Uma taça para voltar a unir um país. África do Sul é campeã do mundo

A África do Sul sagrou-se, neste sábado, campeã mundial de râguebi pela terceira vez ao bater na final a Inglaterra, por claros 32-12. Com este triunfo os Springboks igualam os All Blacks com três títulos mundiais cada.

Parecia estar escrito nas estrelas. De 12 em 12 anos, a África do Sul tem como hábito sagrar-se campeão mundial de râguebi. E depois de 1995 e 2007, os Springboks conseguiram-no este sábado, em Yokohama, com novo desempenho pleno de poder físico e inteligência tática, sendo a primeira vez que tal acontece com uma equipa que perdeu um jogo na fase de grupos (logo na ronda inaugural diante da Nova Zelândia). E a imagem final do capitão Siya Kolisi, primeiro negro a receber a taça Webb Ellis no dia em que cumpriu a sua 50.ª internacionalização vai ficar, tal como aconteceu anteriormente com François Pienaar e John Smit, para sempre na história do desporto sul-africano.

Nas vésperas da final Rassie Erasmus, que irá abandonar o cargo de selecionador que ocupa desde 2108 para ser diretor de râguebi da federação sul-africana e já conquistara este ano o Rugby Championship, 10 anos depois do derradeiro triunfo na prova que junta as 4 potências do hemisfério sul, salientara que um triunfo seria muito importante face aos difíceis problemas existentes no país. Um novo título mundial poderia, segundo as suas palavras "durante um dia ou mesmo durante meses, fazer as pessoas esquecerem dificuldades e discórdias, tal como aconteceu nos triunfos nos Mundiais de 1995 e 2007". E salientava a importância do triunfo: "Precisamos desta vitória e isso dá-nos a máxima motivação. Queremos ganhar pelo nosso país."

Também os muitos que previam um fácil triunfo inglês esqueciam por certo o orgulhoso percurso sul-africano em Taças do Mundo. Nunca a África do Sul concedeu um ensaio que fosse numa final da prova (também não marcara qualquer um nas anteriores vitórias por 15-12 e 15-6) e só perdera uma vez diante de uma seleção europeia, precisamente contra a Inglaterra em 2003, no Mundial da Austrália, único conquistado por uma seleção europeia.

E assim, desde o apito inicial de Jérome Garcès, essa premente busca do êxito sentiu-se nos jogadores sul-africanos, sempre muito focados no jogo, em especial os seus avançados, decididos a não deixar sobreviventes na batalha disputada no relvado, brutais no embate físico e sem nunca recuarem nas impressionantes colisões - e com os reforços vindos do banco igualmente concentrados ao máximo e até a acelerarem o ritmo.

Com uma entrada fortíssima em jogo, desbobinando os lances envolvendo grande continuidade, muito apoio e com os jogadores a atacarem os intervalos da defesa adversária, os Springboks impediam a rápida saída das bolas adversárias e anulavam os temíveis transportadores de jogo contrários. Bem à imagem da forma determinada como a Inglaterra atuou nas meias-finais. Ou seja, fazendo os ingleses provar do mesmo veneno com que tinham abatido os All Blacks há uma semana.

Sete dias depois daquela memorável exibição, de grande eficácia, solidez, frieza e qualidade-extra, desta vez os ingleses entraram muito nervosos, a cometer erros sobre erros - a pressão afetou-os claramente muito mais que os rivais - e com a saída por lesão, logo aos 3", do influente pilar direito Kyle Sinckler, a sua mêlée desmoronou-se por completo - o que seria comprovado nas 4 faltas cometidas (!) que permitiram ao certeiro Handré Pollard - autor de 22 pontos na partida em pontapés - converter as respetivas penalidades para 12 pontos saídos do seu flagrante e algo inesperado domínio nas formações ordenadas.

Tom Curry, Sam Underhill, Billy Vunipola e Maro Itoje, todos fantásticos diante da Nova Zelândia, não se viam em campo face à perfeita ação defensiva sul-africana, onde o formação Faf de Klerk voltou a exibir-se em grande estilo, mas abrindo desta feita muito mais vezes a bola para chegar aos perigosos pontas Mapimpi e Kolbe - algo que pouco se vira nos anteriores encontros e surpreendeu a manobra defensiva inglesa.

Apesar dos 58 por cento de domínio territorial inglês na 1.ª parte - muito fruto do intenso período em que a equipa da rosa acampou praticamente em cima da linha de ensaio adversária numa longa sequência de 25 fases montadas à mão em sucessivas ondas de ataque, superiormente defendidas pelo inexpugnável muro sul-africano - o intervalo chegaria com a África do Sul na frente (12-6). E apenas os pontapés de Pollard e Owen Farrell coloriam o marcador: 3-0, 3-3, 6-3, 6-6, 9-6 e 12-6.

Dois ensaios sul-africanos dão justiça ao marcador

O jogo recomeçou com nova falta da mêlée inglesa (a quarta!), para 12-6 e pouco depois Eddie Jones retirava do jogo o abertura George Ford - substituição sintomática e um grande cumprimento ao adversário, pois ele foi o maestro que conduziu a vitória na meia-final diante dos neozelandeses, e hoje esteve perdido em combate.

Aos 51" surgiria a primeira falta da mêlée sul-africana que Farrell converteu para 15-9. E depois de troca de pontapés, a distância mantinha-se em seis pontos, com 18-12 para os homens de Erasmus. Mas a batalha do "breakdown" continuava a ser ganha pelos Springboks (notáveis o "man of the match" Vermeulen, Du Toit, Kolisi e Etzebeth) - que até fizeram mais placagens: 154 contra 98 dos ingleses - e com esta plataforma de conquista a África do Sul adquiria a estabilidade para matar em definitivo o jogo.

E sem surpresa aos 66" surgiria o primeiro ensaio sul-africano numa final de Mundiais, com Makazole Mapimpi (é, a par do galês Josh Adams, o melhor marcador de ensaios internacionais de 2019, com 10) que, pelo lado fechado, chutou curtinho por cima da defesa contrária, com Lukhanyo Am a captar a oval e devolve-la de pronto ao seu ponta esquerdo para o seu sexto ensaio na prova e o 14.º em 14 "test-matches"!

Mas com 25-12 a África do Sul não desacelerava e continuava por cima dos já derrotados ingleses. E aos 74" seria o outro ponta, o ultrarrápido Cheslin Kolbe a pregar o derradeiro prego no caixão inglês, ao receber apenas a terceira bola no jogo para, com duas fabulosas trocas de pés e aceleração estonteante, fazer o segundo ensaio que, convertido por Pollard, selava os definitivos 32-12.

E ainda houve tempo para a entrada de François Steyn, 32 anos, que em 2007 foi titular como 1.º centro na triunfante final de Paris e se tornou o 21.º jogador a sagrar-se bicampeão mundial e segundo sul-africano após o antigo pilar Os du Randt.

Foi o final perfeito de uma competição que nunca desapontou, mesmo tendo sido algo prejudicada pelo tufão Hagibis na fase de grupos que obrigou ao cancelamento de três partidas, e justificando a decisão de atribuir ao Japão a nona edição do Mundial, primeira no continente asiático. Fazendo jus ao seu historial e tradição, os japoneses foram anfitriões excecionais, dentro e fora dos relvados. E mesmo aqueles que não apoiaram os Springboks reconhecerão que foi um Mundial para entrar na História.

"Temos muitos problemas no nosso país. Mas uma equipa como esta, constituída por origens diversas, raças diversas, uniu-se em torno de um objetivo que queria alcançar. Fizemos isto pela África do Sul, para mostrar que se nos unirmos conseguimos realizar os nossos objetivos", disse o capitão Siya Kolisi no final da partida.

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