O maestro explica as nove sinfonias de Beethoven

Entre hoje e sábado, Dia Mundial da Música, a Orquestra Metropolitana de Lisboa apresenta as nove sinfonias de Beethoven em quatro concertos no Terreiro do Paço. O maestro Pedro Amaral ajuda a apreciar a obra grandiosa

1ª e 2ª: as clássicas

Quando Beethoven compôs a sua primeira sinfonia já tinha quase 30 anos. Isto significa que se comparamos com o antecessor direto, que é Mozart, Beethoven compôs a sua primeira sinfonia quando Mozart já quase tinha terminado a sua obra orquestral: Mozart compõe as suas últimas três sinfonias aos 32 anos de idade. Quando Beethoven começa a sua obra, começa com a formação orquestral do seu tempo. É uma orquestra com oito madeiras (duas flautas, dois oboés, dois clarinetes, dois fagotes), quatro metais (duas trompas e duas trompetes), tímpanos e uma pequena secção de cordas com primeiros, segundos violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. Se há um mestre direto de Beethoven, foi Haydn. As duas primeiras sinfonias de são absolutamente clássicas, seguindo o modelo mozartiano e haydeniano para esta orquestra standard dos predecessores.

3ª: revolução ternária

E na 3ª ele tem uma ideia extravagante. É uma sinfonia muito ligada à ideia de revolução francesa: Liberté, Égalité, Fraternité. E isso encarnou no espírito de Beethoven uma espécie de obsessão com o número três. Beethoven compõe uma obra que é a sua terceira sinfonia, grande parte da qual em ritmo ternário. Acrescenta uma terceira trompa que desequilibra a secção dos metais. É um desequilíbrio positivo mas é um tanto revolucionário. É uma obra de corte cuja duração ascende a cerca de 50 minutos, quase o dobro da duração da maior parte das sinfonias dos predecessores. É uma sinfonia enorme e desmesurada em tudo, nas tensões que cria e resolve, é uma obra heróica e justamente intitulada Eroica. E ele tê-la-ia dedicado a Napoleão Bonaparte, fascinado com a ideia da democracia mas conta-se que Beethoven quando soube que Napoleão não era apenas o cônsul que lutava pela democracia mas que se coroou a si mesmo imperador, a desilusão foi tanta que ele terá imediatamente riscado a dedicatória. Nessa sinfonia há uma marcha fúnebre que ocupa o andamento lento e, mais tarde, quando Napoleão falece, Beethoven dirá, numa frase frase célebre: "escrevi há muitos anos a música para esta ocasião", referia-se à marcha fúnebre da 3ª sinfonia. Portanto a 3ª é um salto para Beethoven e para a história da música nos primeiros anos do século XIX.

4ª: o eterno mistério

Na 4ª sinfonia parece que recua ligeiramente, porque é uma obra mais clássica. Mas é um recuo estranho, porque se é uma obra toda ela muito equilibrada nas suas proporções, e é uma obra de caráter muito mais classicizante que a 3ª ou a 5ª (é famosa a ideia de Schumann, segundo a qual a 4ª é uma beleza helénica entre dois gigantes nórdicos...), mas se é uma obra muito classicizante tem uma introdução lenta, à maneira de Haydn; e esta é absolutamente misteriosa e inexplicável, um pedaço de música absolutamente denso, profundo, mas que não sabemos o que significa comparado com tudo o resto. É alguém que, jovial e apaixonado, tem ali um momento de profunda dúvida existencial. Beethoven nunca explicou nada, semeou dúvidas nas suas obras sobre as quais teve a prudência de nunca se pronunciar.

5ª: rutura histórica

A 5ª é um salto gigantesco. É uma obra notável a todos os níveis. Os três primeiros andamentos são compostos para um modelo orquestral herdado de Mozart e de Haydn. Subitamente, no fim do terceiro andamento, Beethoven começa a deixar cair a textura até criar um contexto de quase música de câmara. Ele reduz, reduz, reduz. E, de repente, no quarto andamento de um momento para o outro, sem qualquer transição, deixa-nos cair em cima uma dimensão quase sinfónica! Ele acrescenta apenas cinco instrumentos que, sendo poucos, criam uma textura acústica monumental. São três trombones, um contra-fagote e uma flauta piccolo. É o embrião de orquestra romântica. E ele faz isso com uma ciência maravilhosa, é como se nos levasse pela mão e dissesse "esta é a orquestra clássica que nos habituámos a ouvir há meio século, diria ele nos anos 1804/1805, agora vejam como é possível transformar isto radicalmente e abrir um rasgão para outro lado". Ele ainda não sabia mas esse outro lado era a orquestra do século XIX, que irá atravessar a produção sinfónica de Schubert a Bruckner e Brahms. Esta profética 5ª sinfonia de Beethoven é um momento magistral na história da música.

6ª, 7ª e 8ª: textura reduzida

A textura reduz de modos diversos na 6ª, na 7ª e na 8ª. São três obras completamente diferentes. A 6ª é uma sinfonia pastoral. O modelo original não é de Beethoven mas de um compositor menor, hoje completamente esquecido, chamado Justin Heinrich Knecht, que fez uma obra em tudo semelhante à do mestre de Bona, embora sem sombra de génio, 30 anos antes. Cada andamento conta uma parte da narrativa que é, no fundo, a do citadino que vai para o campo e mergulha em sentimentos bucólicos, nessa espécie de paraíso perdido do ideal romântico. Ele descreve a tranquilidade de um encontro à beira de um regato, uma tempestade com o pânico que a acompanha, a acção de graças quando ela passa, etc.

9ª: sinfonia desmesurada

A 9ª sinfonia é uma sinfonia que nos transporta para outra dimensão. Desde logo poética, com o extraordinário poema de Schiller, a Ode à Alegria, que é um poema em si maravilhoso. Aconselho o exercício de ler o poema e tentar acompanhar a música simultaneamente, porque a incarnação musical do poema, a maneira como Beethoven põe em cena, qual encenador magistral, os versos de Schiller é de ir às lágrimas. É um imenso salto, desmesurado em todos os sentidos. Orquestralmente é uma orquestra muito maior, tem piccolo e contrafagote, tem quatro trompas, três trombones, tem uma mais vasta secção de percussão mas mais que isso, tem coro, tem solistas, e tem uma duração de uma hora e 15 minutos que ultrapassa todos os limites da época. É Beethoven a ultrapassar-se a si próprio, a ir mais longe, a superar o seu tempo e a empurrar a música para um tempo que não chegará a viver, mantendo-se como figura tutelar determinante até à aurora do século XX.

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