Roland-Garros. Discriminação à mamã Serena instala polémica

Torneio francês recusou estatuto de cabeça-de-série a Serena Williams, que por ter sido mãe é atualmente a 453.ª do ranking mundial. Tenistas reclamam proteção na maternidade

Um ano e meio depois de ter conquistado na Austrália o 23.º major da carreira - um recorde na Era Open -, Serena Williams prepara--se para voltar a jogar um dos quatros torneios que compõem o Grand Slam do ténis, na próxima semana, quando entrar em campo nos courts de Roland-Garros, a mítica catedral francesa da terra batida.

No entanto, o regresso de Serena aos grandes palcos, oito meses após ter dado à luz a sua filha, Alexis Olympia, está para já marcado pela polémica decisão do torneio parisiense, que não concedeu à tenista norte-americana o estatuto de cabeça-de-série, abrindo o debate sobre o tratamento da WTA [a associação que gere o circuito feminino] às tenistas que optam pela maternidade.

"Este ano, mais uma vez, a direção do torneio estabelecerá a lista de cabeças-de-série com base na classificação mundial desta semana", informou a direção do torneio de Roland-Garros, através da Federação Francesa de Ténis. O que afasta desse lote de 32 principais tenistas o nome de Serena Williams, que, depois de 14 meses sem competir - regressou aos courts apenas em março deste ano -, ocupa atualmente a 453.ª posição do ranking WTA.

O caso não é inédito. Já aconteceu anteriormente a outras tenistas como Kim Clijsters ou Victoria Azarenka, mas o nome de Serena Williams, figura maior do ténis feminino atual, veio expor a falta de uma política de proteção da maternidade no circuito feminino e fez alastrar o debate sobre a discriminação imposta às tenistas que optam por ser mães durante a carreira. Serena, recorde-se, era a incontestada número 1 mundial quando anunciou a interrupção da carreira por estar grávida, logo após a conquista do seu 23.º título do Grand Slam, na Austrália, em janeiro de 2017.

Se, na generalidade das profissões, fora do desporto de alta competição, Serena teria direito a uma licença de maternidade e a voltar ao trabalho nas mesmas condições de antes, na WTA isso não acontece. No ténis, ser mãe está equiparado a ter uma lesão. E a única proteção prevista no regresso à competição é o direito de entrada nos quadros principais de um total de oito torneios.

Ser cabeça-de-série ou não depende das regras adotadas por cada torneio. E Roland-Garros, como a maioria dos torneios, não concede essa proteção. O que significa que Serena Williams poderá ter de enfrentar, por exemplo, a atual líder do raking mundial (a romena Simona Halep) logo na primeira ronda - o sorteio realiza-se hoje à tarde na capital francesa.

Rivais unem-se no protesto

A polémica sobre o tema tem crescido no circuito e até rivais históricas de Serena Williams têm feito ouvir o seu protesto contra esta discriminação. Como Maria Sharapova. "Gostava de ver mudanças nesta política. Trata-se de um esforço incrível para uma mulher, do ponto de vista físico e emocional, regressar à competição após ter um filho", referiu a russa. Simona Halep, atual n.º1 mundial, junta-se às críticas. "Tem de ser normal uma mulher dar à luz. E alguém nessas condições deveria ter o ranking protegido", defendeu a romena.

"É tremendamente errado. Não só para Serena como para as adversárias que podem ser obrigadas a defrontá-la nas primeiras rondas", disse, por sua vez, a antiga tenista norte-americana Chris Evert: "Não é como se ela tivesse decidido tirar um ano de férias."

Perante o aumento de tom das críticas, a WTA já veio admitir, através de um porta-voz, que as regras estão a ser reequacionadas para 2019. Mas até lá, Serena Williams, aos 36 anos, terá de percorrer a via mais dura para regressar ao topo.

Wimbledon mostra abertura

Se Roland-Garros é intransigente com a causa de Serena, já Wimbledon - o Grand Slam que se segue, em julho - tem maior abertura para reajustar o quadro de cabeças-de--série. "A lista segue o ranking WTA, exceto quando o comité organizador entende que há mudanças benéficas para formar um quadro mais equilibrado", prevê o All England Club, o que pode ajudar a regressada norte-americana, vencedora por sete vezes na relva londrina.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.