Sete novas verdades sobre a Ópera do Tejo saem à luz

Não desapareceu completamente e foi mesmo inaugurada no dia de Páscoa de 1755. Durou apenas sete meses e ruiu com o terramoto. Mitos em torno do teatro mandado construir por D. José que caem por terra na investigação da historiadora luso-ucraniana Aline Gallasch-Hall de Beuvink, agora publicada no livro "Ressuscitar a Ópera do Tejo".

line Gallasch-Hall de Beuvink folheia com rapidez as páginas do seu livro explicando os sete mitos que caem por terra com a investigação que levou a cabo durante sete anos. Um deles, por exemplo, acaba com omito de que nada resta da Real Caza da Ópera, nome oficial deste teatro mandado construir na Rua do Arsenal, em Lisboa, por D. José. É uma das conclusões da historiadora que tem despertado mais atenções e é por aqui que a conversa começa na Sala dos Atos, na Universidade Autónoma de Lisboa, onde dá aulas.

Existe a ideia de que no pós-terramoto a nova Baixa Lisboeta se ergueu do zero, o que a professora universitária demonstra que não é certo, tanto pela observação do Tribunal da Relação, com alguns arcos e janelas que são o que se poderia chamar de "aproveitamentos" (fogem da geometria típica da Baixa Pombalina), e pela Igreja da Conceição que mantém o portal manuelino pré-sismo.

"Para quem vê isto", diz, apontando para a capa do livro e para a gravura de Jacques Philippe Le Bas (que ilustra esta página), "claro, a ópera desapareceu". "Aqueles mármores, aqueles bronzes, aqueles interiores, as madeiras exóticas, todos os efeitos decorativos que deslumbraram estrangeiros habituados a outros teatros na Europa e que ficaram maravilhados, é claro que isso desapareceu", concede Aline. "Só o esqueleto do edifício, de pedra, ficou. E, de facto, nós podemos, encontrá-lo". Refere-se aos arcos que se veem na imagem e que, segundo a sua investigação, são os que foram aproveitados para o edifício que atualmente pertence à Marinha. Como no Teatro da Ópera, em vez de terminar em bico, eram cortados. Exatamente como hoje, 260 anos depois.

Levantada a hipótese, comprovou-a empiricamente. "Mas voltei aos documentos". Que corroboraram a sua tese. "Sendo-me presentes as ruínas que padeceram os Edifícios da Ribeira das Naus (...) e a indispensável necessidade que há não só de reparar as sobreditas ruínas", diz, em português de hoje, o decreto de 5 de abril de 1757, da reconstrução. "Reparar, não construir", salienta.

A historiadora Aline Gallasch-Hall de Beuvink

A historiadora explica, aliás, que estas hipóteses começaram a ser levantadas antes da sua investigação. "Vieira da Silva já tinha mencionado que provavelmente havia na Sala do Risco um reaproveitamento", afirma, referindo-se ao olisipógrafo. "Porque não em outro sítio?", pensou Aline Gallasch-Hall, que com este Ressuscitar a Ópera do Tejo - O Desvendar do Mito (Caleidoscópio) sistematiza um dos capítulos da sua tese de doutoramento sobre teatros régios.

Outro historiador, Luís Soares Carneiro, acrescentou detalhes. "Disse que esta esquina deveria ser original", conta Aline, mostrando a planta com o traçado do engenheiro responsável para reconstrução da Baixa, Eugénio dos Santos, sobreposto à da cidade pré-terramoto. Coincidem. Quem passar na Rua do Arsenal pode vê-lo. Teatro e atual edifício do arsenal, ocupam o mesmo espaço.

Havia até o mito de que o palco começaria nesta esquina. Uma falsa perceção, segundo Aline. Sala e palco ocupavam a zona mais larga do edifício, a sua continuação, mais estreita, correspondia às dependências técnicas e camarins. A Ópera do Tejo era considerada um dos mais belos espaços da Europa, opiniões coligidas por Aline, no seu livro. "Não é mito", ri-se.

O teatro tinha espaço para 600 lugares e récitas duas vezes por semanas, às terças e quintas. O rei assistia sempre e a família era grande amante de ópera. De tal forma que o recinto foi inaugurado no dia de Páscoa de 1755, 31 de março, um dia santo. Era o aniversário da rainha Mariana e representou-se Alessandro Nel" Indie e La Clemenza di Tito. O rei ainda assistiu ao ensaio geral de Antígono, que ia estrear no dia 4 de novembro - outro detalhe em dúvida que Aline Gallasch-Hall confirmou.

Durante muito tempo pensou-se que teria estreado esta terceira peça, fruto de uma má leitura da documentação original. Dizia-se que o ensaio tinha sido no dia 8 outubro e que a estreia aconteceria duas semanas depois. O erro foi corrigido com nova leitura do documento, onde também se diz que Antígono deverá estrear no dia de S. Carlos Borromeu, isto é, 4 de novembro.

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