Visabeira paga cinco mil euros/ano por hotel no Mosteiro de Alcobaça

Num projeto de 15 milhões e com assinatura do arquiteto Souto de Moura, o grupo Visabeira vai recuperar o claustro do Rachadouro, sem utilização há 15 anos, desde que dali saiu um asilo

"Está a ver esta janela? Praticamente cabe aqui um chuveiro!" O arquiteto Eduardo de Souto Moura apontava assim, ontem de manhã, para um dos exemplos que vão tornar possível a transformação de uma parte do Mosteiro de Alcobaça num hotel de charme, a inaugurar em 2019, "alterando o menos possível no edifício".

Souto Moura falava no final da assinatura do contrato de concessão do Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça, entre a Direção-Geral do Património Cultural e o grupo Visabeira, testemunhado pelo ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes. Válido por 50 anos, o contrato permitirá àquele grupo económico construir ali uma unidade hoteleira de cinco estrelas, em três pisos, com 81 quartos e nove suites, uma ampla zona de serviço, spa, ginásio, para além de espaços multifacetados para a organização de congressos e eventos diversos.

Depois de vencer um concurso público internacional, a Visabeira propõe-se fazer ali um investimento na ordem dos 15 milhões de euros, pagando ao Estado uma renda anual de apenas cinco mil euros, mais IVA. Na manhã de ontem, depois de visitar o edifício - cuja degradação se acentuou nos últimos 15 anos, desde que ali deixou de funcionar um asilo - o arquiteto quis aproveitar a oportunidade "de ter aqui um conjunto de pessoas que não se encontra todos os dias juntos para lhes dizer que preciso de ajuda". Na verdade, apesar de prever apenas a mudança de seis portas em todo o Mosteiro, sem demolir qualquer parede mestra, Souto Moura mostrou-se preocupado com os acessos, tendo em conta que "não estamos numa zona urbana como Lisboa ou Porto, em que as pessoas têm transportes públicos para lá chegar".

"Antes de fazer o projeto final, vamos construir um inventário de questões. Por exemplo, ainda não se sabe bem onde é a entrada. Tem de haver acessibilidades para carros e autocarros, estacionamento e tratamento de arranjos exteriores", disse, embora logo o presidente da Câmara de Alcobaça o tenha descansado: "Estamos altamente empenhados em resolver todas as questões urbanísticas na envolvente do hotel e continuará o seu trabalho até que todos os obstáculos sejam ultrapassados." Paulo Inácio, que se bateu desde o início pela ideia do hotel no Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, lançada pela DGPC, acredita que o monumento (Património da Humanidade) "pode e deve ser uma âncora de desenvolvimento, um polo gerador de riqueza e de emprego, ao serviço da comunidade". A recuperação dos jardins do Obelisco, bem como a integração de uma zona comercial no projeto, permitirão ao público em geral usufruir do espaço.

Abaixo o ar condicionado

Lá dentro, o desafio de Souto Moura (apoiado pelos arquitetos e projetistas do grupo Visabeira, liderado por Margarida Mesquita) é "alterar o menos possível". "Em relação a outros edifícios que fiz, há uma questão que consegui ultrapassar aqui: não usar ar condicionado. Dá cabo dos edifícios todos e não é preciso para nada. Olhando para estas paredes, que têm dois metros de espessura, não é preciso fazer frio, apenas aquecer." Depois, "há os espaços coletivos, onde temos de fazer a renovação. No fundo são as infraestruturas, acessibilidades verticais, elevadores", sem esquecer a magnífica sala da Biblioteca, onde decorreu a cerimónia, e para a qual "é preciso arranjar livros".

Se é verdade que "cada caso é um caso", o arquiteto não consegue estabelecer comparação entre aquele claustro do Rachadouro e outros edifícios já por si modificados. " Acho graça aos congressos sobre restauro e património, que são uma espécie de pantagruel da arquitetura em que se fazem as receitas. Cada caso tem as suas especificidades". Feita a primeira parte do projeto, "agora o resto deve demorar uns nove meses. É uma criança", conclui, certo de que as obras poderão avançar no início do próximo ano, de modo a estarem concluídas em 2019, como é vontade coletiva.

Paula Silva, que tutela a DGPC, adiantou ao DN outros projetos para o Mosteiro, a candidatar ao programa Portugal 2020. Um deles é a mudança da entrada, "que deixa de ser pela Igreja e vai passar a fazer-se por uma entrada própria, à esquerda, quando de frente para o mosteiro".

O ministro Luís Filipe de Castro Mendes apanhou o processo já em andamento. Em fevereiro, quando a comitiva esteve no local, era ainda João Soares quem tutelava a Cultura. Mas o projeto merece-lhe toda a atenção, até porque considera o Mosteiro de Alcobaça "uma das principais joias do património português". Acresce que essa reabilitação vai fazer-se através do envolvimento "da sociedade civil, de um parceiro privado, e da Câmara Municipal de Alcobaça, que sempre se empenhou nesta solução. Ora, esse é o tipo de parceria, que eu não hesito em qualificar de estratégica, que é verdadeiramente modelar". Castro Mendes acredita que é esse o caminho. "E é também uma boa ocasião para voltar a apelar à mobilização dos privados e do poder local para, ao lado do Estado central, podermos ser criativos na formulação de parcerias em prol não apenas da recuperação patrimonial, mas também em todos os outros domínios da nossa vida cultural", considera.

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