captados por cada uma das instituições. Se o custo de captação de recursos é superior à Euribor, então faz todo o sentido a atual discussão", conclui.

Também Steven Santos, do Banco BiG, refere que "uma alternativa à Euribor pode fazer sentido, na medida em que não reflete o custo médio dos depósitos, que são atualmente a principal fonte de financiamento dos bancos em Portugal". Contudo, avisa, "esse custo médio poderá ser distorcido pelos bancos que pagam remunerações mais baixas nos depósitos, prejudicando os restantes bancos". O analista do BiG, ainda assim, defende que se deve manter a Euribor como taxa de referência internacional, "salvaguardando a rentabilidade dos bancos, para não fragilizar o sistema bancário".

Já Albino Oliveira, da Patris Investimentos, diz que "uma das principais desvantagens da Euribor está relacionada com o facto de ter por base operações entre bancos" - a Euribor serve como referência relativamente ao que os bancos estão dispostos a pagar para pedir dinheiro a outros bancos. "Em período de instabilidade do setor financeiro, as taxas acabam por ser afetadas, como foi visível na última crise."

Carlos Costa defendeu ainda o fim da aplicação integral pelos bancos das taxas de juro negativas, uma medida que vai contra o diploma que está em discussão pelos deputados (ver fotolegenda), com o objetivo de fazer que os bancos sejam responsáveis pelas taxas de juro negativas, de tal forma que anule o spread, ou seja, que os bancos acabem a "pagar" o empréstimo do cliente.

Para aliviar a pressão na margem financeira dos bancos, Carlos Costa quer que as taxas de juro fiquem em zero sempre que, da soma de indexante à margem spread, resulte uma taxa de juro [final] negativa. Um estudo do Banco de Portugal estima mesmo que o impacto na margem financeira dos bancos destas taxas de juro negativas pode chegar aos 700 milhões de euros.

Os analistas defendem que, além da rentabilidade dos bancos, o próprio financiamento da economia pode ser afetado. Para Steven Santos o diploma, a ser implementado, "teria um impacto claramente negativo para os bancos, cujo modelo de negócio ainda está na margem obtida no crédito concedido". Embora beneficiasse as famílias e empresas no curto prazo, o impacto "seria adverso a médio e longo prazo, na medida em que os bancos iriam reduzir a concessão de crédito e, fruto da menor rentabilidade, teriam menos liquidez para alimentar a economia real".

Já Albino Oliveira diz que as taxas de juro negativas "continuam a ter impacto negativo na rentabilidade no setor". A melhoria da margem financeira dos bancos, diz, "tem beneficiado da queda no custo dos depósitos. A confirmação deste diploma poderia representar mais um fator de pressão sobre as receitas dos bancos, num contexto de baixas taxas de juro e fraco ritmo de concessão de crédito".

Para Pedro Ricardo Santos, "o grande impacto está relacionado com as questões de rentabilidade do setor". Se forem cobradas taxas de juro negativas "existe uma desigualdade que chega a colocar em causa a própria função de intermediação financeira". "Se as condições de exploração do sistema financeiro forem alvo de ataques no que respeita à sua rentabilidade é a economia que, em última instância, é afetada", diz.

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