No princípio, Milão. Vista de cima. A cidade noturna a evocar a linguagem dos thrillers nova-iorquinos, com uma câmara que sobrevoa os edifícios enquanto, a vermelho e em letras gordas, surgem no ecrã o título do filme e os créditos de abertura. Há uma atmosfera nociva a instalar-se nessa virtuosa sequência de cinco minutos, que termina suavemente diante das janelas iluminadas de um prédio onde parece haver uma festa de aniversário. É uma festa-surpresa para Franco Amore, um polícia que vai para a reforma antecipada após 35 anos de honroso serviço, sem nunca ter precisado de disparar uma arma. Como é óbvio, a história de A Última Noite em Milão andará à volta do momento em que essa paz laboral termina, mesmo a poucas horas de o protagonista fazer o seu discurso de despedida aos camaradas de profissão..Terceira longa-metragem de Andrea Di Stefano, ator que se voltou para as lides da realização em língua inglesa - assinou antes Escobar: Paraíso Perdido (2014), com Benicio Del Toro, e O Informador (2019) -, A Última Noite em Milão é a sua primeira obra rodada no país natal, e um filme de género que beneficia da sensibilidade adquirida com a experiência lá fora, ao mesmo tempo que não deixa de ser intrinsecamente italiano. Também ajuda muito que o seu protagonista seja Pierfrancesco Favino, um dos rostos capitais do cinema atual que se tem revelado um ator de grandeza sóbria..Mas voltando à festa. Quando Amore/Favino chega a casa, vindo de uma suposta corrida no quarteirão, e se depara com a surpresa preparada pela esposa e os amigos, o seu semblante não deixa de denunciar uma mágoa que se descola daquela circunstância. Será apenas a emoção de estar a falar com a filha via Zoom diante de uma sala cheia, ou há mais qualquer coisa? O telefonema que recebe do chefe, não a felicitá-lo, mas a informá-lo da morte de um colega, é o início de uma noite longa. Ou será que a noite já tinha definido a sua tragédia antes daquela chamada?.Com o título original L"Ultima Notte di Amore, que capta melhor o sentido duplo da palavra "Amore" - a personagem simboliza ela própria uma ideia de amor -, o filme de Di Stefano fecha a sua primeira parte recuando dez dias, para revelar os eventos que antecederam a dita chamada. A saber, Amore terá aceitado, ainda que de forma muito relutante, um "pequeno trabalho" para um gangue chinês, não só por causa das ligações de um primo da sua mulher a essa máfia, mas porque a remuneração era mais do que aliciante para um polícia que, a nível de salário, nunca saiu da cepa torta..Não se trata de quebrar de repente o código moral da personagem: Amore vai tentar fazer tudo nos seus termos, gerindo o conflito interior e levando consigo outro amigo, um "polícia bom" como ele, no serviço indolor e bem pago..Por meio deste cenário, o realizador quis retratar uma certa Itália sem recorrer ao estafado drama social, como disse à revista Variety aquando da estreia do filme no Festival de Berlim: "Tudo começou com o meu desejo de encontrar um momento na vida de um polícia que pudesse representar um clímax emocional. Passei algum tempo a fazer pesquisa junto de polícias italianos e ganhei esta noção das frustrações dessas pessoas, cuja ambição, na maioria dos casos, é ser honesta. Há aspetos de Itália que queria trazer para o grande ecrã e sabia que através de um filme de género poderia analisá-los com mais profundidade." .Com efeito, A Última Noite em Milão não é apenas um exemplo raro de thriller emotivo que remete para o género policial italiano dos Anos 70 e 80 - desde logo, sendo filmado em 35mm -, mas funciona acima de tudo pela conjugação disso com uma vitalidade contemporânea altamente ritmada. Como um bom estudioso, Di Stefano foi buscar a essa escola uma tensão urbana que liga bem com o brilho mais melodramático de um ator como Pierfrancesco Favino. Ele é a nota de gravidade terna e humana num filme que sabe equilibrar o pulso elegante da ação com a angústia mais genuína..Não há muitos atores italianos que se tenham destacado tanto em tempos recentes como Favino, até do ponto de vista internacional. Com uma carreira dividida entre pequenos papéis em Hollywood e as produções nacionais, dir-se-ia que foi sobretudo depois de O Traidor (2019), de Marco Bellocchio, onde interpreta a complexa honra do mafioso Tommaso Buscetta, que a sua presença no ecrã atingiu outra dimensão..Ainda no início do ano o vimos numa belíssima expressão melancólica em Nostalgia, de Mario Martone, como um homem que regressa ao seu passado em Nápoles, e no filme que abriu o último Festival de Veneza, Comandante, de Edoardo De Angelis, ele surge como essa figura titular..Em A Última Noite em Milão, um dos aspetos mais comoventes de Favino na pele do polícia Amore é o modo como dispensa a ganga heroica e assume a personagem pela linha do homem comum em apuros, que reage à noite fatídica com uma força e vulnerabilidade arrepiantes. O carisma nele nasce desse maravilhoso espaço negativo. E há qualquer coisa de extremamente honesto naqueles olhos tristes..dnot@dn.pt