O físico Carlos Fiolhais usa a sua inteligência natural nestes dois livros que publicou nos últimos dias.
O físico Carlos Fiolhais usa a sua inteligência natural nestes dois livros que publicou nos últimos dias.Maria João Gala / Global Imagens

A Inteligência Artificial é uma moda passageira para Carlos Fiolhais

Chegaram às livrarias dois livros do físico que mais tem divulgado a ciência em Portugal: Toda A Física Divertida e A Inteligência Artificial de A a Z.   
Publicado a
Atualizado a

Poucos devem ser os leitores que não têm um livro de autoria de Carlos Fiolhais na sua estante, afinal este professor de Física Teórica já publicou quase oitenta títulos, nos quais aposta muito na divulgação científica. Entre estas dezenas de volumes está um imperdível apesar da falta de informações da época, vazio que Fiolhais consegue superar ao contar o máximo possível da passagem de Einstein por Portugal no início do século XX, que foi editado pela Imprensa da Universidade de Coimbra em 2005: Einstein entre Nós. Mas ainda não é desta vez que essa pérola da sua bibliografia volta às livrarias, antes duas ótimas e esclarecedoras enciclopédiasToda a Física Divertida A Inteligência Artificial de A a Z.

Nada melhor do que perguntar ao autor qual dos dois livros tem assuntos que interessarão mais ao leitor. Fiolhais responde: “A física, além de divertida, continua jovem. O mundo continua a ser um mistério, pelo que a física continuará a oferecer desafios. Também existe muita coisa ainda por saber, como digo no meu livro; por exemplo: o que são a matéria escura e a energia escura? Ou: o que está dentro de um buraco negro? Quanto à Inteligência Artificial (IA), é uma moda e como todas as modas tem algo de passageiro. É um grande negócio para alguns, que pode não durar sempre e desta forma.” Não deixa, no entanto, de alertar: “A física está muito ligada à IA, pois esta faz-se com computadores, que são em grande parte obra dos físicos; o Prémio Nobel da Física de 2024 foi dado a dois cientistas (um físico e um psicólogo) que desenvolveram as redes neuronais artificiais, isto é, modelos do nosso cérebro. Para fechar, nunca esquecer que o cérebro humano deve ser o maior mistério do universo e os físicos estão, com outros seus colegas, interessados em desvendá-lo, pelo menos no que forem capazes. Recordemos que o físico austríaco Erwin Schrödinger, autor da famosa equação da mecânica quântica disse um dia que toda a ciência se podia resumir à inscrição que já estava no templo de Apolo em Delfos, na Grécia Antiga, para ser lida pelas pessoas que ali passavam: «Conhece-te a ti mesmo».”

Quando se pede a Carlos Fiolhais para fazer um balanço da sua “produção” literária, o físico recorda que já publicou em 1991 uma metade deste novo livro: “Física Divertida é de quando tinha 35 anos e ganhei-lhe o gosto, tanto que já são, pelas minhas contas, 77 livros, dos quais cerca de metade são manuais escolares, escritos em colaboração. E não estou a contar com prefácios, capítulos, direções de obras, etc. Confesso que gosto de ler e de escrever e uma das razões por que escrevo é por saber que sou lido. A Física Divertida, da qual saiu há dias mais uma edição, devidamente atualizada, deve ter vendido mais de 25 mil exemplares e foi traduzida nalguns países. É consolador ver um livro resistir à erosão do tempo.”

Qual será a sensação de um físico “tradicional” ao escrever sobre “futurologia” em A Inteligência Artificial de A a Z; era o livro que desejava escrever ou preferiria que este avanço tecnológico nunca tivesse acontecido? Fiolhais confessa que não gosta de “história virtual ou de pensar como seria se não tivesse sido. A Inteligência Artificial tem coisas de que gosto e outras de que não gosto, contudo está aí na nossa vida e temos de saber aproveitá-la naquilo em que é útil. Tentar pará-la seria como parar o vento com as mãos. Este livro surge de um pedido do jornal Correio da Manhã para que a explicasse tintim-por-tintim nas suas páginas. No final, vi que dava uma espécie de dicionário, que se pode ler pela ordem que se quiser e que tem boas histórias. Até porque antes de se tornar realidade, a IA foi em muitos casos ficção científica".

Questiona-se a ideia de que “o novo erguer-se-á sempre aos ombros do antigo” no caso da IA, ou esta libertar-se-á desta lei. “Não”, é a primeira palavra da resposta. Segue-se a explicação: “O futuro é e será sempre a continuação do passado. Na ciência, as novas descobertas têm de se encaixar nas antigas. Einstein subiu para os ombros de Newton, tal como Newton subiu para os ombros de Galileu.  Formam uma pirâmide humana em que os de baixo suportam os de cima. Hoje, temos físicos a tentar subir para os ombros de Einstein, mas ainda ninguém o conseguiu. Quando forem capazes não o vão desvalorizar, bem pelo contrário. Quanto à IA, na modalidade agora muito popular de «generativa», por exemplo do tipo do Chat-GPT, mais não faz do que treinar um sistema com discurso humano para produzir novo discurso. Lá está: o novo a erguer-se aos ombros do antigo. O que falta - e não é uma falta pequena – é a centelha de génio que Einstein teve quando subiu aos ombros de Newton. O Chat-GPT pode ser criativo, é criativo à sua maneira, mas está longe de ser genial. Não iremos ver um sistema de IA subir para os ombros de Einstein, embora admita que o humano que o fizer possa usar essa ferramenta”. 

Chega a hora de se saber se a escolha de um título como Física Divertida se deve ao desejo de vender mais exemplares ou se o autor acredita sinceramente nessa premissa? A resposta não poderia ser outra: “Acredito que a física pode ser divertida, mas obviamente há uma ideia de marketing, afinal as pessoas interessam-se por coisas divertidas. Acima de tudo quis contrariar a ideia feita de que a física é uma disciplina aborrecida. Contei histórias, falei de pessoas, convidei a ver e a experimentar, tudo «truques» para manter o leitor interessado. Porque será a física divertida, pode-se questionar, e a resposta é pelo facto de tratar da descoberta do mundo e porque o mundo nos encanta. Esta descoberta é feita com prazer. Um matemático francês, Henri Poincaré, contemporâneo de Albert Einstein, dizia que o prazer da ciência advém da beleza da Natureza. O cientista estuda o mundo porque o acha belo e, se não fosse belo, não valeria a pena conhecê-lo. Julgo ser obrigação dos cientistas não guardar o prazer só para si, mas entregá-lo também aos outros. Afinal os cientistas trabalham não por conta própria, mas sim por conta da Humanidade.”

A divulgação científica como a destes dois livros substituiu os ensaios de difícil compreensão para o leitor curioso. O que pensa Fiolhais dessa simplificação: benéfica para a ciência; faz aumentar o público interessado, ou mais não é do que uma ilusão sobre a democratização do conhecimento: “Voltemos a Poincaré e ao mundo a que chamou belo; é de todos, razão mais do que suficiente para que todos o possam conhecer. A curiosidade dos cientistas é uma forma mais aguçada da curiosidade de toda a gente. Somos todos curiosos e os cientistas maiores têm o que Einstein chamou «curiosidade apaixonada», uma curiosidade em alto grau. Daí que a democratização do conhecimento não possa ser uma ilusão. Concordo que exige alguma simplificação, mas pode-se sempre transmitir qualquer assunto de ciência de um modo compreensível para o comum das pessoas. É do interesse dos cientistas que a sociedade saiba o que está a fazer e tome conhecimento das suas descobertas, porque é a sociedade que mandata os cientistas.  Ao contrário do que por vezes se pensa os cientistas gostam de comunicar. Começam por comunicar as descobertas dentro da sua comunidade, porque é ela que as valida, e depois, estando validadas, comunicam-nas à sociedade. Usando uma metáfora jornalística, os cientistas são os «enviados especiais» da Humanidade às fronteiras do conhecimento. Portanto, há um aspeto importante na comunicação de ciência, sob a forma de livros, de audiovisuais ou até de manifestações artísticas: mais do que o conhecimento em sim, como se diz hoje os conteúdos, importa cada vez mais comunicar o modo como se alarga o conhecimento. Isto é, mais do que as descobertas da ciência, interessa o método da ciência. As descobertas vão sendo diferentes, mas o método - observação, experimentação, raciocínio lógico - permanece. A comunicação de ciência poderá melhorar muito neste aspeto, a começar pela comunicação formal que se faz na escola. Neste mundo em que a verdade e a mentira parecem indistinguíveis, importa saber vincar a distinção. Os cientistas sabem fazê-la com o seu método. Mas todos lucrariam sabendo e aplicando os elementos essenciais desse método - não se enganaria tanto.”

Na Introdução de Toda a Física Divertida, o cientista repete as palavras da primeira edição (1990) ao dizer que “os bonecos do José Bandeira têm piada, mesmo que o texto não tenha. Quem não saiba ler veja os bonecos”. Carlos Fiolhais decidiu repetir a frase por achar que a poderia manter: “É, obviamente, um elogio ao José Bandeira, que fez muitos bonecos para o Diário de Notícias, e ambos oferecem uma garantia de qualidade.”

Segue outra questão visual: se tivesse escrito este livro agora, teria escolhido outros exemplos além de Eça de Queiroz e a marinha portuguesa, por exemplo, para explicar fenómenos e leis da Física ou 35 anos depois a cultura do leitor não mudou tanto assim? Fiolhais desmistifica: “Sempre gostei de relacionar física e literatura. Escrevi um opúsculo sobre a ciência na poesia portuguesa no século XX.  Um dos recursos da comunicação da ciência é a aproximação às artes. Ciências e artes são distintas, mas podemos ensaiar construir pontes entre elas. As artes têm a vantagem de gerarem emoções e sentimentos, isto é, de terem uma receção mais rápida. Usei o Eça de Queiroz e o Gabriel García Márquez por serem autores de grande qualidade e continuidade garantida. Por exemplo, Eça fala do mau estado de navios do século XIX e veja-se hoje o que aconteceu recentemente no navio «Mondego» da Marinha. García Márquez fala dos feirantes que faziam habilidades circenses para impressionar os habitantes de Macondo, e hoje veja-se o que fazem os feirantes da Internet para chamarem a atenção. O que procurei foi evidenciar a física que havia na flutuação dos barcos e nos truques dos artistas que usavam gelo e ímanes.”

Ou seja, a Física está repleta de boas histórias, como a que Fiolhais escolhe ao referir a peça Copenhaga, de Michael Frayn. Como obtém estas referências históricas e literárias, pergunta-se: «Os jornalistas sabem bem como as histórias servem para comunicar. Os seres humanos gostam de contar e de ouvir histórias. Lembramo-nos mais depressa de uma história do que de um facto isolado a meio dela.  A relação da ciência com o teatro tem sido muito explorada recentemente. Tive um estudante de doutoramento, encenador e ator, que fez uma tese sobre o modo como os primeiros cientistas foram vistos pelo teatro do século XVI e XVII. Não esqueçamos que Shakespeare é exatamente contemporâneo de Galileu: ambos nasceram em 1564 - o nosso Gil Vicente é um pouco anterior. Brecht escreveu uma grande peça sobre a vida de Galileu, que já vi, e agora está na Broadway de Nova Iorque um teatro musical sobre Galileu que gostaria de ver.  Quanto à peça Copenhaga vi-a há muitos anos no Teatro Aberto - foi a última representação da grande Carmen Dolores, que fez de mulher de Niels Bohr - e conta a história de dois amigos que deixam de o ser, Niels Bohr e Werner Heisenberg, que ilustra no domínio das relações humanas o que pode ser visto como um «princípio de incerteza». Como sei estas referências?  Já levo uns anos de vida, mas a memória ainda não falha muito.”

Ao referir a idade, recorda-se que Fiolhais afirma que a IA é contemporânea da sua vida e têm os dois a mesma idade. No entanto, apesar do salto tecnológico desta, acha que a IA é uma “cópia tosca” dos seres humanos. Será que o físico irá morrer nessa crença ou partirá mais assustado quando chegar a sua hora? Conclui o seguinte: “Claro que estou curioso porque viver é estar permanentemente curioso quanto ao futuro. Posso estar enganado - oxalá não esteja -, mas estou em crer que o ser humano tem coisas imitáveis por uma máquina e outras que não são. A genialidade na ciência ou na arte, mas também o afeto, a crença e a consciência. Não tenho receio de que os robôs substituam os humanos. Não têm corpo como nós, nem têm laços como nós temos entre uns e outros.”

TODA A FÍSICA DIVERTIDA

Carlos Fiolhais

Gradiva

349 páginas

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DE A a Z

Carlos Fiolhais

Gradiva

173 páginas

Lançamentos

Guerra indesejada

Esta semana cumprem-se quatro anos sobre a invasão da Ucrânia pela Federação Russa e acabou de estar disponível um bom dicionário para se esclarecerem todas as lacunas sobre esta situação dramática que trouxe a guerra de novo à Europa. Na capa, uma meia sobrecapa mostra os dois rivais: Zelensky e Putin. Não serão exatamente rivais, antes o representante de um povo agredido e um agressor, que decidiu deixar uma profunda marca na história do país que governa. O autor explica do volume em 46 respostas as questões que a invasão levanta ao nível do direito internacional, as quais considera “não ser uma tarefa particularmente complexa” pois o ato de Putin é uma “flagrante violação”. Interessante é ver nestas páginas como a maioria dos países, designadamente os europeus, falharam no evitar deste conflito e puseram as suas fronteiras e os princípios democráticos em causa ao assistirem passivamente à anunciada invasão da Ucrânia.

GUERRA, MENTIRAS e DIREITO INTERNACIONAL

Francisco Pereira Coutinho

Zigurate

218 páginas

Obra-prima

Na badana de O Primeiro Amor estão impressas várias opiniões sobre um dos mais importantes escritores russos, Ivan Turguéniev: “mestre” por Nabokov, “sensibilidade” por Henry James, “delicado” por Rilke, “profundidade” por Flaubert… não faltam considerações sobre o autor desta novela de 1860 com que a editora inicia uma coleção de clássicos da literatura, numa primeira fase da Rússia. Seguem-se em março e abril De Quanta Terra Precisa o Homem de Tolstói e Gente Pobre de Dostoiévski. O Primeiro Amor é um clássico que exibe a dupla formação de um escritor fortemente entroncado na vivência russa e inspirado na civilização europeia do seu tempo, de onde só poderia nascer esta história a explicar como o amor surge e pode ser eliminado perante uma ingenuidade devastadora. 

O PRIMEIRO AMOR

Ivan Turguéniev

Alma dos Livros

118 páginas

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt