Benfica no olho do furacão. Suspeita de bilhetes e camisolas em troca de segredos processuais

Paulo Gonçalves vai hoje a juiz. Investigação na sequência de caso dos e-mails poderá ter mais consequências financeiras do que desportivas

Paulo Gonçalves, assessor jurídico do Benfica, foi detido e será hoje presente a um juiz de instrução criminal no âmbito de mais um caso que deixa o emblema da águia no olho do furacão. Em causa, na Operação e-Toupeira, está a alegada corrupção de funcionários judiciais - com a oferta de camisolas e bilhetes para jogos de futebol - para obter informações relativas a processos em segredo de justiça.

Paulo Gonçalves, de 48 anos (ver perfil à direita), é o rosto mais mediático desta operação, mais um processo cujas consequências financeiras e desportivas para o Benfica ainda são difíceis de determinar. O assessor jurídico é suspeito de corrupção ativa - crime com uma moldura penal entre um a cinco anos de prisão. Terá corrompido um técnico de informática e dois oficiais de justiça "com a oferta de bilhetes para jogos e equipamentos" da equipa encarnada, contou ao DN fonte da investigação.

O objetivo do esquema, em que um agente de jogadores seria usado como intermediário, seria "ter acesso a informação e a peças processuais que envolviam o Benfica", confirmou a mesma fonte. Acedendo aos dados através da aplicação informática utilizada no meio judicial (ver à direita), os funcionários judiciais transmitiriam a Paulo Gonçalves informações sobre diligências em curso em processos que interessavam ao assessor jurídico - como o caso dos e-mails, investigação do alegado esquema de manipulação de arbitragens em que o Benfica é visado.

Detido ontem, como o técnico informático José Silva (funcionário do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça), o colaborador da SAD benfiquista deverá ser presente a um juiz de instrução criminal hoje à tarde, em Lisboa, e só depois ficará a conhecer as medidas de coação a que estará sujeito. Em causa, revelou a Polícia Judiciária (PJ) em comunicado, está "a prática dos crimes de corrupção ativa e passiva, acesso ilegítimo, violação de segredo de justiça, falsidade informática e favorecimento pessoal".

A investigação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção da PJ decorria há quase meio ano e poderá não ficar por aqui. Após ontem terem sido realizadas 30 buscas nas áreas do Porto, Fafe, Guimarães, Santarém e Lisboa - incluindo, em boa parte do dia, ao Estádio da Luz -, a grande quantidade de material e documentação recolhidos poderá levar a novas diligências.

Perante mais este caso, o Benfica reagiu em comunicado manifestando "a sua confiança e convicção de que Paulo Gonçalves terá oportunidade, no âmbito do processo judicial, de provar a legalidade dos seus procedimentos". Preocupada com as "reiteradas e constantes violações do segredo de justiça sobre os processos que envolvem o clube", a Sociedade Anónima Desportiva benfiquista veio pedir à procuradora-geral da República uma audiência "com carácter de urgência".

Qual o impacto no Benfica?

Desde que em junho de 2017 deu entrada no Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) um inquérito-crime relacionado com os e-mails denunciados pelo diretor de comunicação do FC Porto, Francisco J. Marques, que o Benfica está no olho do furacão. A questão que se levanta no momento em que surge mais um caso (indiretamente relacionado com o dos e-mails) é que consequências pode ter no clube encarnado. Provavelmente, o impacto poderá ser mais a nível financeiro do que desportivo ou diretivo, referem as fontes ouvidas pelo DN.

"É impossível dizer que isso [casso dos e-mails] não afetou a nossa imagem", disse recentemente Domingos Soares Oliveira, administrador da SAD benfiquista, ao jornal Eco - garantido mesmo que não houve, até agora, qualquer afastamento de patrocinadores. Afinal, casos como este "contribuem para a degradação da marca do futebol português", com impacto na "desvalorização da sponsorização, direitos televisivos e naming, como explicou ao DN Angelino Ferreira, antigo administrador da SAD do FC Porto (sem querer analisar em pormenor o exemplo encarnado).

A nível diretivo, Gaspar Ramos, antigo dirigente do emblema da águia, acha "natural" o apoio a Paulo Gonçalves, mas diz que tudo tem de ser clarificado. "O Benfica é um grande clube e não pode passar por este tipo de situações, tem tudo de ser clarificado e o próprio clube tem de levar isto até às últimas instâncias. Caso se prove alguma coisa, os envolvidos têm de sair", afirma.

Já quanto ao impacto desportivo da detenção do assessor jurídico, poderá ser nulo. "Como não está em causa qualquer tentativa de adulteração das competições"em que o clube participa, o Benfica não está em risco de ser punido pela justiça desportiva, explicou ao DN Lúcio Correia, professor de Direito de Desporto. E no relvado o caso pouco deverá pesar, garante César Peixoto - que jogava no FC Porto quando eclodiu o processo Apito Dourado (2004-05). "Num clube grande, há uma estrutura que faz que os jogadores não sejam atingidos por esse tipo de problemas. É claro que os futebolistas portugueses sentem mais o impacto das notícias (porque procuram mais informação do que os estrangeiros), mas isso acaba por não interferir no dia-a-dia", conclui o também ex-benfiquista (2009-11).

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