Salaviza arranca a bela fornada nacional do Curtas

Esta noite começa a competição nacional. Uma rica amostra de um estado de plena vitalidade do cinema português. Salaviza e Gabriel Abrantes estão no primeiro lote.

O Curtas deste ano, tocado pelo bonito aniversário, 25 anos, está especial. Teve um fim de semana de abertura com curtas-metragens de respeito na secção Da Curta à Longa, abertura da exposição A Glória de Fazer Cinema em Portugal, lançamento do livro comemorativo e já alguns cineconcertos. Mas hoje começa a secção nacional, de todas a mais esperada. É sempre assim e este ano ainda mais, sobretudo porque junta nomes sonantes como João Pedro Rodrigues, Gabriel Abrantes, João Salaviza, entre outros, com autores de uma novíssima geração.

Esta noite, às 21.15 na sala 1 do Teatro Municipal, são três os concorrentes que arrancam com a competição nacional. As hostilidades começam com Água Mole, de Laura Gonçalves e Xã (Alexandra Ramires), uma animação que já tinha sido vista em Cannes, na secção Quinzena dos Realizadores.

Uma pequena pérola com chancela da Bando à Parte, produtora de Guimarães que ao mesmo tempo que cria projetos em parceria com Jim Jarmusch aposta também na animação (e vem aí longa...), capaz de fazer uma reflexão sentida sobre aqueles que decidem não sair da província. Uma animação com suportes de documentário e uma delicadeza feminina que causa arrepios de alma.

É seguramente uma das melhores curtas que vamos ver em competição, mas nessa mesma sessão coração ao alto com o novo de João Salaviza, Altas Cidades de Ossadas, projeto feito em sintonia com o rapper crioulo Karlon. Uma mudança de estilo para um dos príncipes do novo cinema português.

Salaviza asfixia-nos de forma inebriante numa viagem às origens de Karlon. Entre o fantasmagórico e o tal novíssimo realismo, é objeto que nos desconcerta. Tal como no cinema de Pedro Costa, o espectador aqui precisa de tempo para digerir estas imagens.

Pelo meio da sessão, Verão Saturno, de Mónica Lima, lindíssimo retrato de uma juventude portuguesa constrangida pela crise económica. História de um jovem músico radicado em Berlim que viaja até Lisboa para um concerto e que se instala na casa da mãe da namorada. Entre os dois há atração da ordem do indizível.

Mónica Lima filma tudo com silêncios estarrecedores e uma câmara que sabe seduzir com pequenos deslizares suaves. Aliás, tudo é suave e natural, em especial o sereno Jaime Freitas, ator que representa com uma ternura cativante, e uma Rita Loureiro que nos faz bater o coração mais forte. Enfim, uma sessão que tem logo três grandes favoritos ao prémio de melhor curta nacional.

Amanhã, à mesma hora, outro dos grandes momentos do cinema português nos últimos anos, a nova curta de Gabriel Abrantes, Os Humores Artificiais, a história de um robô que se torna artista de stand-up comedy. Abrantes brinca com Wall-E, da Pixar, e consegue coisa rara: uma nova forma de humor. Fez furor na competição de curtas da Berlinale.

A acompanhar este feroz exercício de humor, O Homem Eterno, de Luís Costa, história de um emigrante no Canadá que se filma compulsivamente através de uma câmara Super 8. É um filme bem escrito, com boas intenções mas que acaba por cair na moda das curtas que falam sobre os avós. A sessão tem ainda Surpresa, de Paulo Patrício, outra animação documental que se arrisca a ser a Miss Simpatia do festival; e Thursday Night, de Gonçalo Almeida, 8 minutos sobre um cão de família que sente a proximidade de um outro cão com aparência fantasmagórica. Poderá ser uma chamada para a morte, poderá ser outra coisa. É com toda a certeza mais outra aposta válida de uma seleção nacional que se arrisca a ficar na história do Curtas.

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