Uma monstruosa produção que junta 300 amadores em palco

Quase 300 pessoas, de vários coros amadores, juntam-se em palco na produção europeia de O Monstro no Labirinto

"O Monstro no Labirinto", a partir do mito de Minotauro, é uma ópera comunitária que envolve músicos e coros de crianças, jovens e adultos amadores. Começou a ser preparada há um ano

Maria José Vieira lembra-se do momento, há um ano, em que o Sérgio Fontão, diretor coral do Polyphonia Schola Cantorum, desafiou o grupo, amador, a participar na ópera O Monstro no Labirinto, que hoje, amanhã e sexta-feira se estreia no grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. "Disse-nos para meditarmos e depois dizermos se aceitávamos ou não", recorda a tradutora, no coro há 43 anos. Em cima da mesa estavam os obstáculos que pôr de pé esta produção implica: um compromisso mais a encaixar nas vidas de quem não faz da música profissão. "Uma exigência enorme e uma agenda difícil de cumprir", resume, no intervalo do ensaio de segunda-feira, no foyer da Gulbenkian.

"Sinto que é um privilégio muito grande". É algo completamente diferente do que está habituada. O Coro Polyphonia canta sobretudo música sacra. "E eu estava habituada a cantar sempre com uma pauta à frente, sempre pregada ao chão...", conta.

Em novembro, começaram a trabalhar na ópera Monstro no Labirinto, música de Jonathan Dove, libreto de Alasdair Middleton, ambos britânicos, e versão portuguesa de Tiago Marques. O mesmo aconteceu com o Coro Regina Coeli de Lisboa, o Spatium Vocale, o Coro de Câmara da Academia de Amadores de Música, o Coro Juvenil da Academia de Música de Santa Cecília, o Coro Juvenil Euterpe, o Musaico e o Coro Infanto-juvenil da Universidade de Lisboa, onde canta Margarida Rosa, quase 12 anos, uma das crianças que terá lugar de destaque na ópera. O ritmo de ensaios foi tão intenso como o dos adultos: "Todas as semanas", diz a menina.

"Escolhemos coros que nos davam todas as garantia de que fariam um bom trabalho. Queremos proporcionar uma boa experiência aos participantes, mas também queremos proporcionar um espetáculo de bom nível aos espectadores da Gulbenkian", afirma Sérgio Fontão. "O que lhe foi exigido foi o mesmo que exigimos a profissionais. Foram espremidos até à última gota, pode citar". Os bilhetes para as três récitas, 1200 por dia, estão esgotados.

A conversa com Margarida Rosa é interrompida pelas indicações da encenadora, Marie-Eve Sygneyrole. "A partir de amanhã tudo o que dissemos tem de estar aqui [aponta para a cabeça]", pede. Ontem, o ensaio fez-se com público - a família. "Quase todos estão a fazer tudo bem, mas basta um ou dois não fazerem para estragar o quadro", diz, voz firme. Durante o ensaio, interrompe uma cena para pedir, com a mesma firmeza, que se mantenham quietos em palco. A agitação infantil é cortada de imediato. "Silence, s"il vous plaît. Silence, please". No intervalo volta a frisar o que já tinha dito no ensaio: "Olhem para o público".

"Neste momento, precisamos que confiem mais neles próprios. Lembrá-los da essência do projeto. Primeiro precisamos que cantem e que cantem juntos, depois voltamos ao princípio - o que querem mostrar aos outros? O que sentem quando cantam e se mexem? Temos de lhes lembrar a história do projeto, afirma a encenadora em entrevista ao DN, antes do ensaio.

A história, a partir do mito grego do Minotauro, é esta, explicada pelo Rei Minus do espetáculo, o ator Fernando Luís: "É ele que vai espoletar toda esta tragédia, porque lhe matam o filho e vai pedir a todos os atenienses que lhe entreguem os jovens e os filhos para serem entregues em sacrifício ao Minotauro num labirinto em Creta". É deste lugar, arquitetado por Dédalo (o barítono Rui Baeta, que serão resgatados por Teseu (o tenor Carlos Cardoso). Outros profissionais se juntam: músicos da Orquestra Gulbenkian e do coro da Fundação, e a meio-soprano Cátia Moreso, no papel de mãe de Teseu.

O Monstro no Labirinto começa com "a encomenda do Festival Aix-en-Provence para fazer um trabalho com amadores", precisa Marie-Eve Sygneyrole, e é uma coprodução com a Filarmónica de Berlim e a Orquestra Sinfónica de Londres. Na sua encenação contemporânea, com recurso a câmaras que dão uma visão de conjunto do grupo e vídeos na água, a ópera traz para o palco a crise de refugiados.

A encenadora elenca três camadas de leitura de O Monstro no Labirinto. "A desproporção dos homens e de todas as formas de ditadura; o círculo infernal de vingança, que engendra violência, que cria humilhação...; quando se enfrenta um monstro é preciso ter atenção para não ser mais monstros do que os monstros".

"O que os amadores trazem [ao projeto] é uma verdade, qualquer coisa de atual. [A ópera comunitária] Permite trabalhar com u m grupo grande, porque do ponto de vista orçamental, o [espetáculo] participativo permite trabalhar com uma força enorme, o que se pode fazer menos com profissionais", diz Marie-Eve. A grande dificuldade, esclarece, é "reunir as pessoas e mantê-las por um ano". Depois, conjugar as agendas de crianças, jovens, adultos, seniores, mas, acrescenta, uma vez em marcha, "as pessoas sentem-se orgulhosas de fazer qualquer coisa juntas". E conclui: "É um projeto importante para as pessoas que o fazem, talvez mais do que para as pessoas que o veem."

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