Orquestra Indígena do Brasil traz jovens indígenas e músicos madeirenses aos palcos em Portugal.
Orquestra Indígena do Brasil traz jovens indígenas e músicos madeirenses aos palcos em Portugal.Foto: Caroline Ribeiro

Com "DNA musical de um Brasil profundo", Orquestra Indígena traz celebração de duas culturas a Portugal

Grupo é formado por 20 músicos originários das etnias Terena e Guarani. Espetáculo faz fusão entre ritmos ancestrais do Brasil e a tradição musical portuguesa, com artistas madeirenses no palco.
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Arapy Aguasu significa, na língua Guarani, um "sinal do céu para uma grande comemoração". Sem dúvidas, é uma celebração o que a Orquestra Indígena do Brasil traz aos palcos europeus com este concerto. "Está sendo incrível, poder realizar um sonho e representar toda a etnia", diz ao DN Brasil Helaine Mendes, uma das violinistas do grupo, que está em Portugal para a estreia da sua primeira turnê internacional.

A Orquestra Indígena é formada por 20 músicos originários das etnias Terena e Guarani. Fundada em 2016 na Aldeia Urbana Darcy Ribeiro, no Mato Grosso do Sul, estado que concentra a maior parte do Pantanal brasileiro, é fruto de um projeto social da Fundação Ueze Zahran que oferece ensino gratuito de instrumentos clássicos a crianças e adolescentes indígenas.

Helaine, hoje com 19 anos, começou as aulas no projeto aos 16. Esta é a primeira viagem para fora do Brasil e a primeira grande empreitada como uma aspirante à profissional na música. "Nunca imaginei isso, é maravilhoso", confessa, e diz que quer ser "uma inspiração" para outros jovens a "nunca desistirem dos seus sonhos".

Helaine Mendes, de 19 anos, toca violino e conta ao DN Brasil que quer inspirar outros jovens na música.
Helaine Mendes, de 19 anos, toca violino e conta ao DN Brasil que quer inspirar outros jovens na música.Caroline Ribeiro

O DN Brasil acompanhou o ensaio do grupo para a única apresentação em Lisboa, na Casa da América Latina, que, horas antes da abertura das portas, já concentrava um grande número de pessoas na fila, para garantir um lugar. Dentro do auditório, os testes de luz, som, afinação de instrumentos, e, o principal, a passagem do repertório, são feitos com toda a seriedade - e felicidade - que a música profissional exige.

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No palco, os violinos, violoncelos e outros instrumentos clássicos tão conhecidos juntam-se a chocalhos, pandeiro e berimbau. "A gente tá trazendo tudo aquilo que pode de melhor do nosso país, da forma mais condensada possível", explica ao DN Brasil o maestro, Eduardo Martinelli, diretor da orquestra, que é também maestro da Orquestra Sinfônica de Campo Grande e um dos expoentes da música sul-mato-grossense. "As pessoas têm se surpreendido muito e a gente tem se surpreendido com as reações das pessoas. Não é um espetáculo puro folclórico. Nós temos elementos muito desenvolvidos intelectualmente da música de concerto, mas tendo como origem para a construção disso tudo uma coisa muito sincera e ainda desconhecida, um DNA musical de um Brasil profundo, e a gente tem visto como as pessoas ficam emocionadas, choram", completa o maestro.

Norberto Cruz, Diego Vieira, Eduardo Martinelli e Karly Maciel no ensaio.
Norberto Cruz, Diego Vieira, Eduardo Martinelli e Karly Maciel no ensaio.Caroline Ribeiro

E se o DNA brasileiro é comprovado pela Ciência, resultado de uma mistura de séculos e séculos, o espetáculo Arapy Aguasu - Sinfonia Entre Dois Mundos não poderia ser diferente. A criação é de Martinelli em parceria com Norberto Cruz, músico e maestro português, da Ilha da Madeira, que é uma referência internacional no bandolim. "As coisas primeiro nasceram de uma amizade muito grande que tenho com o Eduardo. Falamos sobre o que poderíamos fazer do trabalho dele com a Orquestra Indígena, juntando com os nossos músicos da Ilha da Madeira", destaca Norberto ao jornal.

O resultado é uma "celebração das marés e das matas", diz o músico, numa menção ao oceano que une Brasil e Portugal e à natureza que permeia o Pantanal brasileiro e a Ilha da Madeira. No palco, o bandolim madeirense e os demais artistas da ilha, além de Norberto, completam a fusão cultural do espetáculo.

"A meu ver a importância disto acontecer cá em Portugal vem pelo fato de olharmos também para o futuro. Sabemos o que acontece no mundo hoje, estamos a ver as discrepâncias, tudo é muito divisório, em tudo o que chamamos de 'fronteiras políticas'. Quando nos juntamos e fazemos projetos deste tipo, aumentam as nossas fronteiras culturais", afirma o português. "O espetáculo como um todo está trazendo uma nova linguagem musical para o mundo, disso não tenho dúvidas", completa Eduardo Martinelli.

Ensaio do grupo para a apresentação na Casa da América Latina, em Lisboa, que teve auditório lotado.
Ensaio do grupo para a apresentação na Casa da América Latina, em Lisboa, que teve auditório lotado.Caroline Ribeiro

Antes da capital, a orquestra realizou duas performances no Funchal, na Madeira, para abrir a turnê. "Está sendo muito bom viajar para lugares que eu não pensei que ia sair se não estivesse com a orquestra", diz Diego Vieira, de 13 anos, que há três entrou no projeto e toca violoncelo.

Para a violinista Karly Maciel, de 19 anos, que começou no projeto ainda criança, aos nove, a experiência tem sido também para mostrar o valor da cultura originária do povo brasileiro. "Eu acho que além do Brasil reconhecer a gente, vamos levar a cultura indígena para fora do Brasil e debater preconceito, é a gente ter um lugar pra gente. Estou muito feliz", conta a artista.

De Portugal, a orquestra segue para Barcelona, na Espanha, onde vai fazer shows de 2 a 7 de setembro.

caroline.ribeiro@dn.pt

Este texto está na edição impressa do Diário de Notícias de segunda-feira, 1 de setembro de 2025.

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