"Não se metam em buracos". Vítor Pereira recorda despromoção na Alemanha

Domingos Paciência, Vítor Pereira, Joel Rocha e Carlos Carvalhal abriram esta terça-feira o Fórum Nacional de Treinadores, em Portimão, com um painel denominado "Novos desafios no Treino de Alto-Rendimento".

O antigo treinador do FC Porto, hoje ao leme dos chineses do Shangai SIPG, Vítor Pereira, reconheceu esta terça-feira que tem vindo a forma de treinar ao longo dos anos, tendo considerado "fundamental" a descida de divisão em 2017 ao serviço dos alemães do Munique 1860.

"O desafio é formar jogadores inteligentes. Há uns anos, andava à procura de exercícios complexos, julgava eu que eram mais ricos. Hoje, os meus exercícios são do mais simples que há e procuram dar liberdade decisional ao jogador. Acredito num jogo de domínio e de posse de bola, mas em que os jogadores entendam o que fazer, quando devem acelerar ou desacelerar, ir pela esquerda ou pela direita. Tive experiências em que o exercício acaba e os jogadores não tinham entendido nada do exercício. Para isto, foi fundamental ter descido uma equipa de divisão na Alemanha [Munique 1860] e não ter conquistado os títulos que conquistei. Se eu propuser algo para o qual os jogadores não têm capacidade de resposta, é um grande erro", começou por dizer, no painel "Novos desafios no Treino de Alto-Rendimento" no Fórum Nacional de Treinadores, que está a decorrer em Portimão.

"Antes de chegar à Alemanha estava sempre habituado a lutar por títulos, com jogadores com nível elevado, e fui educando o meu jogo para dar criatividade. Cheguei à Alemanha... e deixo um conselho: não se metam em buracos, não se metam à espera de milagres. Estava habituado a médios que jogavam em um ou dois toques, e ali tinha uns que precisavam de quatro ou cinco médios para dominar uma bola. Tenho que dar liberdade para cada jogador expressar o que tem de melhor", acrescentou, dando o exemplo de dois jogadores que orientou no FC Porto, James Rodríguez e Hulk.

O futebol como "forma de criar"

"Algum dia o James Rodríguez é um extremo puro? Não é, mas estrategicamente pode começar na direita e depois aparecer em zonas interiores, onde ele ao receber a bola, faz um passe que isola um companheiro. Então tenho que lhe criar condições. Não posso fazer só treinos a um ou dois toques, tenho que deixar jogadores como o Hulk, com toda aquela potência, se possam expressar. Tenho que tentar perceber como eles se sentem confortáveis. Foi o meu grande erro na Alemanha", prosseguiu, assumindo que cada vez sabe... "menos". "Cada vez tenho mais dúvidas. Mas de uma coisa tenho a certeza: o lápis ou a caneta e o bloco ou o guardanapo acompanha-me para todo o lado. O futebol para mim é uma forma de criar, de expressar a minha personalidade e as minhas ideias. Em toda a minha vida criei os meus exercícios, nunca fui buscar a livros", vincou.

O treinador do Shangai SIPG mereceu rasgados elogios por parte de Carlos Carvalhal, que salientou o feito de Vítor Pereira ter quebrado a hegemonia de sete anos do Guangzhou Evergrande: "O que Vítor Pereira fez na China não teve repercussão suficiente. Quebrou uma hegemonia de há muitos anos por parte de outro clube. É a tal questão do cair em graça ou ser engraçado."

Treinadores "ameaçados em várias frentes"

Carlos Carvalhal revelou que há muitas ameaças para o trabalho dos treinadores, que partem dos jogadores e das suas entourages. "Já estou numa fase do 'quero que se lixe'. Nós treinadores estamos a ser ameaçados em várias frentes, a começar pelas expectativas em redor da equipa. Agora há as redes sociais, que conseguem mobilizar uma opinião, e às vezes um miúdo de seis anos ou um indivíduo que está num insanatório consegue passar uma opinião para a imprensa nacional. E depois há os números, as estatísticas, e não se pode correr o risco de confundir as coisas, porque o que é fundamental é o jogo. Agora há os personal trainers, que estão na moda além das tatuagens e das fotos fashion. Isto é tremendo para nós, porque não estão preocupados com o que fizemos no treino nem com a sequência de jogos nem contactam com a equipa técnica. No Swansea, tive um jogador que três dias antes de um jogo esteve a treinar com o PT, lancei-o a dez minutos do fim e passado uns quatro ou cinco minutos ele rompeu os ligamentos. E depois soube que haviam mais com PT, o que explicou muita coisa", contou o técnico português, que não trabalha desde que desceu de divisão em Inglaterra na época passada ao serviço do Swansea.

O antigo técnico de Vitória de Setúbal, Besiktas e Sheffield Wednesday, entre outros, apelou ao equilíbrio entre estilos de jogos e métodos de treino. "Hoje fala-se muito em jogar desde trás ou de bater longo na frente como se de extremos se tratassem, mas pode haver um equilíbrio", começou por dizer, pedindo para que não se castre a criatividade dos jogadores mas também para não se deixar de insistir na organização coletiva: "O enquadramento de um ou dois toques afastou muitos jogadores com outras qualidades. Mas não vamos cair no exagero agora de achar que as individualidades são tudo."

Domingos lembrou Artur Jorge

O antigo avançado do FC Porto e ex-treinador de Sp. Braga e Sporting, Domingos Paciência, pediu para que os colegas de profissão darem mais liberdade aos jogadores, nomeadamente os mais criativos, utilizando um exemplo de quando ainda jogava. "Falta um contra um, falta arriscar. Artur Jorge dizia mesmo: 'pega na bola e vai para cima deles, ganha faltas, tens liberdade total. E tínhamos bons executantes de bolas paradas como Branco ou Geraldão. No ano seguinte, os treinos eram a um ou dois toques e eu estava infeliz, porque não treinava aquilo em que eu era bom. Temos de formar jogadores que fazem a diferença, dar espaço para desenvolver a criatividade", sublinhou, corroborado pelo treinador de futsal do Benfica, Joel Rocha.

"Temos de procurar autonomizar e não automatizar. Ao fim de semana procuramos os desequilibradores mas não treinamos isso durante a semana. Na minha primeira época no Benfica fui treinador a 101 por cento, hoje sou mais um orientador de características individuais. Cada vez mais os meus treinos são em função das características dos jogadores", admitiu o técnico encarnado, num painel moderado por Miguel Leal, treinador do Cova da Piedade.

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