Uma nova vaga de Jacques Rivette em Lisboa

A partir de hoje e até dia 13, há dez filmes de Jacques Rivette (1928-2016) para reencontrar. "Paris Nous Appartient" abre o ciclo.

Jacques Rivette deixou-nos no início deste ano. O cineasta que, tal como os seus compagnons de route Claude Chabrol, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Éric Rhomer, chegou ao cinema através da crítica nos Cahiers do Cinéma será homenageado pela Cinemateca nos próximos dias, com um ciclo de dez filmes a começar hoje.

Antes do mais, sublinhe-se que inestimável foi o seu contributo para o estabelecimento da famigerada política dos autores ao longo da década de 1950. E, justamente, nesse percurso teórico ganhou as bases de uma aprendizagem que se prolongaria na assistência de realização - em filmes de Jean Renoir e Jacques Becker - até, finalmente, se tornar senhor dos seus próprios filmes.

Com efeito, Paris Nous Appartient (1961) será a sua primeira longa-metragem e aquela que também hoje inicia esta mostra intitulada Dez Vistas de Jacques Rivette. Uma obra que acaba por veicular, na aceção do termo, uma extraordinária tomada de vista sobre a cidade de Paris, esse palco da flânerie que seduziu todo o cinema da nova vaga francesa e ao qual o cineasta regressou uma e outra vez.

Mas, ainda que se lhe possam encontrar vários pontos de articulação com os seus pares desta corrente, a verdade é que Rivette foi o mais enigmático deles todos, desfiando uma série de filmes que ilustram uma visão da realidade como pura mise-en-scène: palco contíguo entre o fôlego da vida e da ficção.

Isso mesmo testemunhamos, num particular lance de arrojo experimental, em L"amour Fou (1964), terceira longa-metragem, com quatro horas de duração, que confunde a crise de um casal com os ensaios da peça Andrómaca, de Racine. Por sua vez, Rivette também se reservou para algumas adaptações literárias, da forma mais inventiva possível, sendo o oitocentista Honoré de Balzac uma evidente preferência.

Neste ciclo encontramos, por isso, dois momentos da sua filmografia que mergulharam na escritura do autor: o fascinante La Belle Noiseuse - Divertimento (1992), uma espécie de combate criativo entre um pintor (Michel Picolli) e a sua modelo (Emmanuelle Béart), e Ne Touchez pas la Hache (2007), um filme com contornos e ingredientes narrativos de época (bailes, tumultos, missivas...), que permitiu ao cineasta explorar a subtileza irónica e a predisposição teatral.

Até ao dia 13 de julho, é possível descobrir também, ou revisitar, Noroît (1976), Le Pont du Nord (1981), Merry-Go-Round (1981) - a saga da busca de uma mulher desaparecida em Paris, com uma jovem Maria Schneider, que já contava com O Último Tango em Paris no currículo - Céline et Julie Vont en Bateau (1974), a curta-metragem Le Coup du Berger (1956), que acompanha a sessão do último filme realizado por Rivette, 36 Vistas do Monte Saint-Loup (2009), e O Bando das Quatro (1989), com Inês de Medeiros a integrar o elenco, um grupo de amigas que frequentam a mesma escola de teatro. E o teatro, não nos esqueçamos, é a pedra-de-toque de toda a obra.

Para falar dos filmes de Jacques Rivette, o crítico e teórico Dominique Païni usou uma expressão justíssima: "Ciladas ficcionais." Guardemo-la como uma deliciosa advertência e convite.

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