Morreu Jeanne Moreau, símbolo do cinema francês e europeu

Um dos nomes grandes da história do cinema moderno, com uma longa carreira repartida por sete décadas

Jeanne Moreau foi encontrada morta em sua casa, no dia 31 de julho - contava 89 anos. Desaparece assim uma figura central na história do cinema francês e, em boa verdade, de todo o cinema europeu das últimas sete décadas - desde os tempos heroicos da Nova Vaga, com Fim de Semana no Ascensor (1958) e Os Amantes (1958), ambos dirigidos por Louis Malle, manteve uma atividade regular até há muito pouco tempo, tendo integrado o elenco de O Gebo e a Sombra (2012), derradeira longa-metragem de Manoel de Oliveira.

Situá-la como figura tutelar da arte europeia não é uma mera figura de retórica jornalística. Não foi, obviamente, por pressão dos media que Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, se juntou às vozes do presidente Emmanuel Macron e do antigo ministro da Cultura Jack Lang para celebrar Moreau como um talento que "marcou a cultura europeia", refletindo sempre os "valores da União".

Com uma sólida experiência teatral, incluindo uma passagem pela Comédie Française (que ela recordava sempre como uma lição exemplar de "disciplina"), terá tido um momento decisivo de reconhecimento e projeção quando, em 1960, ganhou um prémio de interpretação em Cannes, graças a Moderato Cantabile, o filme de Peter Brook baseado no romance de Marguerite Duras. Meio século mais tarde, em Aquele Amor (2001), interpretou com comovente subtileza a personagem da própria Duras.

Trabalhou sob a direção de mestres como Michelangelo Antonioni (A Noite, 1961), François Truffaut (Jules e Jim, 1962), Jacques Demy (A Grande Pecadora, 1963), Luis Buñuel (Diário de uma Criada de Quarto, 1964), Orson Welles (As Badaladas da Meia-Noite, 1965), Joseph Losey (Mr. Klein), Elia Kazan (O Grande Magnate, 1976) ou Rainer Werner Fassbinder (Querelle, 1982).

De uma versatilidade invulgar, capaz de exprimir as subtilezas românticas, tanto quanto as convulsões trágicas, foi uma atriz que soube envelhecer no ecrã de forma invulgarmente sóbria. Na fase final da sua carreira, é forçoso destacar a sua composição em O Tempo que Resta (2005), de François Ozon, interpretando a avó de um homem gay que sabe que tem poucos meses de vida.

Entre as muitas distinções que recebeu inclui-se um BAFTA de melhor atriz estrangeira por Viva Maria! (1965), de Louis Malle, uma Palma de Ouro honorária em 2003, no Festival de Cannes, e um César honorário, atribuído em 2008, quando completou 60 anos de carreira. Em Cannes, presidiu duas vezes, em 1975 e 1995, ao júri oficial - as Palmas de Ouro foram, respetivamente, para Crónica dos Anos de Brasa, de Mohammed Lakhdar-Hamina, e Underground, de Emir Kusturica.

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