Morreu Ali. Fica um legado lendário muito além dos ringues

Muhammad Ali, ícone político e religioso, morreu aos 74 anos. Barack Obama compara-o a Martin Luther King e a Nelson Mandela

Hoje, provavelmente, ele não se tornaria uma lenda, como um dos maiores desportistas de sempre. Muhammad Ali - falecido ontem, aos 74 anos - foi um homem do seu tempo. E o brutal impacto que teve nos anos 60 e 70 do século XX fez dele um ícone eterno, dentro e fora dos ringues. Como pugilista de contornos míticos, como abnegado defensor de causas sociais, políticas e religiosas, e como agitador nato. The Greatest deixou um legado sem fim - com uma extensão que agora parece difícil de imaginar.

Se tivesse nascido 50 anos mais tarde e despontado em pleno século XXI, com o boxe afastado da dimensão sobre-humana de outros tempos, com os EUA bem mais próximos da igualdade racial e com o politicamente correto enraizado no discurso mediático, talvez Cassius Marcellus Clay Jr. tivesse um impacto diferente, dentro e fora dos ringues. O mundo mudou nestes 50 anos - e isso também aconteceu por causa dele. Por isso, foi venerado pelas gerações seguintes, bem para lá dos muros do desporto, como um símbolo da afirmação das minorias raciais e religiosas - comparável a Martin Luther King e a Nelson Mandela. E também por isso foi chorado ontem como uma perda global.

"Depois de um combate de 32 anos contra a doença de Parkinson, Muhammad Ali morreu, aos 74 anos", anunciou o porta-voz da família, Bob Gunnell, na madrugada de ontem (sexta-feira à noite em Scottsdale, Arizona, EUA - local do óbito), apenas um dia após o ex-pugilista ter sido internado com problemas respiratórios. As reações de pesar logo começaram a surgir, de todos os cantos: da maior estrela do boxe na atualidade, Floyd Mayweather, ao presidente dos EUA, Barack Obama, passando por uma das consciências críticas do desporto norte-americano (expert em questões raciais e religiosas), Kareem Abdul-Jabbar, ou pela rainha da música pop, Madonna.

É verdade, Ali -"um rei, um herói, um ser humano - abanou o mundo" (como diz Madonna). Foi ele que "abriu o caminho" a novos ícones como Floyd Mayweather: "As palavras são insuficientes para dizer o que Ali fez pelo desporto. Mostrou-me que nunca se deve ter medo, nunca se deve parar de acreditar e nunca nos devemos contentar com menos."

Ele lutou por nós. Como King e Mandela, manteve-se firme perante as dificuldades e falou quando outros se calavam

E foi também Ali que pôs os EUA a discutir questões raciais (como lembrou Abdul-Jabbar): "Numa altura em que os negros que estavam contra a injustiça foram tratados com arrogância e muitas vezes presos, Muhammad sacrificou-se de bom grado." Por isso, até Obama o idolatrava - e tinha um cartaz dele no gabinete, nos primórdios da sua carreira política, em Chicago. "Ele lutou por nós. Como King e Mandela, manteve-se firme perante as dificuldades e falou quando outros se calavam. A sua vitória ajudou-nos a habituarmo-nos à América que hoje reconhecemos", sublinhou o primeiro presidente negro da história dos EUA.

No início, uma bicicleta roubada

A questão racial acompanhou Ali desde a pia batismal. O pai, Cassius Marcellus Clay Sr., descendente de escravos, fê-lo herdar o nome, uma homenagem a um político abolicionista (da luta antiescravatura), do século XIX. E o pugilista usou-o até se sagrar campeão do mundo de pesos-pesados pela primeira vez, aos 22 anos, em fevereiro de 1964 - ao derrotar, com estrondo, o superfavorito Sonny Liston.

Então, já tinha passado uma década sobre o dia em que Clay/Ali se iniciara no boxe - para se vingar de quem lhe roubara a bicicleta que o pai lhe dera pelo Natal (diz a lenda). E passavam quatro anos desde que o lutador, natural de Louisville, Kentucky, se tornara profissional (1960), após conquistar o ouro olímpico de meios-pesados. No entanto, a aura mítica do pugilista apenas estava a começar a formar-se.

No lançamento do combate com Liston, o pugilista lançou a sua frase mais lendária: "Vou flutuar como uma borboleta e picar com uma abelha", uma declaração de princípios da abordagem inovadora - esquivo na defesa, venenoso no ataque - que trouxe para os ringues de boxe. No final, empoleirado nas cordas, cunhou a alcunha que o acompanharia até ao fim: gritou "I"m the greatest", e ficou para sempre o maior.

Novo nome e não ao Vietname

Ali tinha tanto de provocador e arrogante como de encantador e carismático: soltava sound bites palavrosos e desfazia os adversários com insultos (antes dos combates...); e, ao mesmo tempo, o seu bailado gracioso no ringue seduzia os fãs de boxe e muitas mulheres (casou-se por quatro vezes e teve nove filhos). No entanto, mais do que estas facetas, foram as lutas em que se empenhou que o tornaram eterno.

Uma e outra vez, o pugilista ousou ir contra a corrente. Em 1964, após se sagrar campeão do mundo pela primeira vez, Clay anunciou que deixava "o nome de escravo" e se tornava Mohammad Ali, depois de se ter convertido ao islamismo no seio do grupo Nação do Islão (Black Muslims, radicais da luta antissegregação racial, de que Malcolm X era líder, até cair em desgraça e acabar assassinado por membros da própria organização). E ao longo dos anos assumiu-se como voz ativa contra a discriminação racial, rebelando-se contra os pugilistas negros que preferiam não agir.

Uma dessas tomadas de posição custou-lhe "um dos seus títulos mundiais e a admiração pública, fê--lo ser insultado e quase ir para a prisão", como recordou Obama. O boxeur recusou combater na Guerra do Vietname, ao ser mobilizado em 1967. "Porque me pedem para vestir um uniforme e viajar para despejar bombas e balas em pessoas escuras do Vietname enquanto os negros de Louisville são tratados como cães e veem ser-lhes negados direitos humanos básicos? Os vietcongues nunca me chamaram nigger", argumentou Ali, que foi condenado a cinco anos na cadeia (pena nunca cumprida) e passou três anos e meio sem poder competir.

Um regresso para a história

O lutador passou a flor da idade - entre os 25 e os 28 anos, o potencial pico da carreira... - fora dos ringues, a dar palestras a estudantes. Quando regressou, quase ninguém acreditava que ainda flutuasse e picasse da mesma forma: em 1971, acabou por sofrer a primeira derrota da carreira, diante de Joe Frasier (ao fim de 32 combates).

No entanto, Ali ainda estava capaz de voltar ao topo. Conseguiu-o num dos "combates do século" (The Rumble in the Jungle, em outubro de 1974, em Kinshasa - ver página 48), recuperando o título mundial de pesados, diante de George Foreman. E depois de o perder, passados três anos e meio, para Leon Spinks, ainda logrou conquistá-lo, pela terceira vez, frente a Spinks.

Esse duelo, em Nova Orleães, em 1978, devia ter sido a retirada em glória de Ali, já com 36 anos e 241 dias e um registo quase irrepreensível de 56 vitórias e três derrotas. Contudo, ameaçado por dificuldades financeiras, ainda tentou um comeback em 1980 e 1981 - saldado em dois humilhantes desaires, devido à sua debilidade física. Três anos depois, recebia o diagnóstico da doença de Parkinson que lhe limitou a mobilidade - mas não as tomadas de posição e aparições públicas - até ao fim de vida.

Esse fim chegou ontem. Ali dizia que gostaria de ser lembrado como "alguém que ganhou o título de pesos-pesados por três vezes, que era bem-humorado e tratava todos de forma correta, que se levantou pelas suas crenças e tentou unir toda a humanidade através da fé e do amor". O legado fica registado e vai muito para além do seu tempo.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG