Motociclismo

Miguel Oliveira. Da moto-4 aos três anos à entrada no MotoGP aos 23

O pai ofereceu-lhe a primeira moto num Natal e a paixão foi imediata. Vinte anos depois conseguiu entrar para a elite mundial. Estreia na modalidade rainha do motociclismo é já este domingo no Qatar.

O pai sempre foi ligado às motos e passou-lhe a paixão pelas duas rodas. Paulo Oliveira, ex-piloto, ofereceu ao filho uma moto-4 elétrica Susuki 50cc no Natal quando ele tinha três anos. Foi a forma que encontrou para sossegar o Miguel, "um miúdo traquina, que tinha energia para dar e vender e não parava quieto". A partir daí, Miguel Oliveira só queria aquele brinquedo, mas o pai teve de lhe tirar depois de uma queda feia. Aos oito anos deu-lhe outra, mais potente. E assim Miguel cresceu. Rodeado de motos. Sonhava ser piloto e rapidamente concretizou esse objetivo. Tanto que aos 23 anos acabou por fazer história e conseguiu entrar no MotoGP, a prova rainha do motociclismo mundial. A estreia será este domingo, no Qatar, a primeira de 19 provas da época.

"Ser o primeiro português a chegar ao MotoGP é muito importante, porque não fui mais um. Fui o primeiro! Quando se escrever a história do motociclismo português eu serei recordado com carinho por isso, porque tracei um caminho que ainda não tinha sido percorrido por outro português. Sei que isso não me vale de muito, mas dá um sabor especial à minha entrada no MotoGP e torna especial as minhas conquistas", confessou Miguel ao DN.

A ambição do piloto natural de Almada é desmedida e vai até ao título mundial, mas não nesta época de estreia. Miguel Oliveira garante que tem os "pés bem assentes na terra" e sabe que está dependente dos objetivos da equipa, a KTM Tech 3. "Primeiro eu e a equipa temos de perceber qual é o objetivo concretizável. Precisamos de rodar mais vezes, perceber as limitações da moto, saber o que eu preciso de mudar na minha condução, e isto só se vê com quilómetros em pista. Por isso vamos ter de esperar um pouco mais para dizer se poderei lutar já pelos pontos ou se posso lutar já pelo top 10. Neste momento não sabemos", confessou, determinado em fazer o melhor que conseguir para chegar "à frente" do seu ídolo, o italiano Valentino Rossi.

Esse será o seu objetivo pessoal numa luta em que vai encarar todos como rivais. E a concorrênciasé forte! Marc Marquez, Jorge Lorenzo, Dani Pedrosa ou Andrea Dovizioso são apenas alguns dos pilotos com quem vai dividir as pistas a partir de agora.

Moto comprada a meias

Miguel começou do nada e com uma mota comprada a meias pelo pai e um amigo. A partir daí foi crescendo. Muitos peditórios, alguns padrinhos e oportunidades que soube aproveitar. O primeiro contacto a sério com uma moto foi uma de 50 centímetros cúbicos e daí à competição foi um instante. O talento não enganava e aos nove anos o pai levou-o para Espanha, onde a modalidade estava mais evoluída. Lá encontrou os desafios e apoios necessários para ser piloto profissional.

Estreou-se no campeonato espanhol de velocidade em 2009 e um ano depois lutou pelo título, terminando como vice-campeão, a dois pontos de Maverick Viñales. Acabou promovido à categoria 125cc, atual Moto3. Mas as coisas não correram bem. A falta de apoios da equipa fez com nem completasse toda a época. Isso colocou a carreira do piloto de Almada em causa, mas aguentou-se, e em 2015 ouviu-se pela primeira vez "A Portuguesa" num mundial de motociclismo.

Nesse ano, Miguel ainda ouviu o hino mais seis vezes, antes de carimbar a subida ao Moto2, a antecâmara do MotoGP, onde voltou a fazer tocar o hino mais meia dúzia de vezes, ganhando o desejado bilhete para a maior competição do automobilismo mundial.

E será que podemos aspirar a ouvir o hino em 2019? Isso ele não arrisca, mas há uma coisa que tem a certeza: "O hino é aquilo que verdadeiramente dá sentido à corrida. Ter várias nacionalidades a lutar por uma vitória e só um faz tocar o hino. Faz-nos sentir que estamos ali a representar alguma coisa e eu estou ali a representar o meu país. Para mim, tem um sentido especial porque a letra do nosso hino é forte, também representa um momento de luta e conquista e é isso que eu sinto quando estou lá em cima no pódio."

Uma equipa e um clube de fãs

Num país sem grande tradição na velocidade e em que o todo-o-terreno ganha à velocidade, Miguel Oliveira é rei e senhor da modalidade e sem adversário à altura. O piloto ajudou a que se falasse de motos e colocou o Portugal de olhos no ecrã para ver as corridas. Este ano será ainda maior o interesse.

Mas para chegar à elite mundial foi preciso investir tempo e muitos milhares de euros num projeto pensado para ele e com um objetivo: chegar ao MotoGP. Talento tinha de sobra e os fãs foram-se organizando para o ver correr e apoiar. Hoje tem um clube de fãs com mais de 500 pessoas que funciona como estrutura organizada de apoio. Em algumas corridas chegam a ser 300 nas bancadas.

Uma das missões do clube de fãs é organizar eventos relacionados com a atividade do piloto. Além disso ajudam a angariar fundos que permitam aos jovens dos 10 aos 14 anos evoluir numa carreira desportiva promissora no motociclismo através da Oliveira CUP, uma escola de motociclismo que conta com sete provas na época. A ideia é encontrar o "sucessor" e logo na primeira edição inscreveram-se 12 pilotos.

A contribuição do piloto não se esgota assim nas exibições nas pistas. Miguel doa as receitas de merchandising para o projeto e ajuda na recolha de patrocínios e apoios.

Algo que orgulha - e muito Rui Birralho - o fã número 1. "É fantástico andar atrás de uma pessoa que é nossa, é português. Eu ia ver as corridas e ouvia muita gente a perguntar quem era o 44 (agora é o 88). Quase ninguém sabia que era o Miguel e era português, resolvi mudar isso ", confessou ao DN o emigrante português na Suíça , natural de Vila Verde, que o segue de caravana para todo o lado.

Aliás, a caravana serve para ele dormir e funciona como tenda de venda dos produtos relacionados com o clube de fãs: "Eu trabalho na Suíça, mas quando há eventos vou a Vila Verde buscar a caravana e ponho-me a caminho. Por vezes demoro cinco dias a chegar. É cansativo, não durmo muito ..."

De tanto o acompanhar no Moto2, Rui Birralho resolveu um dia pedir autorização a Miguel para utilizar a imagem dele e a partir daí passou a dar uma voz mais profissional à falange de apoio do piloto português. É ele que espalha as bandeiras portuguesas pelo percurso, por exemplo.

Move-o "a paixão" pelo motociclismo e a adoração por Miguel Oliveira. "Quando o comecei a apoiar via talento, mas nunca na minha vida eu imaginava que ia chegar ao MotoGP. O meu objetivo está cumprido, mas ele já me desafiou a seguir com este apoio, diz que faço falta e isso deixa-me muito feliz", contou o fã, "ansioso" para o ver em ação na prova rainha do motociclismo.

Elogios da elite do MotoGP

Miguel Oliveira vai estrear-se no MotoGP este fim de semana, mas não é um desconhecido para a elite da modalidade. Pilotos como Valentino Rossi, marc Márquez e Jorge Lorenzo acompanharam a evolução do português. E todos lhe veem grandes capacidades. "Todos seguimos o Miguel há muito tempo, e este ano [2018] em particular. É muito forte, é rápido e pode ser um grande piloto de MotoGP, porque pode ganhar e ao mesmo tempo nunca comete erros. Este ano [2018] não cometeu qualquer erro e não teve nenhuma corrida a zero. Vai ser interessante tê-lo a ele e ao Bagnaia no MotoGP, vão ter boas motos e podem ser fortes", disse Rossi em Valência, no ano passado, depois de o campeonato ter terminado.

Poder correr com Rossi é uma felicidade para Miguel Oliveira, como o próprio reconheceu no livro que publicou recentemente sobre a sua vida: "Imaginava muitas vezes que ia correr com ele. Mais recentemente, quando se especulava sobre o fim da sua carreira, ficava sempre um bocado triste. Até porque ainda é incerto saber o que irá acontecer ao campeonato se ele sair. É estranho, mas eu queria apanhar ainda a era do Rossi. E vou ter essa sorte. Mas já não tenho ídolos. O meu ídolo sou eu daqui daqui a cinco anos. Esta passagem para o MotoGP nesse aspeto é ténue, porque já lido com alguns no paddock depois de todos estes anos que levo de Mundial. Claro que tenho alguma admiração por uns, por outros nem tanto, mas é normal. Na pista somos todos rivais e queremos todos o mesmo."

O espanhol Marc Márquez, tricampeão mundial de MotoGP, também está habituado a ouvir o nome de Miguel, até porque o seu irmão foi durante anos rival do piloto português nas categorias mais baixas do motociclismo: "Acredito que vai chegar bem a esta categoria. Conheço o Miguel há muitos anos, porque ele cresceu no campeonato espanhol e sigo-o desde esses tempos. A sua evolução foi muito boa. Foi sempre um piloto muito trabalhador, e quando se trabalha bem para os objetivos, isso é meio caminho andado para ter sucesso."

Entrevista a Jorge Viegas, o português que preside à Federação Internacional de Motociclismo

"O Miguel vai fazer com que apareçam mais jovens valores"

Este ano Portugal vai estar representado no MotoGP pelo Miguel Oliveira...

É a primeira vez que há um português na classe maior do motociclismo, que é o MotoGP. Estou convencido que o Miguel vai ter um ou dois anos de aprendizagem, mas já com alguns dados positivos porque é um dos melhores pilotos do mundo e vai com certeza melhorar a sua moto e começar a obter bons resultados.

O que representa para a modalidade em Portugal ter um piloto no MotoGP e um português na liderança do motociclismo...

Eu diria que representa tudo. Tudo aquilo com que nós nunca sonhámos. Tanto num caso como no outro eu acho que é extraordinário Portugal conseguir aceder a cargos tão altos. Não só o motociclismo como o desporto nacional está de parabéns.

Isso pode dar um empurrão à modalidade? Portugal tem tradição de todo o terreno e até motocross, mas não de velocidade...

A modalidade que em Portugal tem mais tradição são os ralis de todos o terreno, é a único em que tivemos campeões do Mundo - o Hélder Rodrigues e o Paulo Gonçalves. Agora vai começar a época do Dakar e Portugal vai estar à partida com oito pilotos. O motocross é o mais praticado a nível mundial e nós já tivemos um vice campeão do Mundo (Rui Gonçalves). A velocidade é a modalidade mais difícil, rainha do motociclismo, a que é mais cara... Tenho a certeza que o Miguel vai fazer com que apareçam mais jovens valores e mais miúdos a querer imitá-lo, aliás, já estamos a sentir isso nas classes de iniciação.

Ter um piloto no MotoGP e um português na liderança do motociclismo deixa Portugal mais perto de voltar a receber um Grande Prémio do MotoGP?

Sim. Se dependesse só de mim já tínhamos cá o Grande Prémio... Depende do organizador, do Governo providenciar as verbas indispensáveis para Portugal poder recuperar esse contrato e de haver vaga no calendário porque só vai haver para 2022, isto se não houver nenhuma desistência. Há mais de 20 pedidos de circuitos para ter Grande Prémio. O que eu posso fazer enquanto presidente da Federação Internacional de Motociclismo é ver se Portugal passa para a frente da fila, essa é a minha missão. Ninguém mais do que eu quer que o MotoGP volte a Portugal. Fui eu que assinei o primeiro contrato em 2000 e tivemos o Grande Prémio entre 2000 e 2012, depois perdemo-lo, enfim, por questões que não vale a pena agora abordar, mas foi muito mal perdido e agora temos de o recuperar.

E quanto é preciso investir para que isso aconteça?

Isso não lhe posso dizer. São muitos milhões de euros, mas é uma verba muito pequena considerando que pode ser multiplicada por dez vezes. Estamos a falar de algo semelhante a uma Web Sumit, tanto do ponto de vista do investimento como do retorno. É um excelente negócio para o Governo e para nós.

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