Um outro Duvivier. Edgar sentou Clarice Lispector no Rio

Pai do humorista Gregório e filho do também escultor (e também) Edgar Duvivier, é autor da estátua inaugurada recentemente no bairro carioca do Leme

Falamos com Edgar Duvivier ao telefone, mas desde o início parece que nos recebe em sua casa no Rio de Janeiro, num daqueles "cafés da manhã" de domingo a que, por brincadeira, chama "coloniais". Aqueles que o filho Gregório (isto explica as parecenças físicas) falha meses a fio. Porque "não para". Agora mesmo, aliás, o humorista do coletivo Porta dos Fundos está em Portugal com a peça Uma Noite na Lua.

Edgar é pai de Gregório - assim como de Bárbara e Theodora - e, por sua vez, filho do escultor e da pianista Edgar e Ivna Duvivier. É dele, escultor e músico, a estátua de Clarice Lispector que desde há pouco mais de uma semana figura no bairro carioca do Leme, perto do lugar onde a escritora brasileira viveu.

Clarice (1920-1977) e o seu cão Ulisses têm sido protagonistas de contínuas selfies e outras fotografias desde que, em bronze, se instalaram ali, com o morro Dois Irmãos ao longe. É a primeira estátua de uma mulher artista no Rio e nasceu de um convite de Teresa Monteiro, biógrafa de Clarice, e de Beth Goulart, que na peça Eu, Clarice Lispector interpreta a autora que nasceu na Ucrânia, de onde a sua família fugiu devido à perseguição aos judeus. Faltava o dinheiro.

Um dia, Edgar foi ver um jogo de ténis com o filho e disse-lhe: "Cara, que coisa incrível, a gente não conseguiu dinheiro, não entendo como não chovem patrocinadores." Então Gregório ofereceu-se para dar os 80 mil reais (cerca de 20 mil euros) necessários. "Ia ser legal, bota lá: "Gregório Duvivier dá para a cidade". O prefeito já odeia ele, que vive entrando em polémica..."

Edgar, de 61 anos, vai contando isto num tom satírico - quase dando vontade de associar o adjetivo ao apelido Duvivier. A solução encontrada foi vender 40 miniaturas da escultura para pagar a Gregório. Voaram num ápice. E ele, que tinha 22 anos quando Clarice morreu e nunca se cruzou com ela, demorou dois meses para levar a escritora de volta ao seu Rio de Janeiro. "Foi legal fazer uma mulher, normalmente eu faço homens e, na maior parte do tempo, feios."

Edgar foi criado numa casa que era uma espécie de ateliê. Foi também assim que cresceram os seus filhos. "As pessoas diziam: você dá muita folga para esse moleque", conta, referindo-se a Gregório, que ele julgou que viria a ser advogado - tal como ele foi durante um ano -, e que em pequeno lançava palpites sobre as obras do pai.

Quando falámos, o Presidente interino do Brasil, Michel Temer, havia extinguido o ministério da Cultura. Agora voltou atrás. "É um sem vergonha, como toda a corja que está aqui agora. A gente entrega um país que tinha corrupção para um bando de corruptos mais profissionais ainda. Mas essa é uma outra história." Para outra altura.

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