"Messi é um fenómeno, mas Cristiano Ronaldo merece a Bola de Ouro"

Antigo jogador do Benfica, Claudio Caniggia recordou os tempos passados na Luz, o convívio com o astro Diego Armando Maradona na seleção argentina e deixa a sua opinião sobre o duelo entre os dois melhores da atualidade

Há 22 anos o Claudio Caniggia estava a caminho de Portugal e do Benfica. O que recorda desse tempo?

Foi mais uma boa experiência que tive na minha carreira. Fui para um país diferente de Itália [jogava na Roma] e também da Argentina, mas gostei muito, as pessoas eram simpáticas, conheciam-me e fui para um grande clube. O Benfica era conhecido em todo o lado e entendi que era uma boa opção, infelizmente não conseguimos vencer nada, mas foi uma grande experiência.

Ainda acompanha o clube?

Acompanho agora mais do que há alguns anos. Como passo muito tempo em Espanha é mais fácil ver os jogos do campeonato português. Quando vejo algo sobre o Benfica desperta-me a atenção, tal como em qualquer clube onde joguei, o interesse é normal. Sei que têm dominado em Portugal e feito boas campanhas europeias.

Mesmo após muitos anos, o Benfica continua a apostar em jogadores argentinos...

Sim, muitos mesmo. Saviola, Aimar, Di María, Gaitán. O Benfica tem descoberto muitos jovens talentosos, tanto na Argentina como em outros países, e eles sabem que o clube é excelente para começarem a jogar na Europa e despertarem o interesse de outros clubes.

E dos seus antigos colegas no Benfica, algum o deslumbrou?

Joguei com muitos grandes jogadores, seria injusto escolher um ou outro. O Benfica não passava um bom momento, mas tinha grandíssimos jogadores. Preud"homme foi um dos melhores guarda-redes que já vi. Apesar da sua idade, na altura era enorme, podia ter tido uma carreira ainda mais brilhante. O Pinto [João Vieira Pinto] era outro talento, fenómeno, e depois tínhamos ainda um brasileiro muito forte, com um grande remate e velocidade [Isaías]. Era uma equipa com grandes talentos.

Em Portugal quando se fala de Caniggia lembramo-nos do célebre cartão vermelho que levou contra o Sporting e que posteriormente levou à repetição do jogo. Recorda-se?

Lembro-me mais da polémica do que propriamente do que aconteceu no jogo. Penso que foi um equívoco do árbitro, pensava certamente que eu já tinha um amarelo, mas são erros.

Falando em grandes jogadores, partilhou balneário com um dos melhores de sempre, Maradona...

Um dos melhores não, o melhor de sempre. Um génio do futebol, daqueles que nos vamos recordar para sempre. Joguei com grandes talentos, talvez numa das melhores eras do futebol, onde havia mais talentos naturais, mas nenhum como Diego, um astro. Até com lesões ele jogava a um nível altíssimo. Eu vi Diego jogar com tantas lesões, que hoje nenhum jogaria arriscava jogar assim. Ele fazia-o e jogava ao mesmo nível.

Curiosamente uma das imagens do futebol dos anos 90 foram os beijos na boca que ambos davam quando estavam ao serviço do Boca Juniors...

Foi algo natural, o primeiro, num jogo contra o River Plate, depois os outros já foram diferentes. Estava a beijar um Deus do futebol e um grande amigo.

Esteve também presente no adeus de Maradona à seleção, em 1994, em pleno Campeonato do Mundo, quando este foi apanhado num controlo anti-doping. Como reagiu o grupo?

Ele saiu e não vencemos mais nenhum jogo. Foi muito duro para todos, mas ainda mais para o Diego. Tenho a certeza que lhe fizeram a cama. A Argentina estava muito forte e estavam a ver que tínhamos a melhor equipa, éramos os mais fortes candidatos a vencer o campeonato e isso incomodou muita gente e quiseram afastar-nos. Com Diego tenho a certeza que teríamos vencido o Mundial.

Em 1990 aconteceu precisamente o contrário: sem Caniggia, na final, a Argentina perdeu para a Alemanha...

Isso foi diferente, fiquei afastado por cartões amarelos. Estávamos a fazer um grande campeonato e tanto eu como o Diego queríamos vencer em Itália, onde jogávamos. Infelizmente não foi possível, mas fomos os melhores no Mundial, merecíamos vencer.

Depois de Maradona a Argentina tem agora Messi. Os resultados, contudo, não têm aparecido. Alguma razão para tal?

A Argentina tem jogadores para vencer qualquer equipa. Tem jogadores fantásticos, mesmo sem Messi. Se calhar um dia vamo-nos arrepender de não vencer com uma seleção com tantos talentos, mas a verdade é que os resultados não têm surgido. Não sei explicar a razão, talvez muita ansiedade, sobretudo nos jogos que decidem, como no último Mundial e nas duas Copa América que perderam. Esta equipa tem muita pressão em cima, sobretudo porque tem Messi, e talvez sofra por isso. Eles querem ganhar tudo, não tenho dúvidas, e ainda têm mais oportunidades pela frente. Tenho a certeza que esta geração poderá ainda ganhar algum torneio importante.

Jogou com Maradona e conhece bem Messi. Qual o melhor?

Messi é um fenómeno, a Argentina tem de agradecer por voltar a ter um talento destes, mas para mim Maradona é o melhor de sempre. Mas também não gosto de comparar. É o mesmo que pedirem aos franceses que comparem Zidane com Platini. São de gerações diferentes, mas sempre grandes, provavelmente cada um de nós escolherá o da sua geração.

Na atual geração o título de melhor do mundo disputam-no Messi e Cristiano Ronaldo...

É fantástico ter dois talentos destes a jogarem todos os fins de semana e a tentarem ultrapassarem-se. Eu escolho Messi, para mim é o melhor desta era, mas Cristiano Ronaldo é fabuloso, a um nível semelhante ao de Messi, por isso venceram os dois tantos títulos.

Qual vencerá a Bola de Ouro?

Cristiano Ronaldo acabou de vencer uma prova importante com a sua seleção e ganhou também a Liga dos Campeões. Messi é um fenómenos, mas Ronaldo merece, pois esse prémio não é apenas individual, o jogador que o ganha tem de vencer muitos títulos. Se não ganhar, será para Messi, e tem sido sempre assim. Gosto muito de ambos, são diferentes, mas não se pode estar sempre a discutir quem é melhor. São grandíssimos.

E o Caniggia, continua ligado ao futebol?

Não. Nem vejo muitos jogos, não gosto também de recordar o passado, vivo o presente. Gozo a vida atualmente. Estou muito tempo na Argentina, Miami, Rio de Janeiro e Marbella. Agora aproveito a família.

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