Desde que anunciou Berlim numa conferência de imprensa em setembro do ano passado, o criador de La Casa de Papel, Álex Pina, deixou claro aquilo que o movia: não se tratava de regressar ao universo que os fãs conhecem bem, mas sim de acrescentar uma nota diferente, "algo mais leve", nas suas palavras, "lúdico, luminoso, cómico, romântico". E das poucas coisas que se podem dizer sobre o spin-off do grande sucesso espanhol da Netflix, sem incorrer em spoilers, é que todas estas palavras vestem bem uma série que busca identidade própria, apesar de ter como protagonista uma das personagens principais de La Casa de Papel, o irmão do Professor, que já tinha desaparecido de cena após o assalto à Casa da Moeda, embora a sua presença na história fosse depois prolongada através de flashbacks, esse penso rápido para o vazio deixado pela morte....A série que esta sexta-feira fica disponível na Netflix responde então a um impulso mais primário. Como se pudéssemos ver a personagem em cores mais garridas, com todos os seus traços de caráter/psicopatia sublinhados, e a adrenalina de um assalto - que se situa algures antes dos eventos da série original - trouxesse informação mais fidedigna sobre o perfil que tanto atraiu os fãs..Quem é então Berlim, numa descrição mais completa? Segundo o próprio intérprete, Pedro Alonso, um indivíduo da pior espécie. "No outro dia perguntaram-me se eu era capaz de beber um copo com Berlim: um copo sim, dois não. Um sim, porque sou curioso e procuro estar aberto a qualquer tipo de experiência, mas se beber dois já se sabe no que me estaria a meter. Ele é pouco apresentável, indecente, perverso, egoísta, narcisista, terrorista emocional, mentiroso, manipulador... é o pior. Mas procura sempre um momento de emoção genuína e às vezes alcança-o. E claro, narrativamente é uma mina de ouro. Surpreendo-me com o que sinto dentro da personagem. É uma ambivalência total", disse o ator ao El País, numa entrevista publicada na última semana..Desta feita, a série com coautoria de Esther Martínez Lobato vai apanhar os ares de Paris enquanto é preparado um roubo épico de 44 milhões em joalharia, envolvendo um jogo constante de relações - profissionais e românticas - que ameaçam desestabilizar o plano. A nova quadrilha, composta por jovens de valências distintas e um cúmplice do protagonista, traz uma nova respiração que nega o acesso à nostalgia. Convém reforçar: Berlim quer ser um outro olhar, um outro tom, uma forma inesperada de reencontrar um velho amigo, longe do registo mais violento de La Casa de Papel e com um estilo de ilusionismo mais escancarado. Seja como for, também aqui a aventura cabe entre o amor e um assalto bem-sucedido. I