Jogo de Damas. Cinco amigas, uma casa e um funeral

As atrizes, a realizadora e a escritora construíram um filme a partir de enigmas. A morte é uma maneira de falar sobre a vida

O Jogo de Damas que hoje tem estreia nas salas não é daqueles filmes em que os atores memorizam o argumento e interpretam o que lhes foi entregue. Foi construído pela realizadora, as cinco atrizes e a argumentista, num mergulho que foi muito fundo em cada uma delas. Só a meio do processo a realizadora sentiu que estava ali um filme a sério. No fim, quando as luzes se acendem, cada espectador desenhou o seu próprio filme, feito de memórias, perdas, amores e, principalmente, amizades.

No princípio, houve uma mensagem que Patrícia Sequeira enviou a Rita Blanco, Ana Padrão, Ana Nave, Maria João Luís e Fátima Belo. Uma pequena animação com uma boneca e a pergunta: "Queres jogar comigo?" Responderam todas afirmativamente, mas a primeira reação de cada uma foi significativa. As duas anas limitaram-se a dizer sim. Maria João pensou que era uma aplicação pornográfica (a boneca estava despida). Fátima achou que era um vírus. Rita pegou no telefone e perguntou: "O que é isto?"

Começaram as conversas a seis: barulhentas, confusas, íntimas, com alguns "pontos de enredo", como explica Patrícia. A realizadora está muito habituada a enredos, dada a longa experiência de realizar telenovelas - Laços de Sangue, Sol de Inverno, Mar Salgado, e as séries Cidade Despida, Conta-me como Foi (segunda parte), E Depois do Adeus e, agora, Terapia que insiste em fazer apesar de ter mil outras tarefas como coordenadora artística da produtora SP Televisão.

Os pontos de enredo podiam ser: Maria João está zangada com Ana Nave porque não foi ao funeral da mãe dela; ou as anas não se falam, sabe-se lá porquê; ou houve um beijo que pode ter sido apenas um beijo ou muito mais. A história toda em aberto para as cinco atrizes a escreverem. Juntaram-se, quatro dias, num turismo rural em Alcácer do Sal, cada uma na sua casa, e cada uma recebeu uma carta escrita à mão por Patrícia. Eram as cartas de despedida de Marta, a amiga que tinha morrido e que era a razão de se encontrarem juntas num espaço construído por ela. Estavam elas, a Patrícia, e os cães de Rita Blanco. "Disse-lhe "por favor não tragas os cães", e claro que ela levou e claro que foi essencial ter levado", conta Patrícia, que recorda que todas as manhãs faziam ioga ("aquilo era muita energia junta").

As cartas eram todas diferentes, dirigidas com precisão a cada uma, e só ela a podia ler. Ler até às lágrimas. Patrícia conta que a certa altura sentiu que estava criado um clima emocional tão forte que havia um filme a fazer, e que tinha de ser ali, naquela casa, em nenhum outro lugar antes pensado. As personagens cresciam, feitas das histórias que Patrícia propunha e das vidas de cada uma daquelas cinco atrizes.

Só depois este trabalho todo foi confiado à poeta e jornalista Filipa Leal, para escrever o argumento de Jogo de Damas. Filipa tinha acabado de perder a mãe, uma morte súbita, um choque a cortar ao meio a vida desta mulher de 35 anos. O que ela escreveu encaixou nas personagens como se tivesse participado em todo o processo, mas os diálogos por ela trabalhados tornaram tudo melhor.

Nunca no filme se sabe como era a amiga desaparecida, a ausência constante que tem afinal uma presença tão forte. Na cabeça de cada atriz - e da realizadora, e da argumentista -, Marta tem certamente muitas caras, traços de muitas pessoas.

O filme foi feito por Patrícia Sequeira durante as férias de 2014, financiado por ela própria - custou "140 mil euros e mais qualquer coisa" - e teve ajuda financeira da empresa que cedeu o material de filmagem.

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