Como um leão corajoso prolongou a maldição portista

Sporting voltou a ganhar a Taça da Liga no desempate por penáltis, tal como na época passada, conseguindo dar a volta por cima ao golo de Fernando Andrade que deu vantagem ao FC Porto a 11 minutos do final.
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A três minutos do final, o longo jejum do FC Porto nesta Taça da Liga parecia destinado a acabar. A vencer desde que Fernando Andrade aproveitara uma defesa incompleta de Renan, aos 79 minutos, os dragões viam mais perto do que nunca o troféu que lhes escapa desde a sua criação. Pura ilusão. Um penálti descoberto pelo duplo videoárbitro, uma novidade desta final, permitiu a um corajoso Sporting levar a decisão para o desempate por grandes penalidades. E, aí, repetir a conquista da época passada. Para o FC Porto, esta "maldição" continua sem ter fim.

A taça, que o Sporting voltou a ganhar nos penáltis (aliás, é a sexta decisão por penalidades consecutiva ganha pelos leões), assenta bem à equipa de Marcel Keizer. Não porque tenha sido melhor do que o FC Porto no balanço global da partida - não foi. Mas premeia a atitude com que o leão encarou esta final, disposto a abrir o peito frente ao campeão nacional e de o incomodar a toda a dimensão do terreno.

Uma declaração de intenções que ficou expressa desde o apito inicial, num jogo que arrancou com grande intensidade nos duelos e muita pressão alta sobre o início de construção de um lado e de outro. Se no FC Porto de Sérgio Conceição este é o modelo já por demais conhecido, surpreendeu mais a versão leonina, bem diferente do que tinha sido, por exemplo, a postura da equipa de Marcel Keizer no clássico anterior com os dragões, em Alvalade, para o campeonato.

O Sporting surgiu desta vez bem mais agressivo, com posicionamento mais subido, a provocar algumas perdas de bola do FC Porto em zona recuadas - algumas vezes na área até, como quando Pepe se deixou antecipar e Nani rematou por cima, aos 16 minutos.

A pressão sobre a saída de jogo dos portistas deixava fora do jogo os criadores Óliver e Herrera e criava ao campeão nacional dificuldades para construir, obrigando-o a errar muitos passes longos desde trás, com Felipe e Pepe particularmente infelizes nesse aspeto.

Sérgio Conceição repetiu a fórmula aplicada frente ao Benfica, com Marega e André Pereira na frente, mas nenhum dos dois dava aos centrais uma referência eficaz onde colocar a bola - Soares, desta vez, nem no banco esteve, por indisposição de última hora -, à exceção de um lance, em que Pepe finalmente encontrou forma de isolar o maliano, mas o avançado controlou mal a bola e deixou fugir a oportunidade, já perto da meia hora.

Em versão lutadora, de mangas arregaçadas, o leão controlava bem o futebol vertical do dragão, mas faltava-lhe sequência com a bola. As melhores oportunidades que conseguiu foram as que surgiram dos erros forçados do FC Porto. E foi até a equipa portista que acabou por ter a grande ocasião de golo dos primeiros 45 minutos, quando Corona fugiu nas costas de Acuña e cruzou para André Pereira cabecear por cima.

No últimos cinco minutos, entrou-se pela primeira vez em zona VAR, com casos e protestos do Sporting, que ficou a reclamar penálti num lance em que a bola e a mão de Herrera se encontraram na área e pediu expulsão num corte em falta de Felipe a um contragolpe leonino. Em vão - a mão de Herrera foi avaliada como fortuita e Felipe viu amarelo.

Leão reage bem ao golo e foi mais feliz nos penáltis

Na segunda parte houve muito mais FC Porto, numa exibição em crescendo da equipa de Sérgio Conceição até ao golo de Fernando Andrade. O Sporting não conseguiu manter a pressão tão intensa nem subida e os dragões foram ganhando metros no terreno. Embora nem por isso se tenham mostrado mais criativos.

Por cima no jogo, os portistas tinham ainda dificuldades para entrar nas linhas defensivas do leão, que ia controlando as movimentações de Marega e Fernando Andrade - que substituiu o esforçado André Pereira, titular para cumprir a quota regulamentar de jogadores da formação. Em particular Coates, que fez um grande jogo no comando da defesa leonina, primeiro com André Pinto ao lado e depois com Petrovic, que teve de render o português, lesionado, no início da segunda parte.

Herrera, Ólver e Brahimi entraram mais em jogo, passaram a ter a bola mais tempo nos pés e a ação passou a desenrolar-se mais junto da área leonina, com a equipa de Keizer a tentar resistir ao cerco. Aos 61 minutos, Renan respondeu com uma boa defesa, apertada, a um cabeceamento forte de Felipe, na sequência de um canto. Mas o guarda-redes leonino estaria bem pior mais tarde, no lance que valeu o golo portista: primeiro, ao não conseguir melhor do que afastar pela linha lateral uma bola atrasada por um colega; e, depois, ao defender para a frente um remate de Herrera.

Com o FC Porto em vantagem a cerca dez minutos do final e a perspetiva de se quebrar por fim a maldição portista na prova, veio de novo ao de cima a versão corajosa do leão. A equipa de Keizer reagiu bem ao golo, quase empatou de imediato num lance em que Bas Dost cabeceou ao lado um cruzamento de Nani, fez entrar Diaby para ajudar o holandês na área e viu o mesmo Diaby ser carregado na área num lance que não passou despercebido ao duplo VAR desta final.

Bas Dost não perdeu a oportunidade e o leão levou o jogo para onde tem sido mais feliz: os penáltis, onde venceu por 3-1 - Éder Militão atirou ao lado, Hernâni permitiu a defesa de Renan e Felipe atirou o último castigo máximo aos ferros.

A figura: Coates

Um jogo enorme do gigante central uruguaio, que liderou a defesa leonina no trabalho de anular as movimentações habitualmente perigosas do ataque portista. A profundidade habitual do FC Porto foi abafada na maior parte do tempo pelo bom trabalho defensivo leonino, com Coates a ganhar quase todas as jogadas em antecipação. Além disso, esteve impecável no jogo aéreo frente às torres portistas nas bolas paradas. Ironicamente, foi o único jogador do Sporting a falhar um penálti. Mas isso não o impediu de levantar o troféu. Ninguém o mereceu mais do que ele.

FICHA DE JOGO

Jogo no Estádio Municipal de Braga.

FC Porto-Sporting, 1-1 (1-3 após g.p.)

Ao intervalo: 0-0.

Marcadores: 1-0, Fernando Andrade, 79'; 1-1, Bas Dost, 90'+2 (g.p.).

FC Porto: Vaná, Éder Militão, Felipe, Pepe, Alex Telles, Herrera, Óliver (Hernâni, 90'+4), Corona (Danilo Pereira, 82'), Brahimi, Marega e André Pereira (Fernando Andrade, 64').

Treinador: Sérgio Conceição.

Sporting: Renan Ribeiro, Ristovski, Coates, André Pinto (Petrovic, 53'), Acuña (Jefferson, 46'), Gudelj (Diaby, 83'), Wendel, Bruno Fernandes, Raphinha, Nani e Bas Dost.

Treinador: Marcel Keizer.

Árbitro: João Pinheiro (Braga).

Ação Disciplinar: cartão amarelo para Corona (25'), André Pinto (29'), Acuña (35'), Nani (45'), Felipe (45'+1), Ristovski (65'), Óliver (68'), Petrovic (86'), Marega (90'+3), Bruno Fernandes (90'+5) e Renan Ribeiro (90'+6).

Assistência: 25.213 espetadores.

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