La La Land: Sonhos delirantes ou a arte da simulação?

O filme mais nomeado aos Óscares estreia hoje em Portugal. Os críticos do DN Rui Pedro Tendinha e João Lopes não são unânimes.

A FAVOR

Irmos ao céu e ficarmos lá com Damien Chazelle

O musical moderno ou pós-moderno em Hollywood para consumo comercial andava desaparecido. É preciso pensarmos em Baz Luhrmann (que faz sempre musicais...) em 2001 com o seu magnífico e feérico Moulin Rouge para respirarmos de alívio. Antes, um pouco antes, em 2000, Lars Von Trier, com a ajuda de Bjork, também fez algo que ultrapassou muitas transcendências. Chamava-se Dancer in The Dark mas não era Hollywood. E La La Land - Melodia de Amor é precisamente Hollywood, uma evocação contemporânea daquilo que pode ser uma memória ou um espírito dos musicais clássicos da época dourada.

Na verdade, mais do que um musical, é um filme na terra do cinema. Chazelle não cria coreografias, cria sonhos delirantes de cinema. Além de citar as heranças mais clássicas, faz algo de novo: dá-lhe arrojo pop, misturado de vénia explícita a Jacques Demy ou ao Coppola de Do Fundo do Coração. E fá-lo com um jogo de cintura emocional que há muito não se via, a começar pelo facto de nos fazer apaixonar por um casal, coisa raríssima nesses dias. Faz-nos ficar tolos como quando estamos apaixonados - como no momento em que se ouve Emma Stone a cantar "esta é para os que sonham".

Sim, La La Land não pede espectadores cínicos, pede sonhadores. Gente que vá ao cinema para se emocionar sem receios e acreditar num rapaz e numa rapariga apaixonados. Melhor de tudo, nesse transbordar de emoções de coração aberto, pede--nos para levitar, bater o pé ao ritmo das já imortais melodias de Justin Hurwitz e voar, voar lá para bem perto da cidade das estrelas (e que carta de amor linda é este filme à cidade de Los Angeles!), se possível com licença para sermos ligeiramente tolos e piegas. Tal como quando estamos apaixonados, importa repetir. Damien Chazelle filma tudo isso com um sentido de paixão sincero, quase escancarado, mas ao mesmo tempo sem se levar a sério - chega a ser comovente quando Emma Stone se ri a meio da sua performance da canção que vai vencer o Óscar, City of Stars. Aliás, ficamos tão embriagados com o efeito de encantamento disto tudo que quase apetece que vença os 13 Óscares possíveis (na categoria da canção só pode ganhar uma...).

Se haja quem censure este musical por ser ligeiro ou batoteiro nas referências, que fique com Os Miseráveis e os Rob Marshals das adaptações da Broadway rotineiras.

Pela calada, La La Land é também um grande filme sobre a vida que não tivemos. Daqui a uns 30 anos falar-se-á da geração que foi feliz com este salto para esta festa de jazz e amor ao cinema.

Rui Pedro Tendinha

***** Excecional

CONTRA

O musical da nossa era virtual

Será possível comparar La La Land com a tradição clássica do musical de Hollywood, de Serenata à Chuva (1952) a West Side Story (1961), passando por A Roda da Fortuna (1953) ou Brigadoon (1954)? Lamento, mas não vejo como tal seja possível. E não só porque tal tradição se enraizava nos valores técnicos e artísticos de um sistema de produção que deixou de existir (por alguma razão conhecido como studio system). Também porque Damien Chazelle confunde a prática pueril da citação com a construção de uma narrativa.

As limitações de execução do filme ficam patentes logo na cena de abertura, no meio do trânsito de Los Angeles. Além do academismo da coreografia, Chazelle regista tudo através dessa "estética de telemóvel" (triunfante nos dias que correm, é um facto) em que a agitação da câmara tem como primeiro efeito dificultar a própria perceção daquilo que nos é apresentado. Além do mais, mesmo que a opção seja algo irónica, não é fácil construir um par romântico (e musical) quando a agilidade dançante de Emma Stone e Ryan Gosling é muito limitada e ambos, sobretudo ele, cantam de forma muito aplicada, mas sem alma.

Provavelmente, no imaginário revivalista de Chazelle, tais limitações não constituem um problema, antes definem um método: para ele, a memória simbólica do cinema esgota-se no fingimento "à maneira de". Na sua primeira longa-metragem, Whiplash (2014), para encenar a arte (?) de um baterista, ele achava mesmo que exibi-lo com as mãos em sangue era uma forma triunfal de exaltação do espírito do jazz... Ainda hoje me espanto como tal obscenidade simbólica não ofendeu os especialistas do jazz (mas esse é um problema meu).

Acontece que La La Land é um produto muito direto e, à sua maneira, muito genuíno e sincero (não é isso que está em causa) de uma nova cultura "cinéfila" construída a partir de uma visão fragmentada e fragmentária das próprias tradições que evoca e invoca. O conhecimento virtual (um fragmento, outro fragmento, um link, uma multidão de links) tende a satisfazer-se com a prática quotidiana da simulação.

No seu livro Amérique (Grasset, 1986), Jean Baudrillard dizia que os americanos vivem em permanente hiper-realidade, ignorando a própria simulação em que se movimentam: "São a configuração perfeita da simulação, mas não conhecem a sua linguagem, já que são a sua encarnação." Tal estética do simulacro é igualmente importante para compreendermos Damien Chazelle ou Donald Trump. O autor de La La Land é, bem entendido, mais interessante.

João Lopes

** Com interesse

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