Olhos postos no Estado português amanhã no leilão da Sotheby"s

O Museu de Arte Antiga pediu ao ministério da Cultura para comprar A Anunciação, de Álvaro Pires de Évora. E agora?

Chama-se A Anunciação, terá sido pintado em 1434, e tem 30,5 por 22 centímetros. "Um pequeno foco de luz numa zona de trevas quase absolutas" da pintura portuguesa, afirma o conservador do Museu de Arte Antiga (MNAA) e especialista em pintura antiga, Joaquim Caetano. "Do meu ponto de vista, tudo o que seja mais de 50 mil euros para este quadro é um exagero", lança, por sua vez, Pedro Dias, professor catedrático de História de Arte da Universidade de Coimbra, aposentado, e comissário, em 1994, da única grande exposição em Portugal dedicada àquele que, não sendo o primeiro pintor português, segundo Dias, é o primeiro a quem é possível atribuir obra, explica Caetano: Álvaro Pires de Évora, que, apesar de ter vivido quase toda a sua vida em Itália, nasceu em Portugal no começo do século XV.

Se amanhã o Estado português cumprir o pedido do MNAA, feito ao Ministério da Cultura, para comprar o quadro no leilão da Sotheby"s, em Nova Iorque, com valor base de licitação entre 150 e 250 mil dólares (entre 121 e 202 mil euros), esta não será a primeira vez que a obra chega ao país do seu criador. Em 1994, o quadro chegou a Lisboa sob o braço do seu proprietário, da família de Heinz Kisters - que a vendeu a Konrad Adenauer, primeiro chanceler da Alemanha Ocidental, e depois a recuperou aos seus herdeiros - para a exposição Álvaro Pires de Évora : um pintor português na Itália do Quattrocento, comissariada por Pedro Dias, no âmbito das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

A Anunciação será, amanhã às 18.00 em Nova Iorque (23.00 em Portugal continental), o primeiro lote de um leilão que conta com Lucrécia, de Cranach, Santa Margarida, de Ticiano, ou uma paisagem de Brueghel e uma vista de Veneza de Canaletto, estes últimos com valores estimados entre três e quatro milhões de dólares.

Em 1994, como essa obra, recorda Pedro Dias, vieram outras que estavam "em Itália ou na Quinta Avenida, em Nova Iorque, em São Petersburgo, na Alemanha, na Suíça". Não vieram outras, como aquela que Joaquim Caetano aponta como a "obra-prima": o retábulo da igreja de Santa Croce em Fossabanda de Pisa. Pedro Dias refere-se a essa obra como "documento fundamental" pelo que nela consta além do seu valor artístico: "Álvaro Pires de Évora Pintou", assinatura do pintor que assim mostra ser português e de quem, em 2001, o Estado comprou por 64 mil contos (320 mil euros), A Virgem com o Menino entre S. Bartolomeu e Santo Antão, sob a Anunciação, para o Museu de Évora, então dirigido por Joaquim Caetano. Essa é a única obra em Portugal de Álvaro Pires, presente em coleções como as do Museu do Louvre ou do Metropolitan Museum of Art. Giorgio Vasari, o grande biógrafo dos pintores do Renascimento (revolução que não atravessou a obra do pintor português), refere-se a ele como Alvaro di Piero di Portogallo, quando escreve sobre outro artista.

Christopher Apostle, que dirige o departamento de mestres de pintura antiga da Sotheby"s, diz ao DN que "raramente" aparece um "Alvaro Portoghese", como lhe chama. "O último que a Sotheby"s teve foi há cerca de 10 anos." Em 2005, venderam São Miguel, "por 180 mil dólares, que continua a ser o recorde do artista em leilão", afirma.

Não querendo falar acerca do pedido do MNAA, avançado pelo jornal Público há cerca de duas semanas, e que que segundo a Direção-Geral do Património Cultural está a ser avaliado, Joaquim Caetano lembra que "não sabemos rigorosamente nada sobre a pintura portuguesa na altura dele". Falando do MNAA, cujo pedido o grupo parlamentar do PSD já apoiou num projeto de resolução entregue na Assembleia da República, explica: "Tem um retrato de D. João I, que é o rei do tempo de Álvaro Pires, de um pintor da época; e depois passamos imediatamente para os Painéis de São Vicente, do Nuno Gonçalves, meio século posteriores. Antes não temos nada para nos agarrar, que nos dê ideia do que é que um artista português estaria a fazer. O Álvaro Pires ajudava ali bastante a criar um discurso sobre o que é este período muito de sombra."

"Nós já tivemos oportunidades de ter outras obras do Álvaro Pires de Évora", argumenta Pedro Dias, a quem surpreende que o Estado, indo a este leilão, compre a obra por um valor que considera "completamente inflacionado", depois de rejeitar outras que considera mais importantes. O professor catedrático, ex-diretor da Biblioteca Nacional e conselheiro científico das "Maravilhas Portuguesas", recorda que, na altura da exposição que organizou, a obra Santa Catarina e um Apóstolo, um díptico de um metro de altura vendido pela antiga República Democrática Alemã (RDA) e por ele encontrado "numa feira de antiguidades em Milão", esteve para ser comprada pelo Governo português, que chegou a autorizar a venda, depois subitamente rejeitada pelo extinto Instituto Português dos Museus. A essa junta ainda outra "que estava à venda por 40 mil na galeria Wildenstein [em Nova Iorque], e que ninguém quis, e outros três quadros em Londres, todos mais importantes. Agora aparece uma campanha, lançada para a imprensa, a dizer que o quadro vale a pena."

Nuno Vassallo e Silva, ex-diretor-geral do Património Cultural, afirma que esta "é uma aquisição importante, se o Estado português tiver disponibilidade", considerando, contudo, que essa aquisição deve ser feita "dentro da razoabilidade, e não a qualquer preço". O historiador de arte considera ainda que o facto de o pedido do MNAA ser agora público é "uma forma de pressionar o ministério da Cultura". E é nele que amanhã, no começo do leilão, os olhos estarão postos: na sua ausência ou presença.

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