Sá Pinto volta a Alvalade como adversário. Como irá reagir?

Agora treinador do Sp. Braga vai este domingo defrontar o Sporting, clube pelo qual atuou em mais de 200 jogos, foi capitão, diretor desportivo e treinador

Este domingo vai ser especial para Ricardo Sá Pinto. Ao leme de um Sp. Braga ambicioso e que quer destronar um dos chamados três grandes do pódio da I Liga, vai regressar a Alvalade, uma casa que já foi sua e onde é muito admirado pelos sportinguistas. Afinal, foram 227 jogos, 49 golos, um campeonato, duas Taças de Portugal, outras tantas Supertaças e o estatuto de capitão como jogador, um título de juniores e uma meia-final da Liga Europa como treinador e ainda uma curta como diretor desportivo pelo meio.

Mais mais do que os números ou o palmarés, Sá Pinto ganhou o estatuto de ídolo para os adeptos leoninos pela alma guerreira com que disputava cada lance. Até com as claques a relação era estreita. Na última época como futebolista, ao serviço do Standard Liège, o agora treinador dos bracarenses escolheu o número 76, em alusão ao ano de fundação da Juventude Leonina, claque que continuava a ostentar uma tarja referente ao antigo avançado, onde se podia ler "Grande Capitão". Outra alcunha, "Coração de leão", era como lhe chamavam muitos daqueles que este domingo à noite (21.00) o vão receber em Alvalade, desta vez como adversário.

Não será a primeira vez que Ricardo Sá Pinto vai defrontar o Sporting após ter deixado o clube, pois a 30 de novembro de 2015 orientou o Belenenses a uma derrota por 0-1, com um golo de William Carvalho na conversão de uma grande penalidade a castigar mão do antigo central leonino Tonel na área dos azuis do Restelo. Questionado diretamente sobre o lance do penálti na sala de imprensa, Sá Pinto foi taxativo: "Ainda não o vi." Porém, disse ser "muito injusto" que a sua equipa tivesse saído derrotada de Alvalade.

Neste tipo de casos, em que um treinador visita uma casa e defronta um clube que lhe dizem muito, como são geridas as emoções? Haverá alguma mudança de comportamento antes, durante e depois do jogo? "Embora para a opinião pública seja difícil de entender, aquilo que muitas das vezes acontece é que os atletas e os treinadores são profissionais. Obviamente que o Ricardo Sá Pinto é uma figura do Sporting, está na história do Sporting como jogador e treinador, mas agora está no comando de uma equipa que durante aqueles 90 minutos vai ser adversária do Sporting. O profissionalismo dele com certeza que vai dominar ele obviamente que vai querer ganhar o jogo, não deixando de ter o papel importante que tem na história do Sporting", acredita Jorge Silvério, especialista em psicologia desportiva.

No entanto, apesar do profissionalismo, tem vindo a ganhar força a tendência de um jogador não festejar ou até mesmo pedir desculpa quando marca a um clube que já foi o seu. Não terão também os treinadores mais cuidados nas palavras utilizadas e nos atos? "O que deveria ser o normal é o cuidado e o respeito para com o adversário de circunstância. Mas estamos a falar de humanos e o comportamento acaba sempre por ser condicionado. Ao voltar a um lugar onde se é ídolo e onde se tem uma história, é natural que haja ainda mais este cuidado com declarações e reações, como o caso dos jogadores que marcam golos e não festejam de forma efusiva ou nem sequer festejam. Tem havido esse cuidado, que faz parte do desporto, do fair play e das relações humanas (ou pelo menos deveria fazer...)", explica aquele que foi o primeiro mestre em Portugal em Psicologia do Desporto, sendo também doutorado nesta área.

"Suspeição pode condicionar"

Apesar desse cuidado com declarações e reações, Jorge Silvério acredita num Sá Pinto igual a si próprio no banco do Sp. Braga: "Há vários tipos de reações: há os que se deixam condicionar mais e têm mais esse cuidado e há os que continuam a reagir como é habitual. Provavelmente o que vai acontecer são as reações habituais que o Ricardo costuma ter, seja em Alvalade, no Dragão ou na Luz. Indiferente nunca se é, mas cria-se um mecanismo de defesa pelo facto de se estar no lado de lá e sermos adversários de uma equipa que já foi a nossa. Respeito existirá, mas sempre dentro dos limites do razoável. É isso que costuma acontecer, é o que costumo ver."

O especialista em psicologia desportiva sublinha a "grande experiência" do agora técnico bracarense, "que já desempenhou variadíssimos papéis, até no futebol internacional", e acredita que "o profissionalismo entra logo em ação e o fator racional predominará" assim que o jogo começar.

Se por um lado a ligação ao adversário pode induzir a cuidados especiais nas declarações e nas reações, por outro existe o clima de suspeição em que o futebol português está mergulhado e que também pode condicionar. "Admito que tenha havido algumas mudanças de comportamento e conseguimos ver isso, como o cuidado que os jogadores que são colegas de seleção têm quando falam uns com os outros enquanto adversários, para não se perceber o que estão a dizer. Noto alguma reserva e algum cuidado devido a esse clima de suspeição", reconhece Jorge Silvério.

Quando o 9 do Salgueiros gelou Alvalade

Se os sportinguistas vibraram com 49 golos de Ricardo Sá Pinto como futebolista do clube e com 15 vitórias dele ao leme da equipa principal, também já sofreram dissabores por parte do antigo avançado, natural da cidade do Porto. Antes de vestir de verde e branco, o agora treinador do Sp. Braga começou a dar nas vistas com o encarnado do Salgueiros, clube onde concluiu a formação e foi lançado no futebol sénior.

O segundo jogo dele na I Liga pelo emblema de Paranhos foi precisamente numa vitória por 2-0 sobre o Sporting de Bobby Robson no Estádio Vidal Pinheiro, tendo sido lançado pelo treinador Zoran Filipovic aos 81 minutos, quando tinha apenas 19 anos. No encontro da segunda volta, em Alvalade, Sá Pinto surgiu como titular, com a camisola 9 nas costas e gelou os adeptos leoninos com o golo solitário que deu a vitória aos portuenses ao cair do pano, na tarde de 31 de janeiro de 1993.

No começo da época seguinte, Sá Pinto voltou a marcar ao Sporting, mas desta vez numa derrota por 2-1 em Alvalade, já depois de Cadete e Capucho terem faturado para os leões. Um ano depois, o carrasco virou reforço dos verde e brancos. Na primeira passagem, entre 1994 e 1997, conquistou uma Taça de Portugal (1994-95) e uma Supertaça (1995), para a qual contribuiu com dois golos na finalíssima frente ao FC Porto, e ganhou o estatuto de internacional português AA.

Entretanto transferiu-se para a Real Sociedad, depois da agressão ao então selecionador Artur Jorge, voltando em 2000 para mais seis anos de leão ao peito, tendo sido campeão nacional em 2001-02 e vencido uma Supertaça (2000).

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